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  ARTIGO

CORÉIA DO NORTE NUCLEAR: MAIS INSTABILIDADE NA ÁSIA ORIENTAL?

Por Bruno Quadros e Quadros [1]

A notícia do teste nuclear conduzido pela Coréia do Norte em 9 de outubro último representou um incremento dramático das preocupações da comunidade internacional quanto às reais intenções do regime de Pyongyang e aos possíveis efeitos da nuclearização da península coreana.

Durante a Guerra Fria, a República Democrática Popular da Coréia – fundada em 1948 por Kim Il Sung e por ele governada até 1994 – gravitou entre a China e a União Soviética, com o fim de explorar o cisma entre as duas potências comunistas para conquistar maiores concessões econômicas e políticas ora de Moscou ora de Pequim. Com a ascensão de Kim Jong Il ao poder em 1994, o programa nuclear norte-coreano, ativo desde meados dos anos 60[2], passou a ser o pivô dos atritos entre Pyongyang e Washington. Sob Bill Clinton e sua secretária de Estado, Madeleine Albright, a ênfase no approaching com Pyongyang se baseava essencialmente no diálogo, como demonstra o Agreed Framework assinado em 1994. Sob George Bush, porém, o relacionamento passou a ser pautado pela retórica agressiva, especialmente após o 11 de setembro, com a inclusão da Coréia do Norte no “Eixo do Mal” e entre os “postos avançados da tirania” nos discursos presidenciais norte-americanos.

Com o esfacelamento da União Soviética, restou a China como aliada de peso à Coréia do Norte, tanto no campo econômico – Pequim absorveu 45,6% das exportações e 32,9% das importações de Pyongyang em 2004, segundo dados da CIA[3] – como no político e diplomático. A ajuda chinesa tem sido fundamental para evitar o colapso completo da economia norte-coreana, colapso este advindo em grande parte dos excessivos investimentos governamentais no setor de defesa, a fim de sustentar a quarta maior força militar do planeta, o Exército do Povo Coreano, estimado em cerca de 1,2 milhão de homens em 2005, além dos 4,7 milhões de reservistas que recebem treinamento militar constante[4].

Voltando ao tema do programa nuclear norte-coreano, o teste realizado em outubro despertou grande inquietação da comunidade internacional, temerosa de que se instale uma corrida armamentista convencional e nuclear na região. De fato, um cenário a se considerar é o de um possível “efeito dominó”, com a alteração do equilíbrio regional e os atores ameaçando-se mutuamente. Neste cenário, a notícia do teste nuclear da Coréia do Norte poderia inspirar a reação de Coréia do Sul e Japão em desenvolver suas próprias armas nucleares – de fato, o tema já vem sendo discutido nestes dois países, mais acaloradamente no Japão, com a ascensão do premier Shinzo Abe, de retórica agressiva em relação à Coréia do Norte. A China, em resposta à nuclearização do Japão e Coréia do Sul, competidores estratégicos e potencialmente hostis a Pequim, ver-se-ia obrigada a aumentar e modernizar seu arsenal nuclear. Diante da ameaça chinesa, Taiwan, por um lado, poderia acabar se tornando uma potência nuclear; por outro lado, a Índia, igualmente ameaçada pela China, sentir-se-ia instada a também aumentar e modernizar seu arsenal nuclear. E por último, como réplica à Índia, o Paquistão poderia fazer o mesmo.

Este possível cenário de corrida armamentista na Ásia Oriental deixaria os Estados Unidos igualmente em um dilema: incrementar seus efetivos militares na região ou colaborar com seus aliados regionais (leia-se Japão, Coréia do Sul e Taiwan) no aumento de suas capacidades militares nacionais, por meio da concessão de créditos para a compra de armamentos norte-americanos ou até mesmo da assistência em seus programas nucleares nacionais?

Muito ao agrado dos Estados Unidos, o experimento nuclear norte-coreano inspirou uma reação adversa da Rússia e da China, países mais próximos a Pyongyang e que antes do teste vinham barrando a adoção de resoluções mais drásticas contra o regime de Kim Jong Il. Contudo, após o teste viu-se uma convergência de posições raramente vista entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, materializada na resolução 1718, que estabeleceu a inspeção de todos os carregamentos e sanções mais severas à Coréia do Norte. Como principal aliada de Pyongyang e interessada na estabilidade regional, a China enfureceu-se pela atitude de desafio do regime norte-coreano, que comunicou Pequim somente horas antes da realização do teste, e cuja conseqüência, como foi assinalado acima, poderá ser o aumento da capacidade militar da Coréia do Sul e do Japão.

Em última instância, o teste nuclear da Coréia do Norte é um instrumento de legitimação interna e externa. Internamente, é útil para demonstrar à população que o governo tem força para se contrapor aos Estados Unidos, contentando com isso os militares – alguns especialistas chegam a afirmar inclusive que Kim Jong Il seria um fantoche dos militares do país. No plano externo, a bomba serve para demonstrar ao mundo que Pyongyang não é tão submissa a Pequim como se poderia pensar, além do mecanismo de dissuasão implícito, isto é, o de deixar claro que uma ação militar contra o país teria como reação “golpes impiedosos”, como afirmaram as autoridades norte-coreanas. Além disso, o artefato nuclear é um poderoso instrumento de barganha e chantagem nas mãos de Kim Jong Il, que poderá usar o terror nuclear como forma de obter vantagens econômicas e comerciais dos países vizinhos e dos Estados Unidos.



[1] Graduando do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Curitiba (FIC) e do curso de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR). E-mail: bquadros_e_quadros@hotmail.com

[2] AFTERGOOD, Steven; KRISTENSEN, Hans M. Nuclear Weapons Program: North Korea. Washington: Federation of American Scientists, 2006. Disponível em http://www.fas.org/nuke/guide/dprk/nuke/index.html. Acesso em 19 dez. 2006

[3] CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY: The World Factbook 2006. Washington, 2006. Disponível em https://www.cia.gov/cia/publications/factbook/geos/kn.html. Acesso em 19 dez. 2006

[4] LIBRARY OF CONGRESS: Country Profile: North Korea. Washington, 2005. Disponível em http://lcweb2.loc.gov/frd/cs/profiles/North_Korea.pdf. Acesso em 19 dez. 2006

 

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