Por
Dawisson Belém Lopes
“O
homem é um animal perfeito e o único senso
primitivo neste caso é o senso de liberdade física.
‘Eu posso fazer o que quero.’ Disto não há dúvida,
evidentemente. Até agora eu não estou
prisioneiro, nem paralítico, nem ligado por
qualquer obstáculo físico, eu sou livre:
posso fazer o que quero. ‘Mas posso eu querer o
que quero e não querer nada mais?’ Eis aqui a
grande questão.”
Fernando
Pessoa
Húngara
nascida em Budapeste, no entre guerras. Vítima
dos horrores do Holocausto, tendo pai e amigos de
infância mortos. Filósofa de formação, pupila
de Gyorgy Lukács nos anos 1950 e 1960. Membro do
grupo de intelectuais húngaros dissidentes, nos
anos 1970, emigrando para os Estados Unidos no fim
da década. Herdeira da cadeira Hannah Arendt de
Filosofia na New School for Social Research,
em Nova York. Agnes Heller
certamente tem algo a dizer sobre a Política da
contemporaneidade. A sua obra se afigura volumosa
e, sobretudo, densa. A Filosofia Política,
naturalmente, é sua área de predileção. “O
meu sacrifício” – diz a pensadora. “Mas um
sacrifício que me diverte”.
Agnes
Heller concebe a Filosofia como o veículo por
meio do qual pagará o seu tributo às vidas que,
em nome da loucura humana dos totalitarismos,
foram ceifadas. E a assertividade com que se vem
dedicando a uma defesa do ideal libertário para a
vida em comunidade traz um certo sentido de
“missão terrena”. Missão de quem, outrora
aluna de Lukács, viu-se desafiada pelo fantasma
da exclusão política, moléstia que não
deixou de infectar nem mesmo a teorização dos
consagrados pensadores políticos do século XX,
como o próprio Lukács e a alemã Hannah Arendt.
O que Agnes Heller nos propõe não é pouco
ambicioso: revisitar o conceito do “político”.
Cumpre-nos refletir sobre as condições possíveis
para que se exerça a liberdade política prática
nesses termos.
I
O
político toma duas acepções na vida
moderna: ora (1) aquilo que traz um ingrediente
(fator, aspecto, componente) que o qualifique como
“político”; ora (2) aquilo que se refere a um
domínio (locação, área) do “político”. O
político como ingrediente e o político
como domínio. Agnes Heller anota, logo de
saída, que a segunda acepção é analiticamente
desconhecida pelos pré-modernos. Gregos e romanos
antigos concebiam, de forma natural e não-problemática,
a política como o que se decidia pelos membros
da(s) classe(s) política(s). Todos os
atos que tramitassem por aquela(s) esfera(s)
seriam, por suposto, atos políticos. Tudo o que não
partisse de classes políticas seria, em decorrência,
não-político (Heller, 1991: 330-1).
Na
Pré-Modernidade, importava saber quem, e não
o que era o Estado. Para Aristóteles, o
Estado seria o mero somatório de seus cidadãos;
para Luís XIV, ‘L’état, c’est moi’.
Só com a Modernidade, viria a reificação possível
e necessária para a compreensão e prática da
nova Política. Karl Marx e Max Weber logo
assimilarão o curso das mudanças, atentando para
a emergência das burocracias. Ortega y Gasset não
tardará em denunciar a “rebelião das
massas”. A Política se difunde, extravasa os
seus velhos domínios, de forma desordenada,
tornando inviável o confinamento do “político”
às classes e extratos específicos.
O
início do século XX representa período pródigo
em embates ideológicos acerca do “conceito do
político”. Emblemático é o papel jogado,
naquele contexto, por Carl Schmitt. Postulava o
pensador alemão que, apesar de o ato político
supremo ser reconhecidamente o ato de decisão,
o conceito do político não poderia residir na soberania,
mas sim no binário amigo-inimigo. Política,
para Schmitt, significaria lutar por ou contra
alguém. Embute, o conceito de Schmitt, um ânimo
permanente de beligerância entre os que estão dentro
de um círculo de amizades e os que estão fora.
A Política da Modernidade, em Schmitt, está
nitidamente fundada na lógica da segregação –
esta, a pior inimiga dos liberais. Consoante tal,
ações empreendidas em benefício de alguém, mas
não em desfavor de outrem, não poderão ser
chamadas de “políticas”. Imperam, no modelo
explicativo de Schmitt, os jogos de soma zero (zero-sum
games). Pondera Heller: a principal objeção
ao conceito schmittiano não está em sua
unilateralidade, de resto comum às idéias filosóficas
inovadoras, mas em sua natureza excludente, tirânica
(p. 332-3).
Outra
linhagem de pensadores, representativa da tradição
filosófica existencialista, abraçava a idéia do
“político” como uma espécie de coletivismo
redentor. Heller cita dois eloqüentes
exemplos: Lukács e Heiddeger. Ambos preconizavam
uma constituição intersubjetiva do mundo; ambos
rejeitavam a noção de que se vivia um tempo
banal, em um mundo desprovido de heroísmo e
grandeza; ambos – inspirados pela imagem do
paradoxo existencial kierkegaardiano (indivíduo/coletividade)
- entendiam que o auge da afirmação do “político”
corresponderia à autoconstituição de uma
dada coletividade política. Em Lukács,
encontramos a idéia da revolução proletária
como o grande ato político empírico; em
Heidegger, é a nação alemã a encarnação do
ideal de autodeterminação política. Heller
deriva desses construtos a seguinte ressalva:
“there are good theoretical grounds for thinking
that the paradigm of collective consciousness (or
collective Dasein) authorizes the
repression of individual conscience and
freedom”. Para
mais, uma incoerência estrutural nos construtos
em apreço é percebida: o conceito residente por
trás da idéia de escolha existencial coletiva é
mitológico, pois confere contornos individuais
(antropomórficos) a uma coletividade –
condição irrealizável per se (p. 333-4).
Por
fim, em seu resgate de “conceitos do político”
entre pensadores eminentes do século XX, Agnes
Heller não deixará de fazer reparos à teorização
de sua preceptora “espiritual”, a filósofa
Hannah Arendt. Em Arendt, o conceito do “político”
é o de ‘ação como energeia’. Energeia
envolve ação direta, discussão e atividade teórica.
Por seu turno, Ação é o ato que tem fim em si
mesmo. Aqui se entende todo o interesse de Arendt
pela temática da revolução: para ela, como para
tantos outros pensadores de igual calibre, a revolução
é o grande momento do “político”. Segundo
Agnes Heller, Arendt é a estrela solitária de
uma filosofia política radicalmente democrática
em seu tempo. Haja vista a sua forte diferenciação
entre o ativismo político e a cidadania passiva,
o seu sonho de restauração das classes políticas
(como na Grécia antiga) e, destacadamente, o seu
desprezo por assuntos meramente sociais. O
grande problema que se lhe atribui é, na verdade,
um dilema auto-imposto: o seu sincero compromisso
com a democracia, por um lado; e a sua negligência
(exclusão, para usar a expressão de
Heller) de uma pletora de temas que homens e
mulheres percebem como assuntos políticos da
maior relevância e impacto para as suas vidas (p.
335-6).
Heller
prossegue com uma nítida provocação: alega que
a controvérsia a respeito do conceito do “político”
implica um julgamento tácito sobre a relevância
(ou não) da Filosofia Política para a geração
hodierna. Há muita “ciência” embaçando visões
mais nítidas sobre a Política. Devemos, ante o
exposto, optar pela resignação e abandonar o
estudo da Filosofia Política ou, contrariamente,
é-nos lícito explorar novas avenidas filosóficas
acerca do “político”? Os que se conformam (e
até apreciam) o atual estado de coisas deverão
desembarcar por aqui (p. 336).
II
Aos
que entendem que o estudo da Política requer uma
postura permanentemente reflexiva e autocrítica,
o ensaio “The Concept of the Political
Revisited” (1991), de Heller, é dedicado. A
autora entende que a unidade entre proposições
normativas e consciência empírica é precondição
absoluta para uma filosofia política. Bem
entendido, fica a lição de que a filosofia política
é uma categoria tornada possível apenas com a
emergência da Modernidade. Quanto mais refletimos
sobre a estrutura da Modernidade, mais nos
remetemos à filosofia. A razão é que a condição
moderna acalenta uma contradição básica entre o
Ser e o Dever-ser. A Modernidade é o tempo histórico
em que homens e mulheres buscam justapor o Dever-ser,
conjunto de valores universalizados, ao Ser,
conjunto de instituições sócio-políticas. A
dicotomização Ser/Dever-ser é a quintessência
da Filosofia na era moderna (p. 336-7).
Conceituar
o político em tempos modernos parece acarretar um
grande dilema: se nenhuma definição substantiva
é dada ao conceito do “político”, o conceito
se esvai – ou, pelo menos, todas as relações,
valores, redes, escolhas, categorias cuja existência
política se atrele à definição do “político”;
por sua vez, se a definição do “político”
tiver, ela mesma, natureza política, então
retornamos ao problema inicial: o da Política
como arena da exclusão. Logo, nosso
conceito deverá ser definido substantiva,
mas não exclusivamente; e não poderá
ostentar natureza política (p.
337). Que tipo de conceito teremos, então?
Tornemos
ao campo dos valores. Agnes Heller alerta
que qualquer “conceito do político” que se
venha forjar deverá ser permeado por
constituintes éticos (ethical constituents)
centrais à vida política da Modernidade. Devem
ter consciência desses valores todos os atores
políticos de relevo. Tais valores – os Dever-ser
(Oughts) de nosso tempo – poderão, sem
embargo, ser facilmente resgatados da realidade
social. Heller aponta: “Of them, freedom is the most polyvalent”. Como
um valor completamente universalizado, está
aberto a um sem-número de interpretações. Mas há
muitos outros “imperativos categóricos” na
Política moderna: igualdade, defesa da vida, decência.
Valores poderosos tanto no imaginário
institucional como na forma institucionalizada dos
direitos (p. 338).
Valores
mudam no tempo e no espaço. Três tendências ou
lógicas, no entanto, acabaram por moldar, aos
olhos de Agnes Heller, a condição política
moderna. Seriam elas: (A) o desenvolvimentismo
tecnológico; (B) a funcionalidade da divisão
social do trabalho; e (C) a construção de
Estados como encarnação de valores
universalmente praticados. Na Modernidade
ocidental, essas três lógicas têm-se traduzido,
em termos concretos, nas formas da (a)
industrialização, (b) da economia de mercado
competitiva (capitalismo) e (c) da democracia
liberal, respectivamente. A terceira lógica, a do
Estado democrático liberal, tende a ser a correia
de transmissão (carrier) da referida tríade
de lógicas da Modernidade. O Estado tem-se
incumbido, inclusive, de conduzir às condições
para o exercício da liberdade individual. Por
paradoxal que pareça, não se concebe, na
Modernidade, liberdade que não aquela
proporcionada por um “garante”: o Estado (p.
339).
Não
há a independência política sem a mediação.
E a mediação, nesse contexto, é mais que um
simples conectivo: nela se instaura todo o sentido
do “político” na Modernidade. Posto de forma
resumida: a realização prática de valores tais
como a liberdade, e outros valores universais,
aparenta depender, direta ou indiretamente, da
existência de um espaço público. Um espaço que
garanta a apreciação dos próprios valores que
perfazem a Política. Em tempos como os que
correm, a distinção (altamente ideológica e
arbitrária) entre o “político” e o
“simplesmente técnico” segue sem contestação,
por inexistirem direitos assegurados, tampouco um
espaço público onde se debater o assunto. Todo
tema submetido a uma apreciação valorativa é, e
não poderá deixar de ser, um tema político.
Discussão de valores é discussão de Política
(p. 340).
III
“O
conceito moderno do ‘político’ é a realização
prática do valor universal da liberdade no espaço
público”. Assim falou Agnes Heller. O
“político como domínio”, portanto. Não
importa o que adentre esse domínio. Uma vez
inserido, por homens e mulheres, em um espaço público,
um tema qualquer será político;
similarmente, tudo o que deixe a agenda das
preocupações públicas cessa de ser político
(p. 340).
Dentro
do domínio do político, isto é, o espaço público,
as “coisas” se tornam mais ou menos
políticas, dependendo das ações, instituições,
proposições e metas mobilizadas; em suma,
dependendo do quanto se “compartilhe” o senso
de politicidade de um ‘objeto’ nos
limites do espaço público. O aspecto substantivo
do “político” não se investe de concretude;
antes, representa o dinamismo inerente à idéia
de Modernidade. Não há ação ou escolha,
distante de uma esfera pública, que se possa
arrogar o “gene” do “político”. Ninguém
e nada estão excluídos, em princípio, da politicidade.
Cabe a ressalva: se um assunto não se conecta
com a liberdade no espaço público, o que se
discute são objetivos ou metas (policies),
mas não a Política (politics). O caráter
público do assunto, por si só, não o faz político
(p. 341).
O
conceito é, a um só tempo, normativo e empírico.
É moderno, se entendemos a Modernidade como o
plano para a manifestação de diferentes versões
sobre a História. Para além, é esvaziado de
adjetivação moral. No plano ético, contudo, há
uma clara opção pelo valor da liberdade.
Mas por que, então, o conceito do “político”,
para Agnes Heller, dá ênfase ao valor universal
da liberdade, relegando a um segundo plano os
ideais – também universais - da igualdade, da
racionalidade ou da paz? Responde
Heller: “Rationality, equality and peace, and
many other values besides, belong to the arsenal
of the politically active values if, and
only if, their concretization is directly
or indirectly connected with the cause of
freedom” (p. 341).
Esta
é a Política da Liberdade, segundo Agnes Heller.
O seu “conceito do político” traz o mérito
evidente de superar, ao menos no plano teórico
(quiçá, também no empírico) a síndrome da
exclusão política, tão comum nos idos do século
XX.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
HELLER,
Agnes (1991). “The Concept of the Political
Revisited”. In: HELD, David (editor). Political
Theory Today. Stanford University Press, p.
330-43.
HELLER,
Agnes e FÉHER, Ferenc (1998). A Condição Política
Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Ed. Civilização
Brasileira.
Entrevista
com Agnes Heller. Left
Curve,
n.º 22, Budapeste, 1997.