O esforço teórico deliberado com
relação ao processo de integração da
Europa data dos anos 1950/1960, quando, no
âmbito das relações internacionais, as
ditas teorias
clássicas da integração predominavam
enquanto forma de se pensar o processo de
integração regional. Destacam-se neste
período cinco diferentes abordagens: em
primeiro lugar, o funcionalismo, cujo
argumento principal era o de que a
cooperação internacional em áreas ou em
relação a tarefas funcionais
específicas deveria ser colocada sob os
auspícios de organizações
internacionais separadas e tais
organizações, por sua vez, levariam a um
sistema internacional mais próspero e
pacífico. Assim, partindo de uma base
claramente tecnicista, o funcionalismo vê
a integração internacional como um
processo de desenvolvimento gradual
através de processos de aprendizagem, no
qual atores e elites sub-estatais
exerceriam um papel fundamental no apoio
às organizações internacionais na
medida em que experimentassem a
efetividade destas. Contudo, tal base
tecnicista também é vista por alguns
como a grande fraqueza do funcionalismo,
que acabou por negligenciar as dinâmicas
da “alta política”.
Em segundo lugar, o federalismo,
que possui uma orientação clara em
direção a iniciativas políticas para a
criação de estruturas federais
supranacionais.
Sua idéia principal é a de que os
líderes políticos dos Estados deveriam
reconhecer a importância de se resolver
os problemas comuns através de estruturas
federais. O problema é que o federalismo,
ao enfatizar a necessidade de tais
estruturas, deixa sem resposta uma
importante questão: o que levaria os
Estados a deixarem de ser soberanos –
voluntariamente?
Em terceiro lugar, o
neofuncionalismo, através de combinação
entre o funcionalismo e o federalismo,
afirma que a integração regional pode
ser promovida pela integração gradual de
áreas setoriais específicas e
“transbordar” – spillover
– das áreas integradas para outras
áreas. Assim, as principais idéias do
neofuncionalismo seriam: 1) spillover
funcional; 2) spillover
político; 3) ênfase na importância
das organizações supranacionais
(Kelstrup, 1998). Contudo, para alguns o
neofuncionalismo falharia por não
compreender a habilidade dos Estados em
agir com base em suas próprias
capacidades políticas e em seus próprios
interesses. Assim, a idéia de spillover
seria equivocada por não levar em
consideração nem as questões de “alta
política” nem a estrutura sistêmica de
poder.
O
transacionismo ou transnacionalismo, em
quarto lugar, se difere das abordagens
anteriormente citadas pelo fato de darem
uma ênfase maior aos aspectos
socioculturais e econômicos da
integração em detrimento de seus
aspectos políticos. Assim, seu objetivo
principal era analisar os processos que
levariam à integração, em particular à
formação de “comunidades de
segurança”. Um ponto relevante no
transacionismo era a suposição de que
seria possível mensurar as transações
nos âmbitos econômico e sociocultural e,
assim, também seria possível mensurar a
integração. Essa abordagem era criticada
por seu “hiper-empirismo” e por sua
ênfase desproporcional na necessidade (e
capacidade) de mensuração – além de
enfatizar aspectos que, para alguns, não
fariam parte da “alta política”.
Por
fim, a abordagem intergovernamentalista,
que se baseia em uma visão realista da
política internacional, afirma que os
Estados cooperam na medida em que esta
cooperação atenda aos seus interesses.
Embora esta teoria tenha se tornado
dominante nos debates sobre integração
regional em meados dos anos 1970 em
função da “crise” das teorias de
integração, em especial do
neofuncionalismo, permaneciam críticas à
sua capacidade limitada e insuficiente de
explicar e descrever a integração
regional em detalhes. Assim,
principalmente a partir dos anos 1980 –
com a retomada do dinamismo na
integração européia expressa, por
exemplo, no Ato Único Europeu –
percebe-se o aumento dessas críticas e a
rearticulação das teorias da
integração regional em uma “segunda
onda”, o que provocou uma
rearticulação também do
intergovernamentalismo.
Nesta
nova onda das teorias da integração
regional é possível perceber, até
meados dos anos 1990, um destaque para
duas abordagens específicas: o
intergovernamentalismo liberal e a
governança multinível. A primeira –
intergovernamentalismo liberal – parte
de elementos que lhes são fundamentais:
uma interpretação liberal da forma pela
qual são formadas as preferências
nacionais – ou seja, com base nas
preferências e nas ações dos grupos
nacionais – e uma teoria
intergovernamental das barganhas
existentes entre os Estados. Assim, para o
intergovernamentalismo liberal o processo
de cooperação internacional se dá
através das barganhas inter-estatais, nas
quais os governos negociam com base em
suas preferências e poder.
Conseqüentemente, para essa teoria o
processo de integração se desenvolve de
maneira abrupta através de uma série de
barganhas intergovernamentais e não
através processos incrementais (Kelstrup,
1998), e os governos só são favoráveis
à integração na medida em que ela
contribui para o aumento do poder desses
governos sobre as questões domésticas e
sobre os grupos de interesse domésticos.
Retomando parte das críticas que eram
feitas ao intergovernamentalismo, alguns
críticos argumentam que o
intergovernamentalismo liberal é incapaz
de explicar a existência de órgãos
supranacionais no âmbito europeu e a
delegação de poder feita pelos Estados
em favor de instituições centralizadas e
semi-autônomas.
Já
a governança multinível, por sua vez,
parte da idéia de que a União Européia
é um sistema deveras complexo de decisão
com muitos níveis e diferentes tipos de
atores que interagem em redes complexas.
Embora não seja um governo stricto
sensu, tal sistema complexo cria uma
situação de governança, isto é, produz
regras de comportamento e conduta
ajudando, assim, a resolver os problemas.
Nestes complexos processos, o Estado é
apenas um ator dentre outros, e não
possui uma posição privilegiada com
relação aos demais atores. Além disso,
de acordo com essa abordagem o Estado
estaria sendo enfraquecido, parcialmente
pela globalização e parcialmente pela
integração européia. Algumas das
críticas que são feitas a essa teoria
são: a governança multinível não é
nada novo, mas um amálgama das teorias
existentes; provê uma descrição da
União Européia, mas não uma teoria;
exagera acerca da autonomia dos atores
subnacionais; adota uma visão top-down
dos atores subnacionais; foca nas
autoridades subnacionais em detrimento de
outros atores subnacionais; confunde
evidência de mobilização dos atores
subnacionais no nível europeu com
evidência de influência dos atores
subnacionais; e ignora o nível
internacional da interação (George,
2004).
Ora,
embora seja possível perceber certas
particularidades no debate teórico sobre
a integração européia ao longo do
século XX, nota-se também que, em larga
medida, tal debate reproduz o debate
teórico existente nas relações
internacionais. Neste sentido, a
influência das discussões sociológicas
e lingüísticas no âmbito das relações
internacionais a partir dos anos 1990
também se faz presente nos debates sobre
a União Européia, trazendo uma série de
questões que eram, até então,
negligenciadas pelas teorias e abordagens
existentes (Kelstrup, 1998 e Pollack,
2001).
Uma questão fundamental trazida por essas
contribuições – dentre as quais se
destaca o construtivismo – diz respeito
à importância da União Européia no
processo de construção de uma identidade
européia. É possível afirmar que, a
partir da segunda metade da década de
1990, há a emergência de uma nova
dicotomia no estudo das relações
internacionais que se expande também para
os estudos sobre União Européia, a
saber, racionalistas versus construtivistas – os primeiros vendo as instituições
européias como produtos de Estados que
são membros conscientes e os segundos que
dão um papel mais profundo para as
instituições européias no processo de
socialização e constituição dos atores
que nelas se encontram.
Tentando
se estabelecer como uma via media entre
as abordagens que partem da escolha
racional e o construtivismo, surge em
meados dos anos 1990 o institucionalismo
histórico, que busca focar os efeitos que
as instituições exercem ao longo do
tempo com destaque para as formas pelas
quais uma dada gama de instituições, uma
vez estabelecidas, podem influenciar ou
constranger o comportamento dos atores que
as estabeleceram (Pollack, 2004 e Pierson,
1996). Neste sentido, o institucionalismo
histórico rejeita as explicações
funcionalistas para o desenho
institucional, afirmando que as escolhas
institucionais tomadas no passado podem
persistir, moldando e constrangendo os
atores no futuro. As instituições são
resistentes à mudança, tanto em função
da incerteza associada ao desenho
institucional quanto aos custos de
mudanças e reformas. Em suma, o
institucionalismo histórico pode ser
visto como uma rejeição das teorias
ahistóricas das instituições que vêem
estas estabelecidas e mantidas devido ao
fato de desempenharem, no presente, certas
funções institucionais para os que as
criaram. Em outras palavras, “mais
propriamente do que assumir e eficiência
relativa como uma explicação, deve-se
olhar para trás e observar” (Pierson
apud Pollack, 2004, p. 141).
Contudo,
embora busque se estabelecer como uma
rejeição das abordagens ahistóricas e
funcionalistas das instituições, a maior
parte dos autores adeptos do
institucionalismo histórico adota
suposições sobre as preferências e o
comportamento dos atores que são
completamente consistentes com as
abordagens da escolha racional. Ou seja,
em larga medida o institucionalismo
histórico não pode ser considerado uma
abordagem distinta mas mais propriamente
uma variação particular da teoria da
escolha racional que enfatiza a
importância da inércia, da seqüência e
da dependência do padrão no processo de
integração europeu (Pollack, 2004).
Em
contraposição ao racionalismo, surgem,
também em meados dos anos 1990,
perspectivas construtivistas sobre o
processo de integração europeu. Embora
por um lado não seja possível afirmar a
existência de um único tipo de
construtivismo – sendo mais correto
afirmar a existência de vários
construtivismos –, por outro é
possível arrolar algumas daquelas que
seriam características fundamentais do(s)
construtivismo(s).
Para
o construtivismo as estruturas da
política mundial são sociais e não
materiais. Assim, os construtivistas
concordam que as estruturas da política
mundial são resultado de interações
sociais, não sendo os Estados sujeitos
estáticos mas agentes dinâmicos. Neste
sentido, suas identidades não são dadas
mas (re)constituídas através de
práticas históricas complexas e
sobrepostas. Uma vez que a interação
social passa a ser vista como o mecanismo
fundamental através do qual se dá a
reprodução das estruturas, começa-se
então a perceber distinções
fundamentais entre o construtivismo e o
racionalismo (Rosamond, 2000).
Na
verdade, tanto os racionalistas quanto os
construtivistas concordam, em alguma
instância, que as instituições importam
na medida em que exercem certa influência
causal independente nas relações
internacionais. Contudo, o grande
desacordo entre essas duas grandes
abordagens reside em seus argumentos sobre
como as instituições importam. Por um
lado, os racionalistas geralmente definem
as instituições como regras formais ou
informais do jogo que incentivam os atores
racionais a adotarem certas estratégias
na busca por suas preferências (que são
dadas exogenamente). Por sua vez, o
construtivismo geralmente define as
instituições de maneira mais ampla,
incluindo normas informais e entendimentos
intersubjetivos bem como regras formais, e
dão uma importância fundamental às
instituições, que constituem os atores e
moldam não apenas os incentivos mas
também as preferências e as identidades
dos atores (Pollack, 2001). Ora, tal
contraposição coloca sérias críticas
às teorias contemporâneas da
integração, como o
intergovernamentalismo (liberal) e o
institucionalismo (histórico), na medida
em que tais teorias
“(...)
são estadocêntricas e desta forma
privilegiam conceitualmente o Estado e
até mesmo o reificam; são centradas em
interesses instrumentais que são
assumidos a priori como os mais
importantes; e tornam exógena a
formação dos interesses” (Matláry
apud Rosamond, 2000, p. 173).
Em suma, partindo do referencial
teórico construtivista é possível
afirmar que as instituições da União
Européia moldariam não apenas o
comportamento mas também as preferências
e as identidades dos indivíduos e Estados
membros dentro da Europa. Neste sentido,
nota-se que é a partir da incorporação
do construtivismo – e também do
pós-modernismo/pós-estruturalismo –
que temáticas como cultura, idéias,
valores e identidade passaram a fazer
parte dos estudos sobre o processo de
integração europeu. As discussões
teóricas sobre a integração regional
desenvolvidas até meados dos anos 1990
não lidavam com tais temas e, neste
sentido, não conseguiam relaciona-los ao
processo de integração europeu.
Ora, essa não é uma questão
superficial quando se trata da
integração européia. Pelo contrário,
quando se pensa o processo histórico de
formação, consolidação e alargamento
da União Européia, é fundamental
abordar tais temáticas a fim de
identificar elementos constitutivos deste
processo que ajudam a entender tanto a
história os dilemas contemporâneos da
União Européia.
No tocante ao processo de
consolidação da integração européia,
a questão constitucional é algo de
fundamental importância. Na medida em que
se trabalha essa questão a partir de uma
perspectiva que enxerga as categorias
legais e políticas como sendo socialmente
construídas, e a integração regional (e
suas dimensões legais) como um processo
intersubjetivo, o constitucionalismo da
União Européia passa a ser visto como um
processo de acomodação dos diversos
interesses existentes dentro da sociedade
européia, ou seja, tal processo de
constitucionalização passa a ser visto
como algo intrinsecamente ligado ao seu
contexto social, econômico, político e
cultural (Shaw, 2001). Se é assim, o
constitucionalismo passa a ser visto não
de uma maneira meramente procedimental mas
como uma prática social, que se relaciona
diretamente ao processo de construção
tanto da União Européia quanto da
identidade européia em si.
Tal perspectiva é de extrema
relevância quando se olha para o Tratado
da União Européia, assinado em
Maastricht, 1992. Lá, se colocava a
intenção de estabelecer uma integração
mais profunda baseada em valores
políticos comuns ao mesmo tempo em que se
preservava a diversidade cultural. Neste
sentido, uma abordagem que incorpora a
temática cultural é fundamental na
medida em que percebe que, ao mesmo tempo
em que se busca manter as diversas
culturas e identidades nacionais – e
locais –, começa a se construir, a
partir das práticas e dos processos
intersubjetivos, uma identidade européia,
que não toma o lugar das identidades
nacionais mas se soma a estas,
complexificando ainda mais os processos de
interação social da integração
européia. Ou seja, o sentido de
pertencimento pode se desenvolver em
vários níveis de organização social,
seja subnacional, nacional ou
transnacional, sendo que tais níveis não
são, em si, mutuamente excludentes (Shaw,
1998).
Neste
processo de construção identitária o
exercício da cidadania seria algo de
fundamental importância. Assim, uma
maior atenção deveria ser dada ao
potencial transformador e constitutivo da
cidadania da União Européia, no sentido
de diminuir o hiato que existe entre os
direitos dos sujeitos de direito da União
Européia e a ausência de uma comunidade
da Europa significativa. Seria
interessante, assim, estudar a prática da
cidadania no âmbito europeu em sua
relação constante com o processo de
construção da própria União Européia.
Assim, num primeiro momento poderia
parecer que o desenvolvimento da cidadania
da União Européia é um exemplo de
efeito spillover entre diferentes
arenas, conforme previsto pelo
neofuncionalismo. Contudo, a necessidade
de um aprofundamento histórico na
análise da cidadania da União Européia
necessita de um engajamento com o
institucionalismo histórico e a
governança multi-nível e,
principalmente, com o construtivismo.
Neste sentido, na medida em que a
cidadania passa ser vista de uma forma
mais dinâmica, ou seja, como uma série
de “práticas discursivas” (Shaw,
1998, p. 310), é possível perceber não
apenas as contradições mas também as
potencialidades do processo de
integração da União Européia.
De acordo com alguns autores, o
processo de alargamento deve ser visto
como um processo que contribui para
estabelecer novos padrões para o
governança européia (Eriksen, et.
al., 2002). Assim, um dos aspectos
fundamentais neste processo de governança
diz respeito às próprias regras, normas
e valores compartilhados entre os Estados
membros da União Européia. Ou seja, o
processo de alargamento da União
Européia é interessante porque possui
implicações de caráter geopolítico por
um lado – Bálcãs e Turquia, por
exemplo (Camargo, 2007) – e de caráter
identitário por outro. Na verdade, uma
vez que se entende a identidade como algo
dinâmico – e não estático – que se
constitui nas relações entre o Self e
o Outro (Wendt, 1999), o alargamento pode
ser visto como um processo eminentemente
de mão dupla, com influências tanto para
a construção da identidade daqueles que
estão entrando na União Européia quanto
para a própria União Européia – bem
como para seus Estados partícipes de
longa data.
Em sua relação com alguns
países, como é caso da Macedônia, a
União Européia tem mobilizado sua
política de cooperação e
desenvolvimento e de ajuda humanitária
como um elemento facilitador do processo
de persuasão e convergência do país em
direção aos padrões normativos
europeus. Ou seja, através de sua
presença na Macedônia com apoio
financeiro massivo, a União Européia tem
sido capaz de difundir normas concernentes
aos direitos humanos e das minorias,
resolução pacífica de conflitos,
respeito às leis, democracia liberal e
boa governança. Além disso, a oferta da
membresia na União Européia é talvez a
mais importante forma de difundir as
normas e os valores europeus. No caso da
Macedônia, que se encontrava em um
contexto de descrédito das velhas normas
da antiga Iugoslávia e, desta forma, de
busca por novas normas que orientassem
tanto a construção de novas identidades
quanto as práticas sociais, as normas
européias encontraram um terreno fértil
(Björkdahl, 2005).
Outros países, como a Ucrânia,
estabelecem uma relação distinta com a
União Européia. Neste caso, é possível
perceber certa convergência entre
Ucrânia e União Européia em termos
identitários principalmente no que
concerne ao caráter transnacional da
identidade de ambos. No caso da União
Européia, a “europeidade” (europeanness)
se refere a processos culturais,
simbólicos, sociais, econômicos e
políticos que geram a integração entre
os partícipes, sendo possível se falar
em uma espécie de “nacionalismo
transancional”, ou seja, formas
nacionais mas “desterritorializadas”
de identificação que transgridem as
fronteiras políticas de diversas formas.
Já a Ucrânia, em larga medida em
função de seu passado sob o Império
Russo e sob o bloco soviético, possui
tendências multiculturais/
multinacionais, que podem ser vistas como
variáveis que podem promover valores
transnacionais. Neste sentido, o projeto
da União Européia seria de extrema
relevância para a Ucrânia na medida em
que, mediante suas referências a uma
cultura universalista, ele contribui para
dirimir as incertezas e desacordos
presentes na identidade ucraniana pós fim
do bloco soviético (Taras, et. al., 2004).
Em suma, embora alguns afirmem não
existir uma identidade européia, é
possível perceber que diferentes tipos de
processos de europeização criaram um
sentido de comunidade baseado em uma
identidade européia democrática e
liberal, identidade esta que tem se
desenvolvido através de experiências
comuns, procedimentos comuns e
convergência de valores. Neste sentido,
através da prática política os membros
da União Européia têm criado uma
noção de pertencimento a uma comunidade
específica dentro de uma ordem particular
(Björkdahl, 2005).
Esses valores e normas
compartilhados são promovidos através do
engajamento externo da União Européia
com outros Estados, com destaque para os
processos de alargamento. Assim, uma
perspectiva que inclua uma discussão
sobre a importância da cultura é de
fundamental importância para que se possa
pensar o processo de construção de uma
comunidade política européia diversa,
plural e que preze a solidariedade
intercultural (Kraus, 2003).
Ao
contrário do que as abordagens
neofuncionalistas poderiam afirmar, a
identidade européia não é, em última
instância, um projeto das elites, mas sim
um processo que se dá através das
práticas diárias. Isso se percebe em
temas como a formação da União
Européia, perpassada por percalços e
dilemas até sua consolidação, e como a
questão da cidadania européia que, uma
vez vista como uma prática discursiva,
passa a contribuir com elementos
substantivos para a discussão do próprio
processo de integração e também de
alargamento, pois inclui a temática da
identidade do cidadão europeu. Neste
processo, tanto os candidatos são
constituídos quanto a própria União
que, em sua relação com outros atores,
constrói sua identidade e influencia a
identidade de seus Estados membros.
A
aceitação de novas normas é parte de um
processo baseado em uma interação
contínua. A socialização é algo de
extrema relevância neste contexto. Além
disso, é fundamental não ter uma visão
ingênua deste processo. Estados como a
Macedônia, que se encontram em processo
de construção de sua identidade
nacional, são em larga medida mais
receptivos à influência normativa.
Contudo, Estados com pouca presença
internacional e um passado que levou a uma
construção identitária excludente –
como é o caso da Sérvia, por exemplo –
são menos propícios à influência
normativa externa (Björkdahl, 2005).
Além disso, casos como a relação entre
Grécia e Turquia chamam a atenção não
para a existência de um conflito
meramente geopolítico, mas sim para a
maneira como a construção de uma
identidade comum pode gerar a exclusão
daqueles que não fazem parte dessa
identidade ou, o que é mais interessante,
a exclusão daqueles que se encontram no
limiar entre o Self
e o Outro.
Parcialmente
européia, e parcialmente não,
reivindicando ser considerada européia ao
mesmo tempo em que viola alguns de seus
padrões (Leggewie, 2005 e Çaha, 2005), a
Turquia é paradigmática neste sentido:
na medida em que por um lado se encontra
na OTAN e no Conselho da Europa, mas por
outro é um país com parte de seu
território na Ásia, com uma população
de maioria muçulmana, com um sistema
político semi-autoritário e uma economia
subdesenvolvida, ela é vista por alguns
como uma ameaça alternativa à identidade
européia (Rumelili, 2003). Tal
caracterização identitária excludente
favorece o conflito entre a Grécia e a
Turquia na medida em que a Grécia, em
função de sua própria posição
precária dentro da Europa, reforça e
reproduz o discurso da exclusão no
intuito de se diferenciar da Turquia, seu
vizinho limiar. Tal questão é deveras
relevante na medida em que incorpora novas
possibilidades de reflexão sobre a
complexidade da questão turca no processo
de alargamento da União Européia
(Kahraman, 2005).
Tal
questão remete às discussões sobre os
graus de internalização de uma norma
(Wendt, 1999). Na verdade, é possível
pensar que vários países entram – ou
tem interesse em entrar – na União
Européia não por possuírem uma suposta
“identidade européia” como queria o
Conselho Europeu de Lisboa, de 1992
(Eriksen, et. al., 2002), mas por
possuírem interesses em participar do
processo de integração europeu. Na
verdade, o recente alargamento para o
Leste Europeu é paradigmático neste
sentido. Apesar dos dez países incluídos
– Chipre, República Checa, Estônia,
Hungria, Letônia, Lituânia, Malta,
Polônia, Eslováquia e Eslovênia –
terem convergido em termos normativos com
a União Européia e, desta forma,
aceitado as normas centrais da União
Européia, essas normas ainda não foram
internalizadas de uma forma forte o
suficiente ao ponto de induzir as
práticas desses Estados (Björkdahl,
2005).
Com
o tempo, a partir do estabelecimento de
relações e práticas mais constantes
entre esses novos membros, os velhos
membros e a própria União Européia,
pode ser que essa identidade, até então
assumida por interesse, se internalize
como algo legítimo em si mesmo, passando
a constituir o comportamento dos Estados
– processo este que poderia ser
percebido, por exemplo, na relação entre
França e Alemanha, por exemplo, ao longo
do século XX. Estados que se encontram
hoje fora do processo, na limiaridade
(Rumelili, 2003), podem, a partir dessas
práticas, convergir em termos normativos
e de valores com o projeto europeu, bem
como o projeto europeu em si, a partir
dessas mesmas práticas, pode se
constituir em algo cada vez mais inclusivo
e aberto (Schwimmer, 2004). Se isso
ocorrerá ou não, a história dirá;
contudo, um aspecto que fica claro é a
dificuldade de se pensar o futuro desse
processo instigante e inovador que é a
União Européia sem que se leve em
consideração as questões ideacionais
concernentes à cultura, identidade e
valores.
Bibliografia:
BJÖRKDAHL,
Annika. Norm-maker and norm-taker:
Exploring the normative influence of the
EU in Macedonia. In: European foreign
affairs review, 10, pp. 257-278, 2005.
BURGESS,
Michael. Federalism
and European Union: The building of
Europe, 1950/2000. New York:
Routledge, 2000.
CAMARGO,
Sonia de. A “grande Europa” do século
XXI: Até onde irão suas fronteiras? In:
Brazilian political science
review, 1, 2007. disponível em: http://www.bpsr.org.br
ÇAHA,
Ömer. The ideological transformation of
the public sphere: The case of Turkey. In:
Alternatives:
Turkish journal of international
relations, 4 (1 & 2), pp. 1-30,
2005.
DESCHOUWER,
Kris. The
European multi-level party systems:
Towards a framework for analysis. EUI
working papers, 2000.
ERIKSEN,
Erik Oddvar, et. al. Widening or
reconstituting the EU? Enlargement and
democratic governance in Europe. Paper
apresentado na 43 Annual ISA
Convention, 2002.
FERNANDES,
José Pedro Teixeira. Chipre: O reencontro
da Europa com a questão do Oriente. In:
História,
77, pp. 32-39, 2005.
FISCHER
Joschka. From
confederacy to federation: Thoughts on the
finality of European integration.
In: JOERGES, Christian, et.
al. (eds.). What kind of constitution for what kind of polity? Responses to Joschka
Fischer. Florence:
European University Institute, 2000.
FLIGSTEIN,
Neil. The multiple layers of European
politics. In: _______. The limits to Europeanization. Oxford: OUP, forthcoming.
GAMBLE,
Andrew. The European disunion. In: British
journal of politics and international
relations, 8, pp. 34-49, 2006.
GEORGE,
Stephen. Multi-level Governance and the
European Union. In: BACHE, Ian &
FLINDERS, Matthew (eds.)
Multi-level governance. Oxford: Oxford
University Press, 2004.
HOSKYNS,
Catherine. Gender perspectives. In:
WIENER, Antje & DIEZ, Thomas (eds.). European
integration theory. Oxford:
Oxford University Press, 2004.
KAHRAMAN,
Hasan Bülent. Turkey and Europe:
Neighbours from afar. In: Eurozine,
2005. Disponível
em: http://www.eurozine.com
acessado em: 25/05/2007.
KEATING,
Michael. European integration and the
nationalities question. Paper
apresentado na International Political
Science Association, 2003.
KELSTRUP,
Marten. Integration theories: history,
competing approaches and new perspectives.
In: WIVEL, Anders (ed.), Explaining
european integration. Copenhagen
Political Studies Press, 1998.
KRAUS,
Peter A. Between
Mill and Hallstein: cultural diversity
as a challenge to European integration. Paper
apresentado
na Francqui Prize Conference, 2003.
LEGGEWIE,
Claus. From neighbourhood to citizenship.
In: Eurozine,
2005.
Disponível em: http://www.eurozine.com
acessado em: 25/05/2007.
MAREK,
Dan & BAUN, Michel. The
EU as a regional actor: The case of Czech
Republic. In: Journal
of common market studies, 40
(5), pp. 895-919, 2002.
MORGAN,
Roger. A European “society of states”
– but only states of mind? In: International
affairs, 76
(3), pp. 559-574, 2000.
NICOLAIDIS,
Kalypso. Our European demoi-cracy: Is this
Constitution a third way for Europe? In:
NICOLAIDIS, Kalypso & WEATERILL,
Stephen (eds.). Whose
Europe? National models and the
Constitution of the European Union. Oxford:
OUP, 2003.
PIERSON,
Paul. The path to European integration: A
historical institutionalist analysis. In: Comparative
political studies,
29 (2), pp. 123-163, 1996.
POLLACK,
Mark A. International relations theory and
European integration. In: Journal
of Common Market Studies, 39
(2), pp. 221-244, 2001.
_______.
The new institutionalisms and European
integration. In: WIENER, Antje & DIEZ,
Thomas (eds.). European
integration theory. Oxford:
Oxford University Press, 2004.
ROSAMOND,
Ben. Theories
of European integration. Basingstoke:
Palgrave, 2000.
RUMELILI,
Bahar. Liminality and perpetuation of
conflicts: Turkish-Greek relations in the
context of community-building by the EU.
In: European
journal of international relations, 9
(2), pp. 213-248, 2003.
SHAW,
Jo. The
Interpretation of European Union
Citizenship. In: The
Modern Law Review,
vol. 61, n. 3, 1998.
_______.
Postnational
constitutionalism in the European Union.
In: CHRISTIANSEN, Tomas, et. al. (orgs.).
The
social construction of Europe. London:
Sage, 2001.
SCHWIMMER,
Walter. With
Turkey, we are even more European. Speech,
Maastricht, 05/04/2004.
TARAS,
Ray, et. al. Ukraine’s
transnationals, far-away locals and
xenophobes: the prospects for
europeanness. In: Europe-Asia
studies, 56
(6), pp. 835-856, 2004.
WAEVER,
Ole. Discursive approaches. In: WIENER,
Antje & DIEZ, Thomas (eds.). European
integration theory. Oxford:
Oxford University Press, 2004.
WALKER,
Joshua W. A Turkish-Cypriot perspective:
Rauf Denktash and Nancy Crawshaw on
Cyprus. In: Alternatives:
Turkish journal of international
relations, 4
(3), pp. 78-107, 2005.
WALKER,
R.B.J. Inside/outside:
International relations as political
theory. Cambridge:
CUP, 1993.
WALLACE,
William. The sharing of sovereignty: the
European paradox. In: Political Studies, XLVII, pp. 503-521, 1999.
WEILER,
J. H. H. federalism without
constitutionalism: Europe’s Sonderweg. In: NICOLAIDIS, Kalypso & HOWSE, R. (eds.) The
federal vision: Legitimacy and levels
of governance in the United States and the
European Union.
Oxford: Oxford University Press, 2001.
WENDT,
Alexander. Social
theory of international politics. Cambridge:
CUP, 1999.