No
dia 16 de julho de 2008, a embaixadora Maria Luiza
Ribeiro Viotti completa um ano à frente da Missão
do Brasil nas Nações Unidas. Primeira mulher a
chefiar a Missão, Ribeiro Viotti trouxe para Nova
York a experiência de 30 anos de Itamaraty.
Poucos meses após apresentar suas credenciais ao
Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, ela já
liderava os trabalhos da Comissão de Consolidação
de Paz para produzir uma estratégia pacífica
para a Guiné-Bissau, um outro país de língua
portuguesa, na África.
O que o país pretende realizar nesse segundo
mandato no Conselho de Direitos Humanos?
Maria Luiza Ribeiro Viotti: A reeleição do
Brasil ao Conselho de Direitos Humanos com uma
votação superior em relação à eleição para
o primeiro mandato é um fato muito auspicioso.
Acho que reflete um reconhecimento da contribuição
que o Brasil pôde fazer não só para a criação
do Conselho, mas para sua consolidação
institucional. Creio que durante o segundo mandato
vamos reforçar nossa atuação, dando seguimento
a iniciativas importantes que o Brasil tem lançado,
como por exemplo a proposta de definição de
metas voluntárias em matéria de direitos
humanos, para adoção ao final deste ano, quando
se comemoram os 60 anos da Declaração dos
Direitos Humanos. O Brasil presidiu o Grupo de Países
da América Latina e Caribe durante os dois anos
iniciais do Conselho de Direitos Humanos, tendo
contribuído para o estabelecimento de um dos avanços
do Conselho em relação à Comissão que o
precedeu, que foi o Mecanismo de Revisão Periódica.
O Brasil submeteu-se voluntariamente a essa revisão.
O relatório brasileiro foi muito bem recebido,
inclusive pela forte participação da sociedade
civil em sua elaboração. O Mecanismo de Revisão
Periódica é algo muito positivo pois trata-se de
um instrumento mais universal, menos seletivo e
que ajuda a reduzir o nível de politização no
tratamento das questões de direitos humanos.
Como a sra. falou, o país passou por esse
Mecanismo de Revisão Periódica e houve algumas
recomendações, também com relação ao sistema
carcerário brasileiro. Como o país pretende
implementar essas recomendações?
MLRV: O Brasil considera que as recomendações
do Conselho são válidas e nos ajudam a reforçar
a atuação interna. Os problemas apontados, entre
os quais a situação prisional, são reconhecidos
pelo governo e pela sociedade no Brasil, havendo
estratégias para enfrentá-los. As recomendações
são bem-vindas, assim como são bem-vindas as
manifestações positivas em relação a avanços
que o Brasil já realizou e continua a realizar em
matéria de direitos humanos, como por exemplo os
progressos na área do direito à saúde e à
alimentação. O Brasil já alcançou a primeira
Meta de Desenvolvimento do Milênio, que é a redução
da fome e da pobreza. Essa conquista foi muito
valorizada no exame do Brasil pelo Conselho de
Direito Humanos. Temos feito progressos também na
área de saúde, na área de combate a doenças
como HIV/Aids, tuberculose e malária, na área de
combate à violência contra a mulher e do combate
ao racismo. Esses progressos que foram
reconhecidos durante nossa apresentação.
Como a sra. analisa a probabilidade de uma
assento no Conselho de Segurança e também o
futuro do país na organização?
MLRV: O que se nota aqui nas Nações Unidas
é um crescente reconhecimento das credencias do
Brasil para um assento permanente num Conselho de
Segurança ampliado. Tenho muita confiança de
que, ao ampliar-se o Conselho de Segurança, o
Brasil será um dos países contemplados. Noto
também um forte consenso de que essa reforma é
necessária, para que o Conselho possa refletir as
realidades contemporâneas, que são muito
diferentes da realidade política prevalecente à
época da criação das Nações Unidas. O que
ainda não está muito claro é a modalidade de
expansão que poderia ser factível neste momento.
Essa definição terá que ser o resultado de
negociações. Há consultas em curso para que se
estabeleça um processo negociador com esse
objetivo. A Missão do Brasil está muito
empenhada. Temos trabalhado de forma articulada
com o conjunto de países que têm aspirações
semelhantes, o chamado G-4, que compreende
Alemanha, Brasil, Japão e Índia.
Um outro exemplo da ativa participação
brasileira é a Guiné-Bissau, país de língua
portuguesa que está emergindo de um conflito a
caminho da paz. A senhora está presidindo essa
primeira fase de estratégia para a Guiné. O que
pode nos contar sobre esse processo?
MLRV: A experiência de coordenar a configuração
para Guiné-Bissau da Comissão de Construção da
Paz das Nações Unidas tem sido muito
interessante. Visitei o país duas vezes este ano,
desde que o Brasil assumiu a coordenação. Estive
em Bissau em fevereiro, e voltei em abril, com uma
delegação da Comissão. Essas visitas e a interação
constante com o governo e a sociedade de Guiné-
Bissau têm permitido identificar as principais
prioridades do país para a consolidação da paz
e a promoção do desenvolvimento. A realização
de eleições legislativas de forma transparente e
livre é uma das prioridades imediatas. Há um
ambiente de estabilidade, que precisa ser mantido,
e há um grande potencial a ser explorado para o
desenvolvimento do país na área da agricultura,
da pesca e do turismo. Nosso papel é o de
mobilizar a comunidade internacional para apoiar
Guiné Bissau no fortalecimento de suas instituições
e na reativação de sua economia. Vários países
têm vindo contribuir para esse esforço, seja
através de aportes financeiros, seja através de
cooperação técnica, como é o caso do Brasil.
Estamos muito esperançosos de que nosso trabalho
possa ajudar Guiné Bissau.
Como o Brasil pretende convencer os críticos e
céticos de que o etanol é o futuro de uma estratégia
de desenvolvimento sustentável?
MLRV: Esse convencimento vendo sendo feito no
dia-a-dia. Aqui na ONU, temos tido várias
oportunidades. O Presidente Lula enviou mensagem
à reunião de alto nível do Conselho Econômico
e Social, Ecosoc, que se realizou em maio, para
afirmar que o etanol, conforme demonstra a experiência
brasileira, contribui para a geração de energia
limpa e barata, e para a criação de emprego e
renda. O Presidente esclareceu também que o
etanol brasileiro, que é produzido a partir da
cana de açúcar, não compete com a produção de
alimentos. Ao contrário, o aumento da participação
do etanol na matriz energética brasileira tem
coincidido com o aumento considerável da produção
e exportação de alimentos. Isso tem sido possível
demonstrar com fatos, números e estatísticas, e
espero que pouco a pouco haja uma melhor compreensão
por parte da comunidade internacional a respeito
dessa questão. O Professor Jeffrey Sachs,
eminente economista norte-americano, que freqüentemente
participa das reuniões da ONU, tem corroborado
nossos argumentos e a visão de que o etanol no
Brasil é um programa que faz sentido, do ponto de
vista econômico, social, energético e como
importante componente de uma estratégia de
combate à mudança climática.