Por
Renato Orozco
PARTE 1 – O DESAFIO DE LANCHASTER
Fim de Copa do Mundo. Alegria
para alguns poucos, decepção para os demais. Para mim, forçado
a assistir à maioria dos jogos às 4 da madrugada, a Copa se
mostrou um prazeroso sacrifício (bem, ao menos até a
desclassificação do Brasil) em que tentei acompanhar ao máximo.
Minha motivação, além da usual paixão que um brasileiro
tem ao futebol, deveu-se também à curiosidade frente à
leitura prévia de algumas análises e previsões sobre os
prováveis resultados da Copa.
Refiro-me, especificamente, aos relatórios: “The
World Cup and Economics 2006”,
redigido pela Goldman
Sachs; “Soccernomics
2006 – Second Edition: Soccer and Emerging Markets”,
obra do departamento de economia da ABN
AMRO; as Notas de Pesquisa da UBS
Wealth Management Research;
e finalmente, ao artigo de John
Lanchester intitulado Footynomics,
em seu blog.
O que me causou estranheza e
despertou curiosidade nesses artigos foi a afirmação, quase
consensual, de que a economia de uma nação é um
determinante – ou, ao menos, um indicador – da força
relativa do time de futebol do país. Como brasileiro e,
portanto, cidadão do seleto rol de países
terceiro-mundistas, essa constatação me incomodou deveras. O
campo de futebol é, para nós, brasileiros, uma das poucas
arenas em que podemos nos orgulhar de competir, levando certa
vantagem, contra qualquer país economicamente desenvolvido do
mundo. O futebol é a nossa “vingança de Montezuma”.
Mesmo assim, contrariando o que
meu coração brasileiro me dizia, os dados estavam lá! Goldman Sachs regressou renda per capita sobre a posição dos 32 países
da Copa 2006 no ranking da FIFA e encontrou uma correlação
negativa – quanto maior a renda per capita, melhor a posição
no ranking. Os resultados indicam claramente que países mais
ricos são, usualmente, melhores no futebol.
Seguiu-se daí o relatório da
ABN AMRO. Utilizando-se do ranking Elo
– de atualização mais freqüente que o ranking da FIFA –
e uma análise temporal, eles afirmaram que resultados no
futebol seguem o mesmo padrão de resultados econômicos, com
um intervalo de aproximadamente um ano. Equipes de países que
apresentaram rápido crescimento no ano anterior jogarão
melhor do que o usualmente observado enquanto países de lento
crescimento terão mais probabilidade de perder em partidas
futebolísticas. A possível lógica por trás das observações
empiricamente encontradas me pareceu frágil. Eles explicaram
o ocorrido argumentando que, com uma economia enfraquecida,
possivelmente haverá menos torcedores a empurrar o time ou,
talvez, os jogadores ficariam fragilizados psicologicamente,
rendendo menos em campo.
Outra conclusão interessante
da ABN AMRO se relaciona com a globalização. Com maior
mobilidade no mercado internacional de jogadores, os times
nacionais de países exportadores de jogadores estariam mais
competitivos. Faz sentido. Minha reação frente à primeira
hipótese apresentada foi de incredulidade, embora os
resultados estatísticos da ABN AMRO me deixassem
desconcertado. Já para a segunda, embora intuitivamente mais
razoável, igualmente me atiçou a curiosidade, movendo-me a
pesquisar mais sobre o assunto.
Em direção oposta aos dois
artigos anteriores, o relatório da UBS Wealth Management
Research apresentou um modelo probabilístico (uma estimativa
usada para expressar a probabilidade de realização de um
evento) em que dados demográficos (tamanho da população
para indicar a massa potencial de talentos futebolísticos de
um país, média etária da população, percentagem de
habitantes urbanos, taxa de nascimento, etc.) e variáveis
macroeconômicas (PIB per capita, crescimento médio nos últimos
5 anos, inflação, desemprego, etc.) resultaram em nenhum
efeito aparente nos resultados dentro do campo. Em face da
insignificância estatística dessas variáveis, incluíram no
modelo variáveis históricas (número de participações em
Copas do Mundo, qualificações para semifinais, etc.) e sobre
os jogadores (utilizando a lista de 120 melhores jogadores
vivos na opinião de Pelé, publicada em 2004).
A preocupação da UBS não foi de explicar por que
alguns países são melhores do que outros, mas sim prever os
resultados da Copa. Ao adotarem um modelo essencialmente histórico
(colocando ênfase em resultados prévios de cada time),
constrói-se um eficiente instrumento para prever o resultado,
mas continuamos ignorantes a respeito dos possíveis nexos de
causalidade: “as
coisas são assim porque sempre foram, e não temos motivos
para acreditar que serão diferentes nesta Copa”.
Finalmente, John
Lanchaster propôs um desafio! Ele levantou a hipótese de
que os países ricos ganhariam a grande maioria dos jogos
devido, talvez, ao fato de atraírem os melhores jogadores do
mundo para as suas ligas, aumentando assim o nível médio de
seus próprios atletas devido a um sistema de aprendizagem. O
desafio de Lanchaster é o seguinte:
“Então poderíamos propor a
seguinte hipótese: o país mais rico irá ganhar, exceto
quando o país mais populoso o fizer.
Será interessante ver quantas exceções poderemos
encontrar: quantas vezes um país pobre, menor, irá vencer.
Meu palpite é que não serão muitas.”
(Lanchaster, 2006)
(tradução do autor)
Ora, para aceitar o desafio de
Lanchaster, precisamos primeiro definir qual a linha que
separa “poucas”
de “muitas” vezes. Se considerarmos as vitórias ou derrotas como
fruto do acaso em termos de PIB per capita (ou seja, são
randômicas no que se relaciona à economia da região), o
resultado esperado é de 50% de derrotas e 50% de vitórias
para o país mais rico. Considerando não haver relação
entre PIB per capita e população (o que não é
verdade, há uma correlação positiva entre as duas variáveis
nos 32 países analisados), haveria um 25% adicional de casos
em que o país mais pobre, porém mais populoso, ganharia.
Para comprovar sua hipótese, portanto, um número de
confrontos razoavelmente maior que 75% dos casos deve estar de
acordo com as proposições de Lanchaster.
Minha análise no restante
deste artigo será um exercício de confrontar as previsões e
hipóteses apresentadas anteriormente a luz dos resultados da
Copa do Mundo de 2006. Caso os resultados sejam coincidentes,
tirarei solenemente o meu chapéu para a força dos modelos
estatísticos utilizados. Caso haja divergência, seguirei
crendo no mito da “caixinha
de surpresas” – futebol, realmente, é algo imprevisível!
PARTE 2 – FUTEBOL E ECONOMETRIA
Começaremos com o artigo de Goldman
Sachs. A fim de perceber se a correlação entre PIB/capita
e resultados dentro da quadra realmente ocorrem, regressei número
de pontos obtidos na Copa e colocação final na Copa em PIB/capita.
Sim, a correlação estava lá, intacta, em ambos os casos,
embora de forma menos acentuada que a análise de Goldman
Sachs. Países com maior PIB/capita tiveram, em geral,
performance melhor do que os demais times nesta Copa. A
correlação se mantém ao adicionarmos população (como uma
variável de controle – passamos a levar em conta presumíveis
diferenças causadas pela população total do pais na
performance dos 32 times da Copa). Esse tipo de resultado é
coincidente com o que encontrou Shikida et. al.
ao analisar o futebol brasileiro: estados mais ricos possuem
maior chance de apresentar times nas primeiras colocações do
campeonato brasileiro.
Ao adicionarmos, porém, o ranqueamento da FIFA
ou do Elo ranking,
nossa melhor proxy
para a qualidade dos times, como variável de controle
(passando, portanto, a comparar o efeito do GNP/capita somente
entre times similares em termos de tradição futebolística),
a correlação desaparece por inteiro. Entre times que
historicamente têm a mesma força (medida pelo ranking), não
há correlação clara entre a riqueza do país de origem e o
resultado na Copa do Mundo 2006. Finalmente, adicionamos também
no modelo uma variável dummy para “cabeça-de-chave”. O
resultado encontrado é que o PIB/capita deixa de ser
significante.
|
TABELA 1: Regressões Lineares - testando o efeito de
PIB/Capita
|
|
Variável Dependente: Pontos obtidos na Copa 2006
|
|
Variáveis Independentes:
|
Coeficiente
|
Coeficiente Beta
|
|
GDP/Capita
|
3.92E-06
|
0.00941
|
|
|
(0.0000429)
|
|
Head
|
3.415793***
|
0.3097012***
|
|
|
(1.742755)
|
|
Elorating
|
.0204195*
|
.6320404*
|
|
|
(1.742755)
|
|
Constante
|
-31.92758*
|
|
|
|
(8.017521)
|
|
|
Observacoes
|
32
|
|
R-Squared
|
0.7630
|
|
Nota: (*) para p-values menores ou iguais a 0.01; (**) para
p-values <=0.05; (***) para p-values <=0.1
|
O resultado de qualquer competição
esportiva está principalmente ligado a dois fatores: a
qualidade relativa das equipes e as regras do campeonato.
Embora seja difícil estimar a qualidade dos times, podemos
utilizar do ranking existente para avaliar
o que seria de se esperar de cada um deles. Sobre as
regras do jogo, elas são quase iguais para todos. A diferença
fica por conta de ser cabeça-de-chave ou não. A vantagem,
neste caso, está em não jogar com outros cabeças-de-chave
nos primeiros três jogos e, confirmado o favoritismo, somente
a partir das quartas-de-final.
O critério adotado pela FIFA
para definir as cabeça-de-chave leva em conta o
posicionamento no ranking FIFA e o resultado nas duas últimas
Copas do Mundo. Como resultado deste critério misto, nem
sempre uma equipe ranqueada entre as 8 melhores no ranking
FIFA (como Republica Checa, Holanda, EUA e Portugal,
respectivamente, segunda, terceira, quinta e oitava posição
antes da Copa), se torna uma das cabeças-de-chave. Não faço
nenhuma crítica ao critério adotado pela FIFA, mas uma
ressalva deve ser feita: a posição confere vantagens
adicionais a estes times durante a competição. Como o critério
se baseia também nas duas últimas Copas do Mundo, o sistema
é, ao menos em teoria, um círculo retroalimentado. Equipes
que foram cabeças-de-chave em 1998 terão melhor rendimento
em 1998, de modo a terem mais probabilidade de ser cabeça de
chave em 2002, atuarem bem em 2002, repetindo o ciclo na Copa
2006 e em suas edições subseqüentes.
Claro, separar a vantagem do
cabeça-de-chave do efeito que experiências anteriores na
Copa do Mundo dão a uma equipe é uma tarefa um tanto
complicada. Separar
o efeito cabeça-de-chave da qualidade da equipe (medida pelo
Ranking FIFA ou Elo) não representa dificuldade. O mesmo não
ocorre ao tentar separar esse efeito daquele causado pela
melhora dentro de campo advinda de experiência pregressa em
outras Copas do Mundo.
Façamos alguns exercícios
estatísticos a esse respeito.
Primeiramente, para determinar
o que os cabeças-de-chave têm em comum entre eles,
regressamos cabeça-de-chave (uma variável dummy)
no ranking Elo (nossa melhor aproximação para a qualidade
dos times) e tamanho do mercado de futebol (socmarket –
medido pela quantidade de jogadores da Copa 2006 jogando na
liga nacional de cada um dos países). A fim de podermos
comparar as duas variáveis, utilizo coeficientes beta (em
outras palavras, comparo as variáveis por meio do desvio padrão
que elas apresentam). Dentre
os cabeças-de-chave, o fato de serem grandes mercados futebolísticos
salta aos olhos de forma mais pronunciada do que o fato de
serem equipes bem ranqueadas, pela definição do ranking Elo
(Elorating) ou mesmo do ranking da FIFA (RankFifa –
ironicamente, um dos critérios utilizados para definir o cabeça-de-chave).
|
TABELA
2: Regressoes Lineares considerando o Ranking Elo
|
|
Variável Dependente: Cabeca de Chave (dummy)
|
|
Variáveis Independentes:
|
Coeficiente
|
Coeficiente Beta
|
|
Elorating
|
0.0012821**
|
0.4377052**
|
|
|
(0.0005504)
|
|
Socmarket
|
.0086046*
|
0.4609162*
|
|
|
(0.002549)
|
|
Constante
|
-2.21491**
|
|
|
|
(0.9143807)
|
|
|
Observações
|
32
|
|
R-Squared
|
0.6037
|
|
Nota: (*) para p-values menores ou iguais a 0.01; (**) para
p-values <=0.05; (***) para p-values <=0.1
|
|
TABELA
3: Regressoes Lineares considerando o Ranking FIFA
|
|
Variável Dependente: Cabeca de Chave (dummy)
|
|
Variáveis Independentes:
|
Coeficiente
|
Coeficiente Beta
|
|
RankFifa
|
0.025854**
|
0.3800717**
|
|
|
(0.0011643)
|
|
Socmarket
|
.01021*
|
0.5469079*
|
|
|
(0.0023547)
|
|
Constante
|
-1.737101**
|
|
|
|
(0.7334913)
|
|
|
Observações
|
32
|
|
R-Squared
|
0.5864
|
|
Nota: (*) para p-values menores ou iguais a 0.01; (**) para
p-values <=0.05; (***) para p-values <=0.1
|
A impressão de alguém que
analise estes resultados de forma puramente estatística, sem
prévio conhecimento dos critérios adotados pela FIFA para a
definição do cabeça-de-chave, seria de que o critério se
relaciona mais com o tamanho do mercado futebolístico do país
do que com a qualidade do time em questão. Tanto o nível de
significância da variável socmarket quanto seu coeficiente
beta demonstram maior correlação como características dos
times cabeça-de-chave do que a posição do ranking (Elorating
e RankFifa) destes. Embora os critérios da FIFA sejam claros
e transparentes, é interessante notar como eles divergem do
ranking que a própria FIFA utiliza para diferenciar a
qualidade dos times.
Como um segundo exercício
estatístico, determinaremos o efeito da cabeça-de-chave na
performance dos times na Copa do Mundo 2006. Novamente por
meio de regressão linear, desta vez utilizo o número de
pontos obtidos na Copa do Mundo como
variável dependente, um dummy para cabeça-de-chave
(head) como variável independente e o ranking Elo e FIFA como
variáveis independentes de controle, capturando a qualidade
das equipes.
|
TABELA
4: Regressoes Lineares - Pontos obtidos na Copa /
Elorating
|
|
Variável Dependente: Pontos obtidos na Copa
|
|
Variáveis Independentes:
|
Coeficiente
|
Coeficiente Beta
|
|
Elorating
|
0.0205761*
|
0.3088634*
|
|
|
(0.0205761)
|
|
Head
|
3.406553**
|
0.6368885**
|
|
|
(1.701909)
|
|
Constante
|
-32.13801*
|
|
|
|
(0.7334913)
|
|
|
Observações
|
32
|
|
R-Squared
|
0.7630
|
|
Nota: (*) para p-values menores ou iguais a 0.01; (**) para
p-values <=0.05; (***) para p-values <=0.1
|
|
TABELA
5: Regressoes Lineares - Pontos obtidos na Copa /
RankFifa
|
|
Variável Dependente: Pontos obtidos na Copa
|
|
Variáveis Independentes:
|
Coeficiente
|
Coeficiente Beta
|
|
RankFifa
|
0.00801
|
0.10672
|
|
|
(0.0120564)
|
|
Head
|
7.414757*
|
0.67227715*
|
|
|
(1.991788)
|
|
Constante
|
-1.920933
|
|
|
|
(7.822514)
|
|
|
Observações
|
32
|
|
R-Squared
|
0.5449
|
|
Nota: (*) para p-values menores ou iguais a 0.01; (**) para
p-values <=0.05; (***) para p-values <=0.1
|
A tabela 4 nos mostra que a
qualidade dos times consegue explicar, como é de se supor, os
resultados obtidos por cada time na Copa 2006. Mas a variável
para a cabeça-de-chave também é estatisticamente
significante a 5%, com um coeficiente de aproximadamente 3,5,
ou seja, para dois times teoricamente iguais em termos de
qualidade, aquele que é cabeça-de-chave leva vantagem média
de 3,5 pontos, ou um pouco mais de uma vitória!
Já para a tabela 5, a
qualidade dos times, medidas pelo ranking da FIFA, não é
estatisticamente significante para explicar a performance dos
mesmos. O ranking FIFA foi bastante criticado por amantes do
futebol e a própria FIFA decidiu, após a Copa, mudar os critérios
utilizados. O fato de não ter passado no teste de significância
acima demonstra o quão frágil o ranking FIFA é ao tentar
capturar a qualidade das equipes. Caso tomemos, no entanto, o
ranking FIFA como preciso, ser cabeça-de-chave funciona como
um determinante mais poderoso de uma boa performance na Copa
do Mundo do que ser bem ranqueado.
A conclusão, não obstante os
resultados da tabela 5, é que o resultado na Copa do Mundo
2006 está bastante correlacionado com a qualidade dos times,
medido pelo ranking Elo (talvez o ranking da FIFA melhore após
as mudanças anunciadas), mas também que ser cabeça-de-chave
representa uma vantagem considerável para um time
(aproximadamente 3 pontos, ou uma vitória).
Ressalvo porém que esta vantagem inclui tanto estar na
posição do cabeça-de-chave como a possuir mais experiência
em Copa do Mundo (um dos critérios usados para definir quem
é cabeça-de-chave). Ao menos teoricamente, estamos
comparando times semelhantemente qualificados, de acordo com o
ranking disponível.
Finalmente, procuro uma relação
entre mercado de futebol e PIB/capita. Na amostragem de 32 países
da Copa de 2006, países com maior PIB/capita tendem a ser
aqueles que possuem um maior mercado de jogadores de futebol,
já que salários relativamente maiores atraem mais (e
melhores) jogadores internacionais. Como ser cabeça-de-chave
está relacionado com possuir maior mercado futebolístico
(ainda que de forma espúria), temos que paises com maior
PIB/capita se beneficiam mais das vantagens conferidas ao cabeça-de-chave.
Dentre as 8 equipes da quartas-de-final, 6 eram cabeças-de-chave.
Isso não é dizer que o critério é injusto ou levantar
suspeitas quanto a forma como foi adotado. O que tento fazer
nesta análise é argumentar que o fato de haver correlação
entre PIB/capita e resultados futebolístico não quer dizer
necessariamente que o primeiro seja causa do segundo. Talvez,
a relação encontrada na Copa 2006 esteja mais ligada à
vantagem conferida ao jogar em casa (para os países europeus
de elevado PIB per capita. Note que Japão e Estados Unidos são
outliers nesse
modelo). Talvez seja devido ao efeito cabeça-de-chave. Talvez
realmente exista uma relação entre riqueza e performance
futebolística, advinda de uma população melhor nutrida e
mais saudável.
Meus resultados são inconclusivos
a respeito do efeito do PIB per capita na performance de um
time. Intuitivamente, essa relação me parece tão espúria
quanto a correlação existente entre o mercado de futebol e a
escolha do cabeça-de-chave. Os países europeus,
tradicionalmente fortes no futebol, com um mercado futebolístico
bem consolidado e alto PIB/capita, tornam a descoberta de
causalidade entre PIB/capita e resultados futebolísticos algo
extremamente difícil. Para tal, necessitaríamos encontrar
quais as variáveis que diferem entre os paises europeus e que
explicam por que alguns times são sistematicamente melhores
do que os outros. Não obstante, o efeito do PIB certamente não
é o maior determinante para que um país seja bem-sucedido na
Copa do Mundo. Podemos respirar aliviados e continuar torcendo
para o nosso país!
Finda a análise do Goldman
Sachs, passemos ao próximo. O paper da ABN AMRO nos dá duas
hipóteses a serem testadas. Primeiro, testo se o crescimento
do PIB teve algum efeito no resultado das equipes, comparando
o resultado esperado de sua posição no ranqueamento Elo e
FIFA. Em ambos os caso, crescimento no PIB não se
correlacionou com os resultados da Copa do Mundo 2006. Talvez
a Itália, campeã em termos de menor crescimento (0,1% em
2005) e da Copa do Mundo 2006 seja o exemplo mais vívido de
como a relação descrita pela ABN AMRO não se reproduziu na
Copa do Mundo.
|
TABELA
6: Regressoes Lineares - Copa 2006 e Crescimento do
PIB
|
|
Variável Dependente: Pontos obtidos na Copa
|
|
Variáveis Independentes:
|
Coeficiente
|
Coeficiente
Beta
|
|
GDPgrowth
|
-0.1051875
|
-0.07493
|
|
|
(0.1514881)
|
|
Head
|
3.524468**
|
0.3195545**
|
|
|
(1.733686)
|
|
Elorating
|
.019394*
|
.6002988*
|
|
|
(0.0044471)
|
|
Constante
|
-29.65928*
|
|
|
|
(7.721509)
|
|
|
Observações
|
32
|
|
R-Squared
|
0.7676
|
|
Nota: (*) para p-values menores ou iguais a 0.01; (**) para
p-values <=0.05; (***) para p-values <=0.1
|
A segunda tese da ABN AMRO diz
que os times com maior quantidade de jogadores atuando no
estrangeiro estariam colhendo vantagens advindas da globalização
e de um possível processo de aprendizagem transnacional. Este
processo, porém, é assimétrico. Não basta ter jogadores
atuando no “estrangeiro”. Tanto o time da Itália quanto
da Arábia Saudita são compostos exclusivamente de jogadores
atuantes em sua liga doméstica, mas parece óbvio que, se
existe algum processo de aprendizagem relevante, este se daria
quando um saudita jogasse na Itália e não vice-versa.
Possuir mais jogadores atuando no exterior é estatisticamente
insignificante em termos de performance na Copa 2006.
A fim de definir quais os
“centros de aprendizagem” do futebol mundial, escolho os
seis países onde a maior quantidade de jogadores
participantes da Copa 2006 atuam. Considero desta maneira,
incorrendo o risco de parecer eurocêntrico, que um time será
“globalizado” em termos de futebol à medida que possuir
jogadores atuando na Inglaterra, França, Alemanha, Itália,
Holanda e Espanha. Juntos, estes seis paises contratam mais da
metade de todos os 736
atletas convocados para a Copa. Utilizando essa definição,
os resultados confirmaram a tese da ABN AMRO. Em geral, times
mais “globalizados” (Topplayers) obtiveram resultados
melhores do que seria esperado pela sua posição no ranking
Elo e FIFA
|
TABELA 7 Pontos obtidos na Copa vs. globalização
|
|
Variável Dependente: Pontos obtidos na Copa
|
|
Variáveis Independentes:
|
Coeficiente
|
Coeficiente
Beta
|
|
Topplayers
|
0.234032**
|
0.3755756**
|
|
|
(0.0864115)
|
|
Head
|
5.694257*
|
0.5162838*
|
|
|
(1.587366)
|
|
Constante
|
1.300628
|
|
|
|
(0.9061272)
|
|
|
Observações
|
32
|
|
R-Squared
|
0.6313
|
|
Nota: (*) para p-values menores ou iguais a 0.01; (**) para
p-values <=0.05; (***) para p-values <=0.1
|
PARTE 3 – A propósito...
Até agora minhas análises se
concentraram nas relações de causalidade propostas pelos
estudos aqui mencionados. O que dizer sobre as previsões
feitas sobre o resultado da Copa do Mundo? Seguramente, não
necessitamos de análises econométricas para definir o quão
certo ou errado foram essas previsões. Basta confrontar o que
foi dito com o que realmente ocorreu.
Bem, a ABN AMRO fez questão de
enfatizar que a força do Brasil tinha decaído grandemente,
embora ainda suficiente para defender o título. A França, no
entanto, não estaria muito atrás. Meses depois, todos
sabemos o que aconteceu...
A UBS, por meio de seu modelo, previu com sucesso 6 dos 8 times a chegar nas
quartas-de-final (o palpite deles previa Espanha e Holanda ao
invés de Ucrânia e Portugal). Feito mais notável, porém,
foi a previsão de que a Itália ergueria a taça pela quarta
vez na Copa do Mundo de 2006. Realmente, a história conta!
Lanchaster também estava certo.
Dentre as 49 partidas da Copa do Mundo que não terminaram
empatadas, 34 (69,4%) foram ganhas pelos países mais ricos.
Dentre as 15 partidas ganhas pelos países mais pobre, 10
(66,5%) foram ganhas pelos países com a maior população. No
total, a previsão de Lanchaster se confirmou em 89,8% dos
casos.
Ainda não sabemos o que causa
uma equipe ser bem sucedida ou não na Copa do Mundo, mas por
meio de análises “esportométricas”, já e possível
definir, com algum grau de previsibilidade, o que irá
acontecer.
Tiro, portanto, o meu chapéu
para a força dos modelos estatísticos, mas, por via das dúvidas,
continuarei acendendo uma vela durante os 90 minutos (imprevisíveis)
de uma partida de futebol!
“Contrastando
com o ranking da FIFA, que não pondera as vitórias e
derrotas dos times, o Ranking Elo, batizado de forma a
homenagear o físico húngaro-americano Arpad Elo, é
usado para avaliar os mestres enxadristas e suas performances,
seguindo o princípio que uma vitória contra o Brasil
vale mais do que uma vitória contra Andorra, uma vitória
em casa vale menos que uma vitória no campo adversário,
uma vitória por 8:0 vale mais que uma vitória por 1:0 e
qualificar para a Copa do Mundo vale mais do que um
amistoso.” (Hoefert, 2006, p.2) (tradução do autor).
“So
we could propose the following hypothesis: the richest
country will win, except when the most populous one does.
It’ll be interesting to see how many exceptions there
are to this: how many times a poorer, smaller country will
win. Not too many is my guess.” (Lanchaster, 2006)
Shikida,
C.D.: Monasterio, L. Araujo Jr, A. F. . Abrindo a caixinha
de surpresas: uma análise econométrica do futebol
brasileiro. Análise
Econômica, Porto Alegre, v. 23, n. 44, 2005. Versão
não publicada disponível em: www.ceaee.ibmecmg.br/wp/wp3.pdf