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ENSAIO

As dimensões interna e externa do mandato de Silvio Berlusconi

  Por Diogo Mamoru Ide & Ricardo dos Santos Poletto [1]

 

1. Introdução: perspectivas de mudança

Sessenta e três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial,, a Itália conhece seu 62º governo. A sustentação dos cinco anos de mandato deixará de ser um desafio para o governo de centro-direita, se os partidos aliados mantiverem-se fiéis a Berlusconi, que possui confortável maioria no Palazzo Madama e no Montecitorio. As lições de 1994, quando a Liga do Norte derrubou o governo Berlusconi e a recente derrocada do governo Prodi apontam para uma posição privilegiada em uma curva de aprendizado.

O objetivo dessa análise, nesse cenário elusivo, é precisamente indicar o que muda em um terceiro mandato para Berlusconi e por que essa legislatura pode significar maiores mudanças domésticas e internacionais, em contraste ao imobilismo dos governos anteriores. Cumpre apresentar os tópicos da agenda eleitoral, que implícitas ou explícitas na plataforma de governo, podem mudar os rumos de um país em busca de reformas estruturais e de reafirmação internacional.,

 

2. Contexto político-eleitoral: o fim da ditadura dos pequenos partidos

Se  há uma palavra que descreve bem o sistema político italiano nas últimas décadas, essa palavra é “instabilidade”. O revezamento febril de nada menos do que sessenta e dois governos reflete a grande descentralização existente em torno de diversos partidos políticos pequenos e a conseqüente necessidade de contar com vários desses partidos para a formação de coalizões de maioria parlamentar,  o que engessa sobremaneira as perspectivas de cumprimento das plataformas de governo. Nesse ambiente, qualquer medida contrária aos interesses de um grupo é seguida pelo mortal abandono da coalizão. Nos últimos anos, políticos e juristas italianos têm buscado uma fórmula para garantir a governabilidade, sem sucesso até o momento devido à falta de consenso e à rigidez procedimental.

Essa oportunidade em direção à governabilidade ocorre no contexto de reorganização político-institucional da Segunda República Italiana, resultado da Operação Mãos Limpas (Mani Pulite), em 1992, quando a devassa nos partidos políticos resultou no desmoronamento de verdadeiros impérios eleitorais. Os democratas-cristãos foram politicamente defenestrados pelo judiciário e pela sociedade italiana. Os socialistas não escaparam imunes, tendo seu partido dissolvido. O Partido Comunista, por sua vez, moveu-se – também em virtude do colapso soviético – ainda mais em direção à social-democracia para ocupar o vácuo deixado pelo Partido Socialista. Enfim, a metamorfose e a fragmentação partidária deu origem a um sistema tão instável quanto o anterior, e que só agora com a eleição de Berlusconi parece ter encontrado uma saída.

As mudanças tocam profundamente a tradição da esquerda na Itália, onde, mesmo sob o severo olhar do Vaticano, muitos eleitores italianos não se intimidavam em ir à missa após fazer campanha pela foice e martelo. Religião e o comunismo podiam andar de mãos dadas. Entre 1946 e 1980, a política italiana foi dirigida pelo temor de uma vitória comunista, suscitada pelo grande peso das centrais sindicais nas grandes cidades e a relevante contribuição intelectual italiana para o pensamento de esquerda. Nas eleições de abril deste ano, os comunistas sofreram seu mais duro golpe: nenhum representante eleito no parlamento. O agregado de partidos de esquerda (Sinistra Arcobaleno), que reunia representantes comunistas e ambientalistas, conquistou apenas 3% do total de votos, apoio insuficiente para garantir uma única cadeira na Câmara ou no Senado.

A Primeira República (1948-1992) era governada pelo “bipolarismo imperfeito”, cuja lógica determinava a hegemonia do Partido Democrata-Cristão, com eventual participação do Partido Socialista, e alijamento da oposição, comandada pelo Partido Comunista, opção proibida para um país no seio do Tratado do Atlântico Norte, durante a Guerra Fria. A ausência de alternância de poder entre situação e oposição, entretanto, não significava estabilidade, em função de contínuos ajustes determinados pelo paroquialismo e loteamento burocrático. Lembrado pelo descrédito e pela corrupção generalizada, o Estado italiano era a visão do império da ineficiência e dos conflitos de interesse. Em meio à turbulência das reformas, o socialista Rino Formica sintetizou a lógica do espaço político: “Os freis são ricos, mas o monastério é pobre”.

É notável, portanto, que, no resultado das eleições de meados de abril passado, apenas seis partidos tenham conseguido cadeiras no parlamento. Discute-se uma tendência na Itália de aproximação aos sistemas políticos bipartidários vistos nos EUA e na Inglaterra. Cabe questionar, no entanto, em que medida esse enxugamento de partidos menores irá, de fato, conferir maior efetividade ao programa da coalizão do novo Primeiro-Ministro eleito.

Esse será o terceiro mandato de Berlusconi como Primeiro-Ministro da Itália. Seu primeiro mandato, resultado de forte campanha midiática, durou apenas poucos meses (março a dezembro de 2004). A saída do partido anti-imigração de direita, Liga do Norte, da coalizão forçou-o a pedir o afastamento. Entre os principais motivos da defecção da Liga estavam o não cumprimento do pacto eleitoral e a perda de alguns de seus políticos para o Partido de Berlusconi, Forza Italia.

Em 2001, Berlusconi venceu novamente as eleições. Seu mandato, entretanto, foi novamente interrompido em 2005 devido a diversos fatores, como o enfraquecimento da coalizão pela ameaça de saída de alguns partidos, a derrota nas eleições regionais e a possível perda do voto de confiança no Senado. Após dois anos na oposição, Berlusconi foi pela terceira vez eleito para o cargo de Primeiro-Ministro, em abril de 2008. A recondução de Silvio Berlusconi ao poder resulta do voto de não confiança que o premiê anterior, Romano Prodi, recebeu do Senado e de seu posterior afastamento. Na impossibilidade de construir um pacto político, o presidente Giorgio Napolitano dissolveu o parlamento e convocou novas eleições.

 

3. Desafios domésticos: uma agenda de reformas

Apesar de Berlusconi contar com a maioria da Câmara e do Senado e de não ser tão dependente de partidos menores como o foi no passado, é perceptível um certo clima de apatia por parte da população, confirmando a máxima italiana de que o italiano prefere os candidatos da esquerda, mas vota nos partidos da direita. Isso se deve ao descontentamento popular com os governos anteriores, os quais não realizaram muitas das principais promessas eleitorais. Na verdade, Veltroni, do PD (Partito Democratico), e os partidos de centro-esquerda sofreram os efeitos da reprovação geral que acometeu o governo Prodi. A fim de superar a desconfiança sobre seu novo governo, é essencial que o novo premiê realize uma série de reformas que têm sido prorrogadas pelos últimos governos.

 

3.1 Imigração: o discurso da Liga do Norte

Um dos principais desafios será lidar com a imigração ilegal, questão em que a Liga do Norte (Lega Nord) certamente terá grande influência devido ao seu fortalecimento no Parlamento. A Liga dobrou seu apoio popular para 8,2% do eleitorado justamente por tocar em questões sociais que configuram as maiores preocupações atuais dos italianos, tais como a imigração ilegal e o aumento da criminalidade. Embora a Itália esteja longe de estar entre os destinos mais procurados por imigrantes no âmbito da União Européia, o país recebe fluxos migratórios significativos de lugares como Albânia, Eritréia, Somália e Nigéria. Além disso, o crescimento dos imigrantes provenientes de países recém incorporados à União Européia, os quais ainda não apresentam a mesma pujança econômica e os mesmos níveis sociais da Europa Ocidental, cresce a passos largos. Ocorre que o número de romenos na Itália aumentou significativamente após a adesão da Romênia à União Européia.

Segundo o Ministério do Interior, 35% dos crimes cometidos na Itália tiveram autores estrangeiros. Destacam-se, nesse sentido, o crescimento de 75% dos delitos cometidos em Roma por imigrantes romenos. Em relatório publicado pelo Departamento de Administração Penitenciária, estrangeiros representam quase 40% da população carcerária do país.

A posição da Liga do Norte sobre imigração é bem conhecida: a Itália deve fechar o cerco contra imigrantes ilegais, pois haveria uma correlação direta entre imigração desregulamentada e aumento da criminalidade.  A influência política da Liga do Norte na Itália setentrional é geralmente observada com preocupação, haja vista a descrição da agremiação política como xenófoba por parte da mídia internacional. Argumento merecedor de escrutínio é o de que as condições de vida dos imigrantes que chegam à Itália são realmente precárias e que os delitos causados por imigrantes são causa da precariedade das condições de vida dos imigrantes e não da imigração per se.

A resposta no momento cogitada por autoridades italianas é o estabelecimento de um limite mínimo de renda como forma de barrar estrangeiros que desejam passar mais de noventa dias no país. Entretanto, cresce a percepção de que a questão da imigração ilegal também deve ser debatida em âmbito regional. Há no momento propostas de adoção de políticas conjuntas para os países-membros da União Européia, mas o acordo final ainda não foi alcançado.

 

3.2 Federalismo Fiscal: uma Itália dividida

Outra questão que vem à tona com o ressurgimento da Liga do Norte é o aumento de autonomia fiscal à região norte do território italiano, mais industrializada e mais rica. Apesar de não mais advogar a secessão em relação ao sul, a Liga do Norte sustenta que os tributos pagos pela região norte devem ser empregados dentro da mesma região, pois é inaceitável, na perspectiva de muitos nortistas, que políticos do norte tenham que pedir a Roma o dinheiro recolhido de sua própria população. O problema é que a plataforma política do novo premiê se baseia muito na realização de melhorias infra-estruturais na Itália meridional. Na região de Nápoles, por exemplo, onde a coleta de lixo está paralisada há meses,  as expectativas quanto ao próximo governo Berlusconi são muito altas devido às promessas de resolução do impasse, apesar da dúvida com relação ao envolvimento de alguns de seus apoiadores com a máfia na região. A dúvida posta ao novo governo é, portanto, como conciliar interesses divergentes entre regiões tão díspares, sob a mira de um partido aliado e sob o peso de promessas eleitorais.

 

3.3 Alitalia: um projeto de resgate

A campanha política de Berlusconi também teve como proposta a recuperação da Alitalia, empresa do setor aereoviário que há anos enfrenta problemas econômicos. Os subsídio dado pela Itália, ainda no governo Prodi, para evitar a falência a companhia é estimado em €300 milhões. O problema decorrente é que, em razão da ajuda econômica ocorrida anteriormente, em  2001, o governo italiano estaria proibido de prestar outra ajuda até 2011 de acordo com as normas da União Européia.

 A intenção inicial de vender a companhia para a Air France-KLM foi descartada após esta retirar sua proposta de compra. As exigências de aprovação da compra pelos sindicatos italianos e pelo futuro governo de Berlusconi simplesmente não eram possíveis de serem asseguradas pela Air France – KLM.

Logo após a Air France retirar sua proposta, Berlusconi cogitou nacionalizar a empresa, em vez de vender os 49,9% de ações que o governo italiano detém. Entretanto, esse cenário apresenta-se pouco viável na medida em que a Ferrovie dello Stato, companhia ferroviária que compraria a Alitalia, também amargou prejuízos da ordem de centenas de milhões de euros no último ano. Embora o futuro da Alitalia ainda não tenha sido resolvido pelo governo, é certo que o caso  será analisado pela Comissão Européia. A decisão da Comissão acerca da legalidade dos subsídios à companhia italiana acontecerá sob ambiente de forte pressão por parte das grandes companhias aéreas européias. A ajuda econômica à Alitalia, argumentam as companhias, é prejudicial ao livre-mercado do setor em que operam. Dessa forma, o caso da Alitalia tem grande potencial para ser o primeiro ponto de atrito entre o novo governo de Berlusconi e Bruxelas.

 

3.4 Crescimento econômico: saudades do miracolo economico

No campo econômico, além da questão da Alitalia, o governo de Berlusconi encontra-se rodeado por outros desafios: alto nível de desemprego entre jovens, alta inflação, desequilíbrio nos gastos governamentos, gargalos na infra-estrutura. No ramo do turismo, a Itália caiu da primeira para a quinta posição como destino mais procurado. A previsão do Fundo Monetário Internacional para o crescimento da Itália é de apenas 0,3% anual para 2008 e 2009, previsão que deixa a economia italiana como a última em crescimento na Europa e entre os países do G-8. Há pouco mais de dez anos, a economia italiana era mais rica que a francesa e a britânica, quando consideradas a renda per capita e a paridade do poder de compra da população. Atualmente a economia italiana se encontra abaixo da média da União Européia.

As dificuldades em acompanhar o ritmo de seus vizinhos podem ser tributadas à inconstância resolutiva dos governos, tanto de direita quanto de esquerda, que não foram capazes de realizar as reformas essenciais para o aumento da produtividade e do crescimento econômico. Posto que a economia italiana é muito dependente de companhias de porte pequeno ou médio, a situação do país torna-se ainda mais delicada com o avanço da indústria chinesa sobre alguns nichos de mercado.

 

3.5 Tendência continental: reação a problemas comuns

A eleição de Berlusconi ao posto de Primeiro-Ministro, seguida pela eleição de Gianni Alemanno ao cargo de novo prefeito de Roma, ilustram um acompanhamento da Itália da guinada à direita que se observa pela Europa desde meados dos anos 2000. A eleição de partidos de direita em países como Alemanha, Finlândia, Países Baixos, Suécia, Dinamarca, França, entre outros, pôs fim ao domínio da esquerda iniciado na década de 1980.

Em Roma, Alemannno já demonstrou interesse em demolir moradias ilegais e em deportar 20 mil criminosos estrangeiros. De forma semelhante, políticas conservadoras já foram anunciadas por Berlusconi com relação ao aborto e à imigração ilegal; o que certamente aproxima a Itália ao Vaticano e a outros governos de direita da Europa. Essa tendência ao conservadorismo da direita européia pode ser entendida com uma abordagem convergente de reação a problemas em comum que países-membros da União Européia enfrentam. Imigração ilegal, baixo crescimento econômico e apreensão quanto ao terrorismo criaram a base para a ascensão de políticos conservadores com forte apelo junto às massas. Logo, o que se observa é a busca da via conservadora como meio de solucionar problemas regionalmente endêmicos.

 

4. Desafios Internacionais: em busca do protagonismo perdido

Para além das questões domésticas, trata-se de exercício corriqueiro analisar os possíveis impactos de uma mudança de governo nos rumos de algumas dimensões bilaterais, regionais e, eventualmente, globais das relações internacionais. Essa avaliação prospectiva é particularmente importante para países com grande peso internacional. Desprovido de capacidade e de instrumentos de atuação internacional, um Estado tende a concentrar sua agenda política no plano doméstico. Esse não é o perfil italiano; pelo menos, não deveria ser. Cumpre, então, demonstrar o equívoco da subestimação do papel italiano. O argumento é o de que vencida a paralisia política que pervade a bota mediterrânea é possível vislumbrar seu maior protagonismo nas grandes questões internacionais contemporâneas.

 

4.1 Política Externa: o real peso das questões externas

Por que, afinal, as eleições na Itália que reconduziram Berlusconi ao poder devem ser dignas de maior atenção internacional? Um país como a Itália – com 60 milhões de habitantes, epicentro de produções culturais e artísticas, importante centro dispersor de emigrantes pelo mundo, membro fundador do mais bem sucedido experimento de integração regional, partícipe da zona do euro, sétima economia mundial, sede de importantes corporações transnacionais, membro-fundador da OTAN e da OCDE, titular de fóruns internacionais decisivos como o G-8 e oitavo maior orçamento de defesa do mundo -  definitivamente não pode ser tratado aprioristicamente como ator secundário. Argumenta-se que a voz italiana tornou-se inaudível diante da assertividade francesa e da robustez alemã, que, efetivamente, comandam os passos da integração européia e empenham políticas externas mais consistentes. Na contramão da indiferença, as perspetivas de um governo capaz de governar a Itália, imune à anarquia parlamentarista dos últimos anos, merecem maior atenção. Com efeito, parece natural supor que a obliteração italiana é resultado da inconstância de suas instâncias políticas e conseqüente dificuldades de superar os desafios das reformas. Para uma Itália em busca do prestígio e protagonismo histórico perdidos, talvez a governabilidade seja o pré-requisito que estava faltando.

Cabe também refutar a tese da insignificância das questões internacionais no embate político. Há elementos empíricos que, de fato, comprovam a primazia da política doméstica na Itália. Questões internacionais efetivamente são relegadas ao segundo plano no confronto de plataformas de governo, em face da relativa indiferença eleitoral e dos grandes desafios internos. Cumpre lembrar, por outro lado, os motivos que, em fevereiro de 2007, levaram Prodi a colocar o cargo de primeiro-ministro à disposição do presidente Giorgio Napolitano; razão da crise: não aprovação do plano de política externa do governo no Senado, notadamente o financianciamento para a manutenção das tropas italianas no Afeganistão. Antes disso, o governo já havia enfrentado grande oposição para a aprovação da expansão da base norte-americana em Vicenza, Campo Ederle, que receberia um maior contingente de tropas estacionadas deslocadas da base alemã.

 

4.2 O perfil diplomático italiano: a vez do primeiro-ministro

Vale discutir os nós da política externa italiana e apontar possíveis mudanças na atuação na perspectiva de elevação do papel italiano. Do Palazzo della Farnesina – como é conhecido o Ministério de Relações Exteriores da República Italiana -, avista-se um cenário internacional bastante elusivo em termos de possibilidades de incremento do papel internacional do país.

Os quadros da diplomacia italiana permanecem ligados à Democracia-Cristã, que dominou o cenário político até o início dos anos 1990, o que é um forte vetor de continuidade. As mudanças ocorridas na organização do poder e da burocracia italianos após o terremoto de 1992, no entanto, apontam para uma maior atuação do primeiro-ministro nas linhas de atuação da política externa. E, com efeito, isso é observável desde os primeiros governos de Sílvio Berlusconi (1994-1995; 2001-2006), Massimo D’alema (1998-2000) – ministro das relações exteriores do segundo governo Prodi - e de Romano Podi (1996-1998; 2006-2008) – ex-presidente da Comissão da União Européia (1999-2004). Nesse sentido, é válido reproduzir a mensagem do editorial de 21 de abril do Corriere della Sera, segundo a qual só depois da voz das urnas e ao fim do debate eleitoral é que o cenário internacional recebe o relevo que merece.

 

4.3 As dimensões da politica externa: uma política externa tridimensional

É possível identificar três grandes frentes da política externa; todas elas potencialmente afetadas pelos resultados eleitorais, muito embora ausentes da plataforma da coalizão vencedora. Os italianos sempre moderaram as dimensões européia e atlântica de seu comportamento internacional. Adiciona-se a essas duas dimensões de atuação a vertente mediterrânea. Cada uma delas traz desafios particulares, que, em seu conjunto, colocam o prestígio internacional italiano em prova de fogo.

 

4.3.1 Dimensão Européia: a falácia do euroceticismo

A política externa continental – ou européia – constitue-se historicamente como eixo central das orientações de política externa italiana. Embora a vitória de uma coalizão cuja maioria é sustentada pelo partido Liga do Norte - de discurso radical de direita e anti-UE - cause calafrios na euroburocracia de Bruxelas, parece não haver razões para alteração dos prospectos sobre a integração sob o Tratado de Lisboa. Afinal, poucos países do bloco possuem um histórico de apoio à integração regional tão entusiástico como a Itália. Basta recordar que os Tratados de Roma de 1957 não recebem o nome da capital do país à toa. Foi na Sicília que os chanceleres dos países fundadores das Comunidades Européias ativaram as negociações do grande projeto de integração. A Conferência de Messina, em 1955, encaminhou as negociações que desaguariam na criação da Comunidade Econômica Européia. Além disso, o apoio da população italiana sempre esteve em níveis superiores ao de seus grandes vizinhos.

As linhas de força de uma política externa pró-União Européia são, via de regra, imunes à troca de governos. Há fortes temores, entretanto, de que Berlusconi coloque em prática sua retórica eurocética, que culpa a força do Euro pela estagnação econômica italiana. A propósito, o euroceticismo do magnata de Milão não se confirmou nas duas ocasiões anteriores de seus governos pregressos. Atualmente, Berlusconi empenha um discurso de recuperação do supostamente perdido ativismo da União Européia por meio da proatividade italiana. Enfim, não há indícios de que a coalizão de centro-direita possa comprometer a dimensão européia da política externa, a despeito dos ataques alarmistas dos verdes, dos socialistas e de importantes figuras em Bruxelas. Por outro lado, incomoda profundamente ao establishment italiano a composição de um diretório europeu que exclui a Itália. A tríade Grã-Bretanha-França-Alemanha é contestada pelos italianos, que se sentem merecedores de um assento cativo na discussão dos grandes temas mundiais.

Mesmo dentro da Europa, as políticas de imigração deve assumir novos contornos na Itália, na medida em que a instabilidade na região da ex-Iugoslávia seja prolongada e o corrente problema com o movimento de populações de origem albanesa seja colocado como tema prioritário pelos grupos de direita que compõem o governo. Com efeito, os italianos mantêm significativa presença no Kosovo e na Bósnia-Herzegovina, como grandes interessados na estabilização da região, e não podem furtar-se a confrontar o problema, que tende a ser tratado de forma mais dura pelo novo governo.

Ainda no âmbito europeu, deve haver um forte foco italiano nas questões econômicas. A Itália vive ainda o saudosismo do milagre italiano dos anos 50, puxado pelo motor do Plano Marshall. Berlusconi venceu as eleições de 1994 prometendo un nuovo miracolo economico, sem sucesso. Suas manifestações sobre a necessidade de desvalorizar o Euro, para tornar as exportações européias mais competitivas, e reduzir os juros manejados pelo Banco Central Europeu pode incomodar os técnicos de Frankfurt ao longo de seu mandato.

A dimensão continental contempla ainda as relações com a Rússia, mais importante vizinho da União Européia. A empatia entre Berslusconi e Vladimir Putin coloca em evidência as relações bilaterais entre Itália e Rússia. Em 18 de abril, Berslusconi recebeu o líder russo, tendo como agenda a cooperação energética de suprimento do gás natural e petróleo russos e a insolubilidade da Alitalia, à beira da falência. O novo governo italiano assume o desafio de melhorar as relações entre o bloco europeu e a Rússia, bastante abalada pelas questões energética, pelo embargo da carne polonesa e pela política russa para Geórgia e Moldávia. O encontro na Sardinha confirmou as expectativas de personalização da política externa, que nas duas experiências anteriores foram motivo de grande embaraço para a diplomacia italiana. Não motiva surpresa o fato de que as primeiras gafes já começaram a ser contabilizadas antes mesmo da posse.

 

4.3.2 Dimensão Atlântica: entre os Estados Unidos e a Rússia

A dimensão atlântica é talvez a que atraia maior expectativas dos observadores internacionais. Essa dimensão inclui não só as relações com os Estados Unidos, como também a inserção da Itália na OTAN. As duas agendas são indissociáveis e Berlusconi já manifestou reiteradas vezes sua simpatia pela política externa do presidente George W. Bush. De fato, ao apoiar a Guerra no Iraque, Berlusconi esteve disposto a contrariar um forte sentimento da opinião pública – 75% dos italianos eram contra a guerra, em janeiro de 2003. O apoio à guerra colocou a Itália na mesma fileira que Grã-Bretanha, Espanha e Polônia, porém sem o envio de tropas, que só realizou-se posteriormente, após pressões dos Estados Unidos. As fissuras no concerto do posicionamento da União Européia naquele episódio remontam os desafios da construção de uma política externa comum, a qual a Itália defende, mas sem abrir mão da dimensão atlântica. Essa posição, desposada com maior afinco pela centro-direita, pode representar desafios ao terceiro pilar da União Européia – a Política Externa e de Segurança Comum. Por outro lado, uma possível convergência entre Sarkozy-Merkel-Berlusconi pode amenizar as querelas políticas do bloco, diferentemente do isolamento de Berlusconi com relação à díade Chirac-Schroeder.

Os impactos de uma orientação atlântica da política externa italiana estão longe de serem negligenciáveis. No seio da OTAN, a Itália terá voz importante no debate sobre a expansão do Tratado do Atlântico Norte ainda mais para o Leste, que tanto incomoda a Rússia. A Itália tradicionalmente adota um discurso moderado de apoio à extensão da Aliança, atenta à uma necessária acomodação com Moscou. Entretanto, a Itália sob Berlusconi pode posicionar-se mais assertivamente ao lado dos Estados Unidos ou da Rússia em relação à inclusão de Ucrânia e Geórgia do que seria esperado de uma Itália comandada por Romano Prodi. Resta saber como o novo governo irá conciliar seu desejo de aproximação política com os Estados Unidos com as relações intimistas estabelecidas entre o líder italiano e Putin. O resultado das eleições norte-americanas e suas futuras relações com o novo nome da Casa Branda definirão a opção italiana.

O papel desempenhado na OTAN e o grau de alinhamento com Washington passam necessariamente sobre as operações de tropas italianas no Afeganistão. O contingente de 3000 soldados italianos, enviado ao Iraque pós-ocupação ainda no segundo governo Berlusconi, foi retirado em novembro de 2006. As operações no Afeganistão envolvendo 2300 soldados são consideradas essenciais para o prestígio internacional italiano, apesar das duras críticas dos políticos da esquerda, que condenaram a decisão de Prodi de manter as tropas, uma das mais numerosas da missão. Com a preocupante situação no Afeganistão, definida durante a Cúpula de Bucareste, no início de abril, Berlusconi, a exemplo de seu contraparte francês, deve aumentar o envio de tropas para compor as forças de estabilização da OTAN.   

 

4.3.3 Dimensão Mediterrânea: a agenda na África e no Oriente Médio

Por fim, a dimensão mediterrânea da política externa é voltada para o Norte da África, onde a Itália mantém importantes investimentos, e para o Oriente Médio. Novamente a questão da imigração volta à tona, tema particularmente importante no Norte da Itália, onde em alguns estados como o Vêneto mais de 10% da população é composta de imigrantes. E imigrantes indocumentados na Itália podem esperar por tempos difíceis.

A partir dos anos 90, pode-se falar em um aumento da presença da Itália no continente africano, especialmente na região do Chifre da África, onde o país estabeleceu vínculos coloniais na Abissínia, correspondente a Eritréia, Etiópia e Somália. Esse maior engajamento ocorreu principalmente por meio do apoio a organizações regionais, que não dispunham dos recursos humanos e financeiros necessários para lidar com desafios africanos. De fato, tanto a Intergovernmental Authority on Development (IGAD) e a então chamada Organização da Unidade Africana (OAU) tiveram participação muito limitada na crise da Somália e no conflito entre Eritréia e Etiópia.

A atual política externa italiana no continente segue as mesmas diretrizes de apoio a organizações regionais, assim como o faz em geral toda Europa. Deve haver, na perspectiva italiana, uma forte correlação entre organismos internacionais e regionais. Sob o comando de Romano Prodi, a Itália criou mecanismos de apoio para as estratégias de peacekeeping da União Africana. Durante sua presidência na Comissão Européia, foi lançada a chamada European Peace Facility for Africa, que visa auxiliar a União Africana e outros organizações regionais do continente a enfrentar os reveses resultantes de conflitos.

Ainda que seja crescente a instabilidade nas fronteiras entre Sudão, Chade e República Centro-Africana, a atenção da comunidade internacional na região do Chifre da África está voltada principalmente para o Sudão. Além  das dificuldades presentes na implementação do Comprehensive Peace Agreement, acordo de paz assinado em  2005 que oficialmente encerra a Segunda Guerra Civil do país, há a questão da crise humanitária de Darfur, a qual causou milhares de mortes e milhões de migrações forçadas. A política externa italiana para a região baseia-se no apoio a organismos regionais ainda tênues. Dessa forma, sua participação não possui um caráter fundamentalmente ativo. Com a eleição de Berlusconi e a posterior nomeação de Frattini como chanceler, não seria descabido prever continuidade na política externa da Itália em questões africanas: Frattini, que possui um discurso de privilegiar o trabalho em grupo em detrimento do monopólio da liderança, certamente não buscará  políticas divergentes daquelas atualmente empregadas pela União Européia.

Sobre a questão palestina, a Itália também pode exercer um papel importante. O Hamas busca sua legitimação e apoio dos europeus para encetar negociações com o governo israelense; com a suspensão dos planos de dialogar com o grupo político palestino por parte do governo Sarkozy, italianos e noruegueses eram os mais propensos a facilitar esse debate. Agora, as tentativas norte-americanas e israelenses de isolar o grupo considerado terrorista deve encontrar eco em Roma, em contraste às manifestações de simpatia pronunciadas pelo chanceler D’allema e de outros políticos da esquerda, agora distantes do Palácio Chigi, onde o discurso pró-Israel é entoado por Berlusconi e Franco Frattini, que assume a chancelaria após representar a Itália como comissário europeu de justiça, liberdade e segurança. A simpatia pela causa palestina alentada pelo governo anterior definitivamente não terá espaço no atual. O primeiro-ministro eleito declarou que sua primeira visita internacional seria a Israel no sexagésimo aniversário do país considerado por ele a única democracia da região. Por fim, vale lembrar a robusta participação da Itália nas missão das Nações Unidas para monitoramento da situação no Líbano e as excelentes relações comerciais entre Itália e Irã. O discurso agressivo e abertamente preconceituoso em algumas ocasiões sobre os países e povos islâmicos são o prenúncio de relações complicadas da Itália com o mundo árabe.

 

4.3.4 Brasil – Itália: eppure tutto così uguale

Desde 2001, o sistema eleitoral da Itália garante aos cidadãos italianos residentes fora do país o direito de voto: doze assentos na Câmara dos Deputados e mais seis assentos no Senado são reservados especialmente a candidatos da circunscrição exterior. A comunidade italiana no Brasil, composta por 28 milhões de pessoas é considerada a maior comunidade fora da Itália, a despeito de seu potencial poder de voto, logrou apenas preencher uma das vagas destinadas à América Meridional. O sociólogo natural da Sicília, Fabio Porta, de 44 anos, que há dez anos vive no Brasil foi o único candidato residente no Brasil eleito, ao passo que as outras quatro vagas reservadas para a América Meridional foram preenchidas por candidatos residentes na Argentina, cuja comunidade italiana é composta por 15 milhões de pessoas.

O maior desafio do parlamentar eleito pelo Brasil será lidar com a demora no processo de obtenção da cidadania italiana. Para tanto, Fabio Porta pretende  negociar que a verba aprovada pelo parlamento italiano para os consulados da América do Sul chegue primeiramente ao Brasil, a fim de melhorar as condições estruturais dos consulados italianos – Consulados Gerais em São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, e Consulados em Belo Horizonte e Recife - e agilizar o longo processo de obtenção de cidadania. Além disso, o novo deputado pretende manter um escritório aberto à comunidade italiana no Brasil para não perder o contato com sua base eleitoral, adiantando-se às críticas feitas ao senador Edoardo Pollastri, eleito pela comunidade italiana no Brasil em 2006.  

Embora a agenda política envolvendo o Brasil seja secundária e as perspectivas de mudança nas relações bilaterais sejam pouco significativas, a despeito da percepção geral de que a Itália deverá dedicar maior atenção à América do Sul (circunscrição regional mais ativa no processo eleitoral de 2008), é possível vislumbrar a possibilidades de canais importantes de contato pelos mecanismos de governança. Em cúpula realizada ano passado em Heiligendamm, norte da Alemanha, os países do G-8 discutiram a possibilidade de reduzirem suas emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. Embora nenhum documento que estabelecesse prazos tenha sido aprovado, foram lançadas bases para a inclusão de China, Índia, México, África do Sul e Brasil em dito diálogo. A intenção do G-8 é negociar parcerias com esses países, por meio de cooperação técnica, por exemplo, à luz dos desafios econômicos e ambientais postos pelo aquecimento global. A França manifesta-se abertamente favorável à ampliação da mesa de debates em clara referência ao Brasil; a depender da orientação do novo governo italiano, o Brasil pode lograr mais um aliado na elevação de sua participação nos debates globais, muito embora em termos de expansão do Conselho de Segurança das Nações Unidas é certo que a oposição da Itália, membro do Coffee Club, será intransigente.

 

5. Conclusão: a articulação entre o doméstico e o internacional

O sucesso do novo governo recairá sobre sua capacidade de realizar mudanças socioeconômicas. A realização das mudanças almejadas pela população italiana, por sua  vez, apenas será possível caso haja um mínimo de estabilidade política, algo que não se vê há algum tempo no país. Se há, por um lado, a tendência de que o sistema político se tornará mais estável com a redução da quantidade de partidos pequenos, o que beneficia o novo governo de Berlusconi; por outro lado, há ainda a forte dependência do Primeiro-Ministro em relação à Liga do Norte, que já abandonou seu governo em 1994. Muitas das promessas eleitorais de Berlusconi para o sul chocam-se frontalmente com os anseios da Liga.

Os impactos internacionais também não se esgotam em três dimensões. A integração dos Bálcãs e as perspectivas turcas na União Européia são temas sobre os quais a Itália deverá emitir forte juízo. Cumpre lembrar a composição do comitê governamental Itália-China em 2004, como culminância de alentadoras trocas de visita oficiais de Wen Jiabao à Itália e do então presidente Azeglio Ciampi à China. Ademais, Itália e Bélgica compõem o Conselho de Segurança no mandato 2007-2008 e será possível testar o peso das dimensões européia, atlântica e mediterrânea da representação italiana. Em síntese, mesmo após a estrondosa vitória de Silvio Berlusconi, deve-se evitar o rotulamento do “euroceticismo” quando se fala em Itália. Ocorre que a política externa em suas dimensões européia e atlântica mantêm-se sem rupturas; o peso relativo dessas dimensões é que deve ser ponderado.

Nos últimos anos, nos quais houve alternância de poder, é possível identificar como as forças políticas italianas tendem a manejar o jogo das políticas interna e externa, distintas as inclinações dos governos de centro-esquerda e de centro-direita, sem comprometer o perfil histórico da atuação de Roma. Isso na medida em que se percebe que as mudanças internas são essenciais para a conquista dos interesses no plano internacional.

 

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[1] O presente artigo é resultado da conjunção, revisão e reformulação de análises de conjuntura dos dois autores sobre os impactos das eleições italianas, divulgadas no periódico Meridiano 47.

 

 

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