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PERFIL

Nicholas Greenwood Onuf

  Por Frederico Silva

 

Nicholas Onuf entra na sala com um passo confiante, as décadas de experiência como professor subitamente lhe voltando à mente após meses sem dar aulas. “Eu fico dizendo pra mim mesmo, eu não sinto falta dos alunos”, ele diz, fazendo a sala rir. O inglês dele é mais americano impossível, num tom pausado e claro – mais tarde ele nos confessaria, um artifício para que os brasileiros o possam entender com mais facilidade.

Onuf, professor aposentado de longa carreira pela Florida International University, esteve de passagem por Belo Horizonte para a realização do Seminário de Debates Teóricos e Meta-Teóricos em Relações Internacionais, em meados de 2006. Não contente em dar uma palestra e ir embora, decidiu chegar alguns dias antes para dar aulas e passear com os universitários – experiência que, nos conta, adorou ter no Japão.

Nick, como pede que o chamem, complacentemente se esforça para parecer o professor que todo aluno quer ter. “Tendo a usar uma palavra complicada quando uma simples serviria” - ele começa a aula, num tom com um quê de paternal, antecipando possíveis dificuldades. A abordagem de Onuf, o Construtivismo, é uma das mais temidas razões de bomba nos cursos de Relações Internacionais.

AULAS - O professor começa a aula com uma pequena autobiografia na qual relata por que decidiu estudar RI, e passa pelas ansiedades normais dos alunos da área. Inicialmente, sonhou em ser diplomata, porque achava que isto o aproximaria das questões que tanto o fascinavam. A identificação da platéia é imediata. Nick got them hooked. Mas ele logo anuncia que desistiu da carreira porque “não tinha o charme pessoal para ser diplomata”. Continua: “teóricos não ganham emprego”, embora ele não pareça nem remotamente preocupado com isso, do alto de sua carreira relativamente bem-sucedida. “Eu não estou interessado no mundo real”, ironiza - continuando a discorrer sobre os méritos em se estudar linguagem, identidades e sociologia num campo ainda associado a guerra, política, e – valha-me Deus – comércio internacional.

No decurso das duas aulas que nos deu, não deixou de passar a impressão: “Nick” sabe se vender. Faz críticas ácidas às outras abordagens teóricas - “não sou contra o Realismo; estou além do Realismo” foi talvez sua frase mais aplaudida. Mostra-se confortável com o ambiente – interrompe a aula para convidar pessoas que estão de pé no fundo do auditório para se sentarem. Derrete-se em elogios aos estudantes brasileiros – diz que algumas monografias poderiam virar teses de mestrado ou doutorado, e que talvez não teria se aposentado “if I had you as my students”.

Seu rosto sangüíneo parece exprimir esforço e sinceridade em cada palavra. Construtivistas estudam regras, e “pessoas estão sempre seguindo regras, mesmo em guerras”. Em certo momento, um professor sobe ao palco para trazer-lhe água. Nick não resiste: “notem as regras em funcionamento aqui”, caçoa, arrancando mais risos da platéia. Não querendo deixar um ar de arrogância, logo emenda: “regras de hospitalidade”. Enquanto continua, discorrendo sobre os méritos do Construtivismo como abordagem empowering, que pode permitir aos países menos poderosos vencer desafios, Nick chega a quase descambar para a auto-ajuda. O Realismo leva a situações como a Guerra do Vietnã, na qual alguns de seus alunos lutaram - é esse o mundo que queremos? Em certo ponto, Onuf quebra sua promessa de não falar no mundo real e critica a Administração Bush. Em outros, chega a quase pedir desculpas por ser americano. É uma pena: de um ponto de vista mal-humorado, Onuf é o DJ Moby das Relações Internacionais.

Onuf gesticula bastante durante as aulas. Não que tenha bebido muito café: pelo contrário, ele está empolgado, apaixonado. Aos poucos vai desenferrujando suas melhores técnicas de aula e deixa transparecer uma qualidade irresistível: ele gosta do que faz. Quantos podem dizer o mesmo?

ENTREVISTA – Após um bocado de insistência minha ao longo dos dias, Nicholas Onuf finalmente concedeu uma curta entrevista no último dia de sua segunda estada no Brasil (a primeira foi  em 2005, no Rio). Fiz quatro perguntas.

Em uma de suas aulas, Onuf falou sobre as regras vigentes num sistema tão aparentemente caótico quanto o das gangues de rua, o que ele chamou divertidamente de “Gangland”. Perguntei a ele: “Is the international system Gangland?”, esperando uma resposta negativa. Mas ele diz que “sim, mas de uma forma peculiar”. Acrescentou que certos estudos teóricos em RI sobre criminalidade tentam usar conhecimentos sobre a competitividade em atividades ilícitas para tirar conclusões sobre o cenário internacional - no qual, como bem sabe qualquer calouro de RI, a falta de um Leviatã sobre os Leviatãs tem conseqüências drásticas. Mas talvez o ponto, continua, não seja o que as RI podem aprender com a Máfia – e sim o que a Máfia pode aprender com RI.

Minha segunda pergunta usa Foucault e a noção de biopoder para falar da atividade de teóricos como o entrevistado. Para Foucault, discursos que parecem ir contra a dominação (como falar abertamente de sexo) apenas reificam e fortalecem a própria dominação. Não estariam os construtivistas, pergunto, fadados ao mesmo destino, reificando as teorias mainstream? Ele responde na lata: “sim, não seria cínico dizer isto, é reconhecível. Mas eu estou velho demais para me preocupar com isso.”

A terceira: se os construtivistas acreditam tanto na força das idéias, isto indica que eles devem ter alguma postura em relação a propriedade intelectual, ou eles podem estar de qualquer lado do muro? Ele confirma a segunda opção. Mas reitera que as discussões estão “embebidas num poderoso artefato que é a noção que idéias podem ter dono (be owned)”.

Quarta: você é um cara bem engraçado (ele interrompe: “você acha?”). No Ensino Médio, você era o palhaço da classe?

Onuf sorri e diz: “não.” Ele não gostava da vida na High School. E depois: “fico feliz que [eu] tenha sobrevivido à experiência”.

Não é nada surpreendente que Onuf tenha sido um outcast em sua vida escolar. Ele ainda o é mesmo nos altos círculos acadêmicos, dominados pelas teorias que seu colega Ruggie chama de “neo-utilitaristas” (e quem o próprio Onuf acusa de ser partidário, apesar de Ruggie dizer que não). Mas a grande verdade é: Nick é um baita mentiroso. Ele tem toda a espirituosidade e charme necessários para ser um formidável diplomata.

 

® O Debatedouro - ISSN 1678 6637

 

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