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RESENHA

Foucault, arqueólogo

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

  Por Dawisson Belém Lopes

 

A Arqueologia do Saber é texto de intelecção difícil – embora, de modo algum, mal escrito. A forma de redação circular – às vezes, labiríntica – do argumento apresentado por Michel Foucault pode levar o leitor (mais acostumado às narrativas lineares) a distrair-se, sair do trilho do raciocínio e, conseqüentemente, perder muito do que é essencial nesta obra. O autor, figura proeminente entre os pós-estruturalistas franceses do século XX, propunha, à época em que vieram a público as suas idéias, uma verdadeira ruptura epistemológica. Com base, sobretudo, na lingüística, Foucault combate uma certa tradição positivista, muito pouco inclinada a admitir as descontinuidades dos processos históricos e discursivos. Ele contesta, antes de qualquer outra coisa, a pretensão totalizante do homem moderno, sistematizando alguns dos insights prévios de Karl Marx e Friedrich Nietzsche. Sistematização que, ela mesma, não escapa às descontinuidades discursivas – o que, digamos assim, parece bastante coerente com o argumento de fundo da obra.

Na introdução a A Arqueologia do Saber, Foucault estabelece algumas das bases sobre as quais construirá a sua argumentação. Nota, desde logo, que história do pensamento e história propriamente dita são duas modalidades diferentes do saber, que correm em raias distintas – e não necessariamente paralelas. Conhecimentos, filosofia, literatura cruzam-se, modelam-se e remodelam-se através do contato estabelecido com as estruturas físicas, materiais, naturais. Uma perspectiva linear, portanto, é incapaz de apreender a natureza do problema que interessa ao autor: as múltiplas rupturas, continuidades e descontinuidades do processo histórico.

Uma inserção importante é a que promove a diferenciação entre documento e monumento. Para Foucault, a história convencional é aquela que busca “memorizar” os monumentos, feitos, eventos, episódios do passado; transformando-os, para tanto, em documentos, livros, textos, narrações, registros. A tendência percebida é de que, nos nossos dias, esse mesmo estudo da história começa a voltar-se para si – não de um modo auto-referente e estéril; mas buscando o diálogo com o próprio monumento descrito. Trata-se, por assim dizer, de uma escavação dos sentidos; de um processo arqueológico, pois.

            Um dos traços da “nova história” de Foucault é o deslocamento do descontínuo: da condição de obstáculo heurístico à de elemento fundamental à prática e ao discurso do historiador. Decorrentemente, a nova história também se defronta, como se é de supor, com dificuldades no referente ao método. Se se abre mão das condições que fazem possível o conhecimento nos moldes lineares do positivismo científico, inaugura-se o dilema da escolha da estratégia metodológica. Dilema porque, na ausência de uma medida ideal para todos os processos – coisas, palavras etc. –, uma opção por uma técnica ou abordagem específica dá-se em prejuízo de outras tantas. Além do quê, os problemas que importam ao campo histórico podem, freqüentemente, encontrar-se fora dele – na etnologia, na lingüística, na crítica literária, na economia. Daí o diagnóstico foucaultiano de que estamos, ainda hoje, longe de poder cobrir o campo metodológico da história.

            Essas dificuldades metodológicas derivam, ao menos em parte, de uma mutação epistemológica que lhes anteveio, e que ainda não se consumou completamente. Se a história do pensamento pudesse ter permanecido como “o lugar das continuidades ininterruptas”, esta seria, “para a soberania da consciência, um abrigo privilegiado” (p. 14). A história contínua serve bem ao propósito de projetar o sujeito ao centro de tudo, ao papel de ser originário. Nesse sentido, as revoluções sociais não passariam de “tomadas de consciência”. Para Foucault, é Karl Marx quem lança o primeiro questionamento consistente à pretensão humana da potencial onisciência, explorando o peso das determinações econômicas e dos processos produtivos sobre a configuração da história e das ações do homem. “O homem faz a história, mas em circunstâncias que ele próprio desconhece” – dirá Marx, no 18 Brumário de Luís Bonaparte.

Colocam-se em xeque, nesta produção literária, as teleologias e as totalizações, bem como o “antropologismo” (vinculação automática e forçosa entre historicidade e consciência do homem). Não se pretende, por outro lado, incensar o estruturalismo, tampouco inventariar as suas (supostas) vantagens metodológicas. A este propósito, esclarece Michel Foucault, a meta da obra é explorar o campo em que se articulam as noções de ser humano, de consciência, de origem e de sujeito histórico.

Ao longo da parte II de A Arqueologia do Saber, trata Michel Foucault das assim chamadas “regularidades discursivas”. Combate a noção de unidade de um livro ou de uma obra; tanto quanto as divisões em categorias ou gêneros. O que, a rigor, distingue a literatura da política? A religião da filosofia? O western da ficção científica? O que faz um quadro de Rembrandt diferente de outro? Ou de uma tela de Picasso? Ou de uma serigrafia de Warhol? Afinal, como o autor sugere, todo texto é um intertexto. O cruzamento de referências semânticas, estéticas, gramaticais é aspecto que torna a organização da realidade uma missão que beira o inviável. Há um inescapável componente de arbitrariedade em todo exercício de classificação.

Para além, Foucault parece atento à artificialidade dos começos. A ação de apontar um marco inicial para uma determinada trajetória traz à tona a não-problematização das continuidades discursivas, um vício recorrente de nossas leituras de mundo. O autor, então, propõe: “uma vez suspensas essas formas imediatas de continuidade, todo um domínio encontra-se, de fato, liberado” (p. 29). Esse domínio seria constituído pelo universo dos enunciados efetivos (falados ou escritos). Mas não se trata de suspender as continuidades discursivas em definitivo; e, sim, de compreender o enunciado na estreiteza de sua situação, de determinar as condições de sua existência e de fixar os seus limites (p. 31). É para isso que serve a referida técnica da problematização. A provocação que Foucault auto-impõe-se é a seguinte: para que questionar todas as unidades admitidas se, ao cabo, elas reaparecerão, absolutamente intactas, no discurso? A resposta: “a supressão sistemática das unidades inteiramente aceitas permite (...) restituir ao enunciado sua singularidade de acontecimento” (idem, grifo nosso). O método foucaultiano sugere uma inspeção ontológica da unidade discursiva.

O que explica a formação dos discursos? São quatro as hipóteses passadas em revista. A primeira: os enunciados formam um conjunto quando se referem a um mesmo e único objeto. A segunda: é o estilo, ou um certo “caráter constante da enunciação” (vide o estilo dos médicos, com seus jargões e formas de expressão comuns), o que define um discurso qualquer. A terceira: é o sistema de conceitos mobilizado por um grupo de enunciados o que determina a existência de um discurso. A quarta: o agrupamento de enunciados depende da persistência de um certo tema. Foucault, no entanto, afirmará que as quatro “regras de formação” (objeto comum, estilo, sistema conceitual, recorrência temática) não são o bastante para teorizar sobre a formação de um discurso. Mas que todas as regras, combinadas entre si, podem – desde que se observe alguma regularidade discursiva (isto é, uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações) – constituir o discurso. É a regularidade, portanto, o fator-chave para a ocorrência dos discursos.

A formação do objeto de um discurso fica também condicionada a alguns critérios: a demarcação das superfícies da sua emergência (como? onde? quando surgiu o objeto?), as instâncias de delimitação (os mecanismos formais e informais de delimitação do objeto), e as grades de especificação (os sistemas que empregamos para separar os objetos entre si). O autor postula que as relações discursivas não são internas ao discurso; antes, estão no limite do discurso: oferecem-lhe os objetos de que ele poder falar, e caracterizam o discurso enquanto prática. Assim sendo, é razoável sustentar que não são os objetos de discurso o que permanece constante no curso do tempo, e sim “o estabelecimento de relação entre as superfícies em que podem aparecer, em que podem ser delimitados, analisados e especificados” (p. 52-53).

Existem diversas formas de enunciação do discurso: descrições qualitativas, narrações biográficas, manchetes jornalísticas, estimativas estatísticas, deduções e analogias, etc. Mas que relação se pode fazer entre umas e outras? Ademais, quais são os lugares institucionais de onde vêm?  De uma redação de jornal? Do cinema e do teatro? Do meio acadêmico? De um comitê político? De um escritório advocatício? Parece haver, então, uma cadeia de relações em jogo, envolvendo, a um só tempo, as características intrínsecas dos enunciados e os ambientes onde emergem. Isso faz do discurso um “articulador de planos”, ou seja, um ponto de encontro entre os tipos enunciativos e as circunstâncias rondantes. Já no que diz respeito à formação dos conceitos que integrarão os discursos, é importante frisar que existe, na elaboração foucaultiana, a imagem de uma gramática geral, a qual define domínios de validade (segundo que critérios pode-se discutir a verdade ou a falsidade de uma afirmação), de normatividade (segundo que critérios os enunciados são excluídos como não pertinentes ao discurso, ou marginais, ou não-científicos) e de atualidade (compreendendo as soluções adquiridas, os problemas presentes, os conceitos e afirmações caídos em desuso). Em passagem que condensa seu esforço de argumentação, Foucault profere:

Para analisar as regras de formação dos objetos, vimos que não seria necessário nem enraizá-los nas coisas nem relacioná-los ao domínio das palavras; para analisar a formação dos tipos enunciativos, não seria necessário relacioná-los nem ao sujeito cognoscente nem a uma individualidade psicológica. Da mesma forma, para analisar a formação dos conceitos, não é preciso relacioná-los nem ao horizonte da idealidade nem ao curso empírico das idéias. (p. 70)

            Os discursos resultam, como se depreende, de um jogo complexo de interações, repleto de idas e vindas, induções e deduções, generalidades e especificidades, objetividades e subjetividades, abstrações e concretudes. A lógica acima exposta aplica-se, ainda, às estratégias discursivas: não é preciso relacionar a sua formação nem a um projeto fundamental nem ao jogo secundário das opiniões (p. 78). Na seqüência, Foucault avança a hipótese de que, se há unidade em um discurso, ela não se deve a uma coerência visível e horizontal entre os objetos, mas ao sistema que torna possível e rege a sua formação. Tais sistemas de formação residem no próprio discurso, ou, antes, em suas fronteiras. “Definir em sua individualidade singular um sistema de formação é, assim, caracterizar um discurso ou um grupo de enunciados pela regularidade de uma prática” (p. 82-83).

Foucault principia a parte III da Arqueologia imbuído no propósito de planificar conceitualmente o seu argumento. Começa definindo o ato ilocutório: o que se produziu pelo próprio fato de ter sido enunciado, em circunstâncias bem determinadas. Esclarece, adiante, que seria equivocado o entendimento de que enunciado e ato ilocutório se equivalem. O enunciado vai além do ato ilocutório (speech act), na medida em que, para existir o enunciado, basta haver o signo lingüístico. O enunciado não é uma unidade da mesma modalidade da frase, do ato de linguagem ou da proposição; tampouco é uma unidade do tipo que um objeto material pode ser. Não é uma estrutura ou um recorte de um nível de análise. Trata-se, a rigor, de “uma função que pertence, exclusivamente, aos signos, e a partir da qual se pode decidir, em seguida, (...) se eles [os signos] ‘fazem sentido’ ou não, segundo que regra se sucedem ou se justapõem, de quê são signos, e que espécie de ato se encontra realizada por sua formulação (oral ou escrita)” (p. 98).

A descrição do nível enunciativo não se faz através de abordagens formais ou semânticas; faz-se pela análise das relações entre o enunciado e os espaços de diferenciação. Via de regra, outros três aspectos distinguem o enunciado dos diversos elementos lingüísticos: a existência de um sujeito exterior que profira os signos (que não é, necessariamente, o sujeito do enunciado); a constatação de que o enunciado não existe sem um domínio que lhe seja associado (o que o diferenciará, por exemplo, da frase e da proposição); e, por fim, a materialidade da sua existência. A identidade do enunciado virá à tona apenas no contraste com o universo dos enunciados. “A afirmação de que a Terra é redonda ou de que as espécies evoluem” – propõe Michel Foucault – “não constitui o mesmo enunciado antes e depois de Copérnico, antes e depois de Darwin” (p. 116). Não mudaram os signos, ou o sentido das afirmações; mas, sim, a relação que mantinham com outras proposições, suas condições de utilização, o campo da experiência, dos problemas a resolver etc. Importante é tomar nota da alegação foucaultiana de que o enunciado, em comparação com outros caracteres lingüísticos, tem a particularidade de poder ser repetido – embora tal repetição sempre esteja premida por constrangimentos de toda sorte.

Na descrição que busca fazer dos enunciados, Foucault aclara novos conceitos. Assim, performance lingüística (ou verbal) é o nome dado a todo conjunto de signos efetivamente produzidos a partir de uma língua natural ou artificial; formulação é o ato individual (ou, para sermos rigorosos, coletivo) que faz surgir, segundo uma forma determinada, o grupo de signos; frase ou proposição é a unidade que a gramática ou a lógica consegue reconhecer em um conjunto de signos; chama-se de enunciado a modalidade de existência própria dos signos agrupados, o que lhes permite diferenciar-se de uma série qualquer de traços. Em consonância com os conceitos postos, o discurso é definido como o conjunto dos enunciados que se apóia em um mesmo sistema de formação – daí poder-se falar em “discurso economicista” ou “discurso médico”. Um enunciado pertence a uma formação discursiva, assim como uma frase pertence a um texto. Logo, os limites do discurso apontarão, por implicação, o nível específico do enunciado. Tais limites discursivos são constituídos e reconstituídos, não estando infensos à incidência das variáveis espaço-temporais. A construção escalonada de conceitos promovida por Foucault culmina com a caracterização da prática discursiva como sendo “o conjunto das regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma determinada época ou para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da função enunciativa” (p. 133).

No que reputo como um dos momentos argumentativos mais férteis da narrativa, o autor põe-se a explorar as conexões entre raridade, exterioridade e acúmulo no contexto do discurso. Os enunciados são “raros” – no sentido empregado por Foucault – porquanto são pouquíssimos em relação a tudo aquilo que não está dito. O enunciado é, por assim dizer, uma pequena fração incluída no campo do discurso, que, para tornar-se efetiva, coexiste com “exclusões” de possibilidades lingüísticas. “Cada enunciado ocupa um lugar que só a ele pertence”, afirma o pensador francês. Já que poucas coisas podem ser efetivamente ditas, resta-nos, para combater a pobreza enunciativa, o recurso da interpretação – maneira encontrada pelo homem para construir pontes lógicas e semânticas. Outro traço característico dos enunciados é que nós os analisamos de fora para dentro. Na impossibilidade de falar-se em “neutralidade”, o analista deve ser capaz de transitar entre a superfície exterior do enunciado e o seu interior, não se detendo em nenhuma das duas dimensões. Importa não só o que é dito (a suposta “essência”), mas o lugar de onde se diz. Ainda há que considerar o aspecto da acumulação: os enunciados devem ser analisados em suas propriedades de (i) remanência (ou seja, a capacidade de conservação em virtude de certas técnicas materiais [e. g., o livro e a tela de cinema], instituições [e. g., a biblioteca e a escola] e estatutos [e. g., o científico e o religioso]), de (ii) aditividade (a capacidade de acumular significativamente enunciados, que não por simples amontoamento ou justaposição) e de (iii) recorrência (a faculdade do enunciado de sempre trazer consigo os elementos antecedentes). A técnica foucaultiana, em suma, envolve: a) substituir a busca da totalidade pela análise da raridade; b) substituir o fundamento transcendental pela descrição das relações de exterioridade; e c) substituir a busca da origem pela análise dos acúmulos. Trata-se, por tudo isso, de uma intervenção inovadora para a teoria do conhecimento.

            Por fim, o arquivo também é definido por Foucault: são sistemas que instauram os enunciados como “acontecimentos e coisas”. Ele é indissociável das práticas discursivas, pois. Embute, em sua própria definição, o sistema de sua enunciabilidade (enunciado-acontecimento) e o sistema de seu funcionamento (enunciado-coisa). Situa-se entre a língua (sistema de construção das frases possíveis) e o corpus lingüístico (repositório passivo de todas as palavras pronunciadas): é o “sistema geral da formação e da transformação dos enunciados” (p. 148).

Próximo do encerramento da seção, o autor introduz a noção de “arqueologia”, que dá título à obra. Em poucas palavras, a expressão designa o ato de “interrogar o já dito”, no nível de sua existência – ou seja, o nível enunciativo. Mas é apenas na seção seguinte do trabalho que será feita a descrição do método arqueológico foucaultiano.

            Bem ao início da parte IV da Arqueologia, o autor chama a atenção para a dificuldade de fixação de limites nas elaborações da história das idéias. Esta se constitui como a disciplina “dos começos e dos fins”, das balizas e dos marcos temporais, dos fatos e dos eventos recortados, dos encaixes perfeitos e das continuidades suaves. A ilusão da objetividade cobra o seu preço: o simplismo, a imprecisão, a distorção no nível das ontologias. São múltiplos os pontos de diferenciação entre o método arqueológico e a história das idéias. Foucault lista alguns: a) a arqueologia interpela o “monumento” em si, em toda a sua opacidade, e não o “documento”; b) ela explora o discurso em sua especificidade, sem buscar o “fio de Ariadne” que religa todas as idéias a um inescrutável começo absoluto, ou a um pretenso terminus ultimus; c) ela não é ordenada pelo critério da obra ou do sujeito criador; d) ela é a descrição sistemática do discurso-objeto, e não a tentativa de uma grande (re)interpretação.

            É evidente que, ao promover a “escavação” arqueológica, o autor se deparará com ocorrências repetidas e outras tantas originais. São manifestações justapostas do velho e do novo, as continuidades e as rupturas do processo histórico. Não obstante, dirá Foucault: “a arqueologia não está à procura das invenções e permanece insensível ao momento em que, pela primeira vez, alguém esteve certo de uma verdade” (p. 163). É o critério da regularidade o que importa; é das homogeneidades discursivas que a arqueologia se encarrega. As homogeneidades não guardam necessária relação com estruturas lingüísticas análogas ou signos repetidos; mas têm, sim, a ver com um certo número de desligamentos e de articulações que se conservam constantes no nível do discurso. A arqueologia descreve um nível de homogeneidade enunciativa que apresenta recorte temporal próprio, não trazendo consigo todas as formas de identidade e de diferença que podem ser demarcadas no campo da linguagem. Existem os “períodos enunciativos”.

            Mais interessante é a maneira como a arqueologia lida com as contradições: ela simplesmente abdica das tentativas de planificar o discurso por meio de supressão de incoerências – no que se distancia, mais uma vez, da história das idéias. O pensador francês entende que “a contradição é a ilusão de uma unidade que se oculta ou que é ocultada: só tem seu lugar na defasagem existente entre a consciência e o inconsciente, o pensamento e o texto, a idealidade e o corpo contingente da expressão” (p. 170). Para a arqueologia, a contradição não é obstáculo a transpor, nem segredo que é preciso descortinar. É parte do processo, objeto que há de ser descrito por si mesmo. Em vez de procurar um princípio unificador dos fluxos – como a história das idéias o faz –, a arqueologia contenta-se em descrever os diferentes espaços de dissensão, tendo em vista que o discurso nunca é o texto ideal, contínuo, sem aspereza; tampouco a superfície que meramente reflete uma contradição interna, profunda, de segundo plano. A proposta arqueológica vai no sentido oposto: suprimir o tema de uma contradição perdida e reencontrada, resolvida e sempre renascente. Trata-se, então, de manter o discurso em suas asperezas múltiplas.

            Para proceder com a análise individualizada das formações discursivas, a arqueologia se valerá do método comparativo. No entanto, para escapar do problema da enorme variação dos registros, a comparação só será viável e válida se limitada e regional. Há que se compatibilizar as diferentes configurações, uma vez que “a comparação arqueológica não tem um efeito unificador, mas multiplicador” (p. 180). O que esta pretende promover é o jogo das analogias e das diferenças no nível das regras de formação, mantidas as especificidades das formações discursivas propriamente ditas. Para tanto, requer-se: a) demonstrar, entre formações diferentes, os isomorfismos arqueológicos (isto é, conceitos formados a partir de uma mesma disposição); b) definir o modelo arqueológico de cada formação (se regras se aplicam ou não do mesmo modo, se se encadeiam ou não da mesma maneira); c) apontar se são as distintas formações dotadas de isotopia arqueológica (ou seja, se elas ocupam posição análoga na ramificação da estrutura); d) indicar as defasagens arqueológicas (por exemplo, como uma mesma expressão pode ter sentidos divergentes em dois campos discursivos); e) estabelecer as correlações arqueológicas (se podem ser apontadas relações de subordinação ou de complementaridade entre as formações).

A arqueologia permite ainda traçar relações entre as formações discursivas e os domínios não-discursivos (instituições, acontecimentos políticos, práticas econômicas etc.). Mas diferentemente da história das idéias, o método de Foucault não tem por finalidade revelar grandes continuidades ou isolar mecanismos de causalidade. Nas palavras do autor, “o que ela quer revelar é o nível singular em que a história pode dar lugar a tipos definidos de discurso que têm, eles próprios, seu tipo de historicidade e que estão relacionados com todo um conjunto de historicidade diversa” (p. 186).

Adiante, tenta-se desfazer o entendimento de que acontecimento e discurso são sincrônicos. A arqueologia não tenta tratar como simultâneo o que é sucessivo; o que faz é romper com a concepção do “absolutismo da sucessão”, ou seja, a idéia de que o processo histórico equivale a uma teia indissociável de práticas e enunciados, a qual nunca se esgarça. Em vez de adotar a cronologia linear, Foucault procura demonstrar como pode haver sucessão de fatos, e em que níveis diferentes encontram-se sucessões distintas. Desse modo, alega o autor: “a arqueologia fala – bem mais à vontade do que a história das idéias – de cortes, falhas, aberturas, formas inteiramente novas de positividade e redistribuições súbitas” (p. 191).

A última etapa da construção escalonada do argumento foucaultiano acontece ao final da parte IV. É quando o pensador tenta estabelecer, em seis pontos, a relação entre arqueologia e análise das ciências:

-                      Em primeiro lugar, afirma que formações discursivas não podem ser identificadas com as ciências, nem com as disciplinas pouco científicas, tampouco com as formas que excluem a cientificidade. Em resumo, permanece incerta a relação entre ciência e positividades discursivas;

-                      Em segundo lugar, nota ser necessário distinguir ciência de saber, na medida em que este extrapola aquela. Saber é, na definição autoral, “o conjunto de elementos formados de maneira regular por uma prática discursiva, e indispensáveis à constituição de uma ciência, apesar de não se destinarem necessariamente a lhe dar lugar” (p. 204);

-                      O terceiro ponto da argumentação remete à relação entre saber e ideologia: se a problemática da ideologia pode ser proposta à ciência, é sinal de que esta, sem se imiscuir no saber, mas sem o apagar ou excluir, nele se localiza, estruturando alguns dos seus objetos, sistematizando algumas de suas enunciações e formalizando alguns de seus conceitos e estratégias;

-                      Em quarto lugar, Foucault recria teoricamente os quatros limiares por que passa uma ciência até que se lhe reconheça o estatuto científico. Trata-se dos limiares de: positividade (surgimento de um mesmo e único sistema de enunciados); epistemologização (conjunto de enunciados se delineia, exercendo, em relação ao saber, função dominante); cientificidade (surgimento de certas leis formais a que os enunciados passam a submeter-se); e formalização (definição dos axiomas e das demais estruturas proposicionais necessárias). No entanto – adverte o autor –, esse corresponde ao protótipo de discurso científico importado da experiência das ciências exatas (nomeadamente, a matemática). Ante o que ele complementa: “A matemática foi seguramente modelo para a maioria dos discursos científicos em seu esforço de alcançar o rigor formal e a demonstratividade; mas, para o historiador que interroga o devir efetivo das ciências, ele é um mau exemplo – um exemplo que não se poderia generalizar” (p. 211);

-                      O quinto ponto joga luz sobre os tipos de história da ciência passíveis de elaboração. Há a análise recorrencial, que só pode ser feita no interior de uma ciência já constituída formalmente; a história epistemológica, relatada a contrapelo, que enumera tudo de que teve de se desvencilhar (erro, irracionalidade, obstáculos vários, não-cientificidade em geral) para atingir o limiar da cientificidade; e a história arqueológica, referente à descrição das práticas discursivas conducentes a um saber, o qual assume oportunamente o papel e o status de ciência;

-                      Por fim, o autor especula: a orientação voltada para a episteme[1] é a única que pode abrir-se à arqueologia? Deve a arqueologia interrogar, necessariamente, a história das ciências? A resposta será duplamente negativa. “O que a arqueologia tenta descrever não é a ciência em sua estrutura específica, mas o domínio, bem diferente, do saber” (p. 218). A interrogação das ciências é apenas a abordagem preferencial – porquanto, historicamente, a mais produtiva –, mas não a obrigatória ou a única, da arqueologia.

No conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, integrante da coletânea Ficciones (1944), o escritor argentino Jorge Luís Borges retrata a imaginária localidade de Tlön – onde, supostamente, dentre outras excepcionalidades, os livros de filosofia “invariablemente contienen la tesis y la antítesis, el riguroso pro y el contra de una doctrina. Un libro que no encierra su contralibro es considerado incompleto”. Parecia prenunciar a obra – nada imaginária – de Michel Foucault.

Embora não desenvolva exatamente uma antítese à tese da arqueologia do saber, o pensador francês aproveita o espaço da conclusão para antecipar algumas das objeções que previsivelmente se lhe fariam, provendo respostas temporárias. Além de reconhecer a carência da arqueologia em termos metodológicos, o autor esclarece que nunca teve a pretensão de excluir o problema da subjetividade do rol das preocupações legítimas; antes, quis apenas “definir as posições e as funções que o sujeito podia ocupar na diversidade dos discursos” (p. 225). Adicionalmente, não buscou negar a importância da história das idéias, e sim libertá-la de sua “sujeição transcendental”, de seu compromisso com certos “a priori” discursivos. Recusou-se, ainda, a admitir que a técnica da arqueologia fosse eivada de um tal nível de arbitrariedade que a igualava, em termos heurísticos, a outras técnicas convencionais de apreensão do conhecimento. O aspecto importante a notar é que, ao cabo dessa contraposição de visões, não emerge qualquer síntese dos argumentos expostos. Permanecem, assim, as contradições.

Finalizando a narrativa, Foucault se compadece daqueles que enfrentam o “mal-estar” de reconhecer que “sua história, sua economia, suas práticas sociais, a língua que falam, a mitologia de seus ancestrais, até as fábulas que lhes contavam na infância, obedecem a regras que não se mostram inteiramente à sua consciência” (p. 236). Ainda que tivesse cogitado, de maneira irônica, a possibilidade de ser, ele mesmo, um positivista (“se substituir a busca das totalidades pela análise da raridade, o tema do fundamento transcendental pela descrição das relações de exterioridade, a busca da origem pela análise dos acúmulos, é ser positivista, pois bem, eu sou um positivista feliz”, p. 142), Michel Foucault justificará a sua ruptura com as correntes historiográficas convencionais com a alegação de que a ingenuidade daquelas análises as impossibilitavam de ver as condições que as tornavam possíveis; ou, noutras palavras, “em que clausura metafísica se fecha o seu positivismo rudimentar” (p. 227).

 


[1] “Por episteme entende-se, na verdade, o conjunto das relações que podem unir, em uma dada época, as práticas discursivas que dão lugar a figuras epistemológicas, a ciências, eventualmente a sistemas formalizados; o modo segundo o qual, em cada uma dessas formações discursivas, se situam e se realizam as passagens à epistemologização, à cientificidade, à formalização; a repartição desses limiares que podem coincidir, ser subordinados uns aos outros, ou estar defasados no tempo; as relações laterais que podem existir entre figuras epistemológicas ou ciências, na medida em que se prendam a práticas discursivas vizinhas mas distintas” (p. 214).

 

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