Patrícia
Duarte Rangel – Mestranda em Ciência Política
do IUPERJ detida por 50 horas pelas autoridades
espanholas.
‘Sua
viagem de turismo acabou’. Foram essas as últimas
palavras que ouvimos em solo espanhol. Digo, em território
internacional, pois estávamos ‘em trânsito’
no tempo em que estivemos indevidamente detidos em
Madri, conexão do nosso vôo para Lisboa, onde participaríamos
de um congresso da Associação Portuguesa de Ciência
Política. Obra do destino ou não, a frase condensa
as características de nossa estadia nas dependências
da Polícia de Migração: ironia, desdém, maus tratos,
humilhação e ignorância. Durante dois dias, fomos
tratados como gado: a nós não era dirigida nenhuma
palavra que não ordens, não tivemos o direito de
nos pronunciar e muito menos de contestar as falsas
afirmações a nosso respeito. Mas não é minha intenção
aqui narrar todos os abusos da polícia espanhola
ou detalhar a condição subumana a que fomos submetidos.
Creio que isso a imprensa brasileira já fez amplamente.
O que acredito ser capaz de fazer no atual momento
é contar as duas grandes conclusões às quais cheguei
após minha ‘viagem de turismo’: uma se refere
à política internacional e a outra, a relações
humanas. A primeira conclusão me veio quando ouvi
a opinião de um dos chefes de polícia, que discutia
com meu colega de mestrado Pedro. A opinião do policial
sobre soberania nacional, que representa a do governo
espanhol, é uma concepção anacrônica que remonta
à formação do Estado-nação. Eles parecem simplesmente
ignorar a existência de um Sistema Internacional
composto de complexas relações de interdependência.
Realmente acreditam que um país possui o direito
de agir arbitrariamente, inclusive contra cidadãos
de outros, e batem no peito para dizer que todas as
suas ações são respaldadas por leis aprovadas pelo
Parlamento e, portanto, pelo povo espanhol. Eles possuem
uma interpretação esquizofrênica de democracia
que eu não sou capaz de compreender e muito menos
de explicar. Como considerar legítimos procedimentos
que violam os direitos humanos? A segunda conclusão
a que cheguei, com base no tratamento cruel que recebemos
das autoridades policiais, é que a dimensão da dignidade
e do respeito depende de uma noção de reconhecimento
que, infelizmente, muitos europeus não desenvolveram
em relação aos povos do Sul. Daí os maus tratos
que sofremos em Madri, as perseguições de turcos
por skinheads alemães, o assassinato de Jean Charles
de Menezes, etc., etc. Esses crimes somente cessarão
com mudanças nas práticas sociais e transformações
na dimensão jurídica e nos controles institucionais.
Em relação a modificações nas regras que regulam
a migração, até a polícia espanhola concorda que
elas são necessárias. ‘Admito que cometemos abusos,
portanto, as regras têm que mudar para que não haja
mais casos como o seu’. Foi o que ouvi de um dos
poucos policiais que conversaram comigo, na última
noite de minha ‘viagem de turismo’. Essas, sim,
eu gostaria que tivessem sido as últimas palavras
a ouvir em solo espanhol, digo, em território internacional.