A
notícia do teste nuclear conduzido pela Coréia do
Norte em 9 de outubro último representou um
incremento dramático das preocupações da comunidade
internacional quanto às reais intenções do regime
de Pyongyang e aos possíveis efeitos da nuclearização
da península coreana.
Durante
a Guerra Fria, a República Democrática Popular da
Coréia – fundada em 1948 por Kim Il Sung e por ele
governada até 1994 – gravitou entre a China e a União
Soviética, com o fim de explorar o cisma entre as
duas potências comunistas para conquistar maiores
concessões econômicas e políticas ora de Moscou ora
de Pequim. Com a ascensão de Kim Jong Il ao poder em
1994, o programa nuclear norte-coreano, ativo desde
meados dos anos 60,
passou a ser o pivô dos atritos entre Pyongyang e
Washington. Sob Bill Clinton e sua secretária de
Estado, Madeleine Albright, a ênfase no approaching
com Pyongyang se baseava essencialmente no diálogo,
como demonstra o Agreed
Framework assinado em 1994. Sob George Bush, porém,
o relacionamento passou a ser pautado pela retórica
agressiva, especialmente após o 11 de setembro, com a
inclusão da Coréia do Norte no “Eixo do Mal” e
entre os “postos avançados da tirania” nos
discursos presidenciais norte-americanos.
Com
o esfacelamento da União Soviética, restou a China
como aliada de peso à Coréia do Norte, tanto no
campo econômico – Pequim absorveu 45,6% das exportações
e 32,9% das importações de Pyongyang em 2004,
segundo dados da CIA
– como no político e diplomático. A ajuda chinesa
tem sido fundamental para evitar o colapso completo da
economia norte-coreana, colapso este advindo em grande
parte dos excessivos investimentos governamentais no
setor de defesa, a fim de sustentar a quarta maior força
militar do planeta, o Exército do Povo Coreano, estimado em cerca de 1,2 milhão de
homens em 2005, além dos 4,7 milhões de reservistas
que recebem treinamento militar constante.
Voltando
ao tema do programa nuclear norte-coreano, o teste
realizado em outubro despertou grande inquietação da
comunidade internacional, temerosa de que se instale
uma corrida armamentista convencional e nuclear na
região. De fato, um cenário a se considerar é o de
um possível “efeito dominó”, com a alteração
do equilíbrio regional e os atores ameaçando-se
mutuamente. Neste cenário, a notícia do teste
nuclear da Coréia do Norte poderia inspirar a reação
de Coréia do Sul e Japão em desenvolver suas próprias
armas nucleares – de fato, o tema já vem sendo
discutido nestes dois países, mais acaloradamente no
Japão, com a ascensão do premier Shinzo Abe, de retórica
agressiva em relação à Coréia do Norte. A China,
em resposta à nuclearização do Japão e Coréia do
Sul, competidores estratégicos e potencialmente
hostis a Pequim, ver-se-ia obrigada a aumentar e
modernizar seu arsenal nuclear. Diante da ameaça
chinesa, Taiwan, por um lado, poderia acabar se
tornando uma potência nuclear; por outro lado, a Índia,
igualmente ameaçada pela China, sentir-se-ia instada
a também aumentar e modernizar seu arsenal nuclear. E
por último, como réplica à Índia, o Paquistão
poderia fazer o mesmo.
Este
possível cenário de corrida armamentista na Ásia
Oriental deixaria os Estados Unidos igualmente em um
dilema: incrementar seus efetivos militares na região
ou colaborar com seus aliados regionais (leia-se Japão,
Coréia do Sul e Taiwan) no aumento de suas
capacidades militares nacionais, por meio da concessão
de créditos para a compra de armamentos
norte-americanos ou até mesmo da assistência em seus
programas nucleares nacionais?
Muito
ao agrado dos Estados Unidos, o experimento nuclear
norte-coreano inspirou uma reação adversa da Rússia
e da China, países mais próximos a Pyongyang e que
antes do teste vinham barrando a adoção de resoluções
mais drásticas contra o regime de Kim Jong Il.
Contudo, após o teste viu-se uma convergência de
posições raramente vista entre os cinco membros
permanentes do Conselho de Segurança, materializada
na resolução 1718, que estabeleceu a inspeção de
todos os carregamentos e sanções mais severas à Coréia
do Norte. Como principal aliada de Pyongyang e
interessada na estabilidade regional, a China
enfureceu-se pela atitude de desafio do regime
norte-coreano, que comunicou Pequim somente horas
antes da realização do teste, e cuja conseqüência,
como foi assinalado acima, poderá ser o aumento da
capacidade militar da Coréia do Sul e do Japão.
Em
última instância, o teste nuclear da Coréia do
Norte é um instrumento de legitimação interna e
externa. Internamente, é útil para demonstrar à
população que o governo tem força para se contrapor
aos Estados Unidos, contentando com isso os militares
– alguns especialistas chegam a afirmar inclusive
que Kim Jong Il seria um fantoche dos militares do país.
No plano externo, a bomba serve para demonstrar ao
mundo que Pyongyang não é tão submissa a Pequim
como se poderia pensar, além do mecanismo de dissuasão
implícito, isto é, o de deixar claro que uma ação
militar contra o país teria como reação “golpes
impiedosos”, como afirmaram as autoridades
norte-coreanas. Além disso, o artefato nuclear é um
poderoso instrumento de barganha e chantagem nas mãos
de Kim Jong Il, que poderá usar o terror nuclear como
forma de obter vantagens econômicas e comerciais dos
países vizinhos e dos Estados Unidos.