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  RELEITURAS

O TRIPÉ PÓS-COLONIAL

Por Dawisson Belém Lopes

 

 

Vontade de poder – O conceito é nietzscheano, e, muito provavelmente, não tem insumo empírico americano. Hã? Explico: o filósofo da Modernidade não há de ter buscado na especificidade das Américas inspiração para a tessitura de suas idéias; ou para a construção daquele conceito. Ou não. De todo modo, convenhamos: em tal altura dos acontecimentos, com o século XXI já enraizado, isso pouco se nos dá. Mais proveitoso é inverter o ângulo da observação: a noção de “vontade de poder”, entendida como aquilo que move os homens em sua existência, não ajudaria a explicar os esforços pela integração das Américas ao mundo – leia-se, Europa – no curso do século XIX, início do século XX? A vontade de participar, de ser reconhecido, de ser um par no concerto das nações desenvolvidas, progressivas, evoluídas politicamente – em suma, de poder alguma coisa internacionalmente? Tese a cogitar. Antropomorfismo estatal à parte.

 

Abram alas: o desenvolvimento vem aí – Professor, antropólogo, político profissional, educador. Nas horas menos atribuladas, o autor, dentre outros tantos, de As Américas e a civilização (Companhia das Letras, 2007). Darcy Ribeiro contempla na obra o processo de formação e as causas de desenvolvimento desigual dos povos americanos. Divide-os, de saída, em três blocos etnológicos: os “povos-testemunho” (mexicanos, centro-americanos e andinos), os povos novos (brasileiros, grão-colombianos, antilhanos e chilenos) e os transplantados (anglo-americanos e rioplatenses). Enquadra os povos-testemunho e os povos novos na categoria das sociedades-feitorias, isto é, aquelas fundadas e remodeladas por atos de vontade do núcleo colonizador. Sintomaticamente, a industrialização dessas regiões ter-se-ia dado com deformações severas – as quais são, no limite, elementos obstaculizadores da mudança, da revolução capitalista. Para o autor, em relação aos povos transplantados, nossas matrizes de dominação política mostraram-se sempre mais rígidas; e menos propensas, portanto, à eventual superação dialética da dinâmica espoliativa “senhor-escravo”. Somos hoje o que fomos ontem. E o que continuaremos a ser por algum tempo, ainda. Sebastianismo (de vários matizes) à parte.

 

Abram alas: o progresso vem aí – O desenvolvimento a que se aludiu no parágrafo acima é apenas o corolário de uma outra idéia, tanto mais abrangente e historicamente influente. Em Uma breve história do progresso (Record, 2007), o historiador e ensaísta Ronald Wright quer demonstrar como a paranóia do progresso – o princípio e a finalidade última dos desenvolvimentistas – nos embeveceu de modo tal que, se não atinarmos logo, acabaremos presos na ratoeira que nós mesmos armamos. Vale-se Wright, para tanto, de uma coleção de indícios arqueológicos e antropológicos de que a ideologia do progresso nos estaria conduzindo à destruição de tudo aquilo que prezamos – a civilização moderna aí inclusa. Obra de feitio interessantíssimo. Cinismo autoral à parte.

 

Abram alas: a democracia vem aí – Para concluir o nosso tripé, nada mais pós-colonial que o conceito de autodeterminação dos povos. Encampado desde o princípio pela Organização das Nações Unidas, rapidamente disseminou-se por África e Ásia, levando ao boom de Estados-nação dos anos 1950 e 60. Ruíram, sucessivamente, os impérios: alemão, japonês, francês, inglês, belga... Até que, em meados dos anos 1970, esboroou o último deles – curiosamente, o mais arcaico e subdesenvolvido. Tratava-se do império lusitano – o qual ainda conservava possessões territoriais em parte considerável do território africano quando, naquilo que se convencionou chamar de “Revolução dos Cravos”, em 1974, assistiu-se à queda derradeira do governo de Salazar e ao deslanchar do processo de redemocratização de Portugal. A história é bem contada pelo brasilianista Kenneth Maxwell, na obra O império derrotado (Companhia das Letras, 2006). É significativo o fato de que, na esteira dos acontecimentos em Portugal, uma série de outros países retomaria o caminho da democracia – constituindo a então chamada “terceira onda” democrática. Uma leitura cuidadosa do livro dá boa dimensão do democratismo que tomaria de assalto o resto do mundo no porvir. Bolivarismo (de vários matizes) à parte.

 

Um olhar pós-colonial – Relativamente ao centro difusor dos valores que embasam o tripé pós-colonial (desenvolvimento-progresso-democracia), o que diria um ilustríssimo exemplar grão-colombiano – nomeadamente, o sr. Gabriel García Márquez, prêmio Nobel da Literatura? A ele concedo a palavra:

Ainda se discute quem escreveu os livros de Homero. Mas Homero – se existiu – cantou seus poemas novecentos anos antes de Cristo. A paternidade de sua obra começou a ser posta em dúvida quase 20 séculos depois, com as investigações do abade de Aubignac. Em compensação, o general De Gaulle é um trovador dos tempos modernos ao alcance da mão. O número de seu telefone figura no catálogo. Mas a dúvida se tornou possível porque todo mundo sabe que nos tempos modernos – e especialmente na França – há escritores anônimos que escrevem por encomenda o que lhes for pedido, desde artigo até livro de memórias. (p. 388)

O conservadorismo inglês não teria encontrado homem melhor para tentar se salvar. [Harold] Macmillan parece feito sob medida. Seu único inconveniente é a saúde perfeita, pois na hora do malogro não poderá contar com a cumplicidade do médico.[1] Sua queda, provavelmente não muito longínqua, precisará de uma justificativa diferente. (p. 436)

Em primeiro lugar, o Japão é o único país do mundo em que os roteiros cinematográficos não são submetidos a censura prévia. Mas os autores respondem diante da justiça por tudo o que se atrevem a afirmar em seus filmes. (p. 452)

Um delegado norte-americano, com certo exagero mas com bastante fundamento no fundo, contou ao administrador da granja que nos Estados Unidos põem a vaca de um lado e pelo outro sai o leite pasteurizado e até manteiga enlatada. (p. 722)”

São trechos deliciosamente reveladores de uma visão de mundo, extraídos do terceiro volume (Da Europa e da América) da série “Obra Jornalística”, assinada por Gabo. O livro tem como alvo preferencial a Europa e a América do período compreendido entre 1955 e 1960, motivando toda sorte de reflexão, da ingênua à cáustica. Recentemente lançada no Brasil pela editora Record (2006), a série conta com 5 volumes.

 

 

AUTORES E OBRAS

 

  • GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Da Europa e da América [vol. 3, série “Obra Jornalística]. Rio de Janeiro, Record, 2006.

  • MAXWELL, Kenneth. O império derrotado: revolução e democracia em Portugal. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.

  • WRIGHT, Ronald. Uma breve história do progresso. Rio de Janeiro, Record, 2007.

  • RIBEIRO, Darcy. As Américas e a civilização. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.



[1] Referência velada ao caso de Anthony Eden, primeiro-ministro sucedido por Macmillan.

 

® O Debatedouro - ISSN 1678 6637

 

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