A cheap holiday in other peoples
misery!
I don't wanna holiday in the sun
I wanna go to the new Belsen
I wanna see some history
cos now I got a reasonable economy!
Now I got a reason
Now I got reason
And I'm still waiting
Now I got a reason
Now I got a reason
To be waiting
The Berlin wall
In surround sound in a two inch wall
I was waiting for the communist call
I didn't ask for sunshine and I got
World War three
I'm looking over the wall and they're
looking at me
They're staring all night and
They're staring all day
I had no reason to be here at all
But now I got a reason
It's no real reason and I'm waiting
At Berlin wall
I gotta go over the Berlin wall
I don't understand this bit at all
I don't understand it
Claustrophobia there's too much paranoia
There's too many closets I went in
before
And now I got a reason it's no real
reason
To be waiting !
The Berlin wall
I wanna go over the Berlin wall
I don't understand this bit at all
Cheap dialogue cheap essential scenery
I wanna go over the Berlin wall
Please don't be waiting for me
(The
Sex Pistols, “Holidays in the Sun”)
Os
oráculos de todos os matizes e pendores,
políticos e acadêmicos, costumam
vaticinar que cada geração – cada
pedaço da narrativa da vida moderna –
tem um nascedouro. Nascedouro este
manifesto por um evento irreproduzível,
um fechar de portas do pregresso e um
abrir de portas de sopetão, a seguir.
1968 seria um desses mitos fundadores,
marcaria uma dessas transições epocais,
como 1914 o teria sido antes. O mesmo –
arriscam os oráculos viscejantes –
poderia ser dito a respeito de 2001, marco
temporal ainda mais concentrado
simbolicamente naquela insuspeita
terça-feira de Setembro.
Quem
hoje vive, inspira e exala o ar da “guerra
contra o Terror” há de guardar vaga
lembrança de um período diverso – em
sua própria extensão, considerado uma
dessas transições epocais. 1989-1991. O
fim do breve século XX, o fim da Guerra
Fria, o fim dos anos 1980. Um rótulo que
evoca temporalidades e espacialidades
distintas, sedimentadas em profusão.
Uma
geração adiante, é de se pensar a
relevância de 1989-1991 como uma
transição. Não simplesmente à luz de
Osama Bin Laden e George W.Bush. O que
dizer da China? E o Líbano? E a Somália?
E o Brasil? Enfim. A “nova
ordem mundial” que teria se
principiado na queda do Muro de Berlim
parece ter findado na queda das Torres
Gêmeas [ii].
A
duração de 1989-1991 perdeu a sua
pré-determinação moderna, galopando
para além da pista de corridas do fim da
Guerra Fria [iii]. Isso não se associa
necessariamente ao refúgio numa
temporalidade pós-histórica, nem
tampouco no refúgio de um espaço
indevassado de utopia. Uma certa
ubiquidade sincrônica de certos
relacionamentos sociais – “globalização” – tem que se ver com diversos relacionamentos
sociais concentrados temporalmente e
espacialmente. O reverberar da
modernização profunda atinge o chão sob
o qual se funda a análise moderna – o
sujeito da história, associado à busca
de liberdade. O ser humano, a humanidade,
o indivíduo, a nação, o estado-nação,
a comunidade política – o rol de formas
modernas de subjetividade. 1989-1991 se
apresenta como uma invaginação, um
buraco negro, no seio da Modernidade. Um
mergulho no mistério.
1989-1991,
diferindo de 1968, não foi um instante,
um evento, uma epifania – persistindo
como um “durante”. Seus desafios não
permaneceram somente desafiadores, mas se
tornaram parte da operação cotidiana do
pensar e do fazer políticos. A relação
instrumental entre a Modernidade e seus
problemas políticos, uma relação
sujeito-objeto, não se manteve
inalterada, vez que o “durante” é
incorporado ao próprio processo moderno
de pensar e fazer, revelando, de soslaio,
uma característica moderna que já fora
objeto do interesse de Robert B.J. Walker.
Walker
[iv]
se pronuncia sobre consolidação da
identidade de um sujeito moderno, processo
que abarcaria, grosso modo, os últimos 5
séculos. Essa identidade seria tornada
possível por uma série de clivagens –
que se traduzem em fronteiras simbólicas
e materiais – entre o sujeito moderno, o
mundo e outros seres humanos, manifestas
numa determinada moldagem do tempo e do
espaço. O duplo descolamento do sujeito
moderno – em relação ao mundo e em
relação a outros seres humanos –
implica que o mundo e outros seres humanos
serão posteriormente “apropriados”
por este emergente sujeito moderno, que os
“adequará”
no espaço e no tempo. Nesse sentido, as
fronteiras, na Modernidade, não
desaparecem progressivamente, mas são
constitutivas da subjetividade moderna e
informam a relação entre essa
subjetividade e o restante da
“realidade”. A busca por segurança
ontológica pela Modernidade emergente se
traduz na fixação, no espaço e no
tempo, de sua identidade (como
“organizadora”, racional, da
realidade). Essa operação implica trazer
“para
dentro”, de forma seletiva e
controlada, do novo espaço e do novo
tempo modernos a Natureza pré-moderna e
tudo que for ditos não-moderno. Esse
movimento de “trazer
para dentro” é tornado possível
por uma clivagem simbólica pregressa, que
fixa a diferença como desigualdade e
instaura um processo de “desenvolvimento”,
qual seja, da “superação” temporal
da desigualdade.
Daí
o evento epocal que representa(ria) o fim
da Guerra Fria ser, no mais das vezes, uma
vaga lembrança, uma memória que perde
vivacidade pois que a vida é
externalizada e a “alteridade” da diferença “superada”
pela incorporação seletiva à
Modernidade dos “problemas” que se tornam condição de possibilade do próprio “ser
moderno”. 1989-1991 superficialmente
pertence a uma outra grande narrativa
moderna, de tótem passou a traço, negada
em sua ambiguidade como um evento
polarmente oposto ao 11/09/2001 – e do
traço torna-se tabu. A incorporação de
1989-1991 ao museu de grandes novidades [v]
da Modernidade não se despe de
ambiguidade, pois o translado do inusitado
para o espaço-tempo do exótico implica
um simbolismo prenhe de violência.
Implica apagar e reescrever subjetividades
e esvaziar de sentido os próprios eventos
associados a 1989-1991. Essa é uma das
estórias implicadas na narrativa
modernizante da “globalização”
– mas é preciso extrair a
“globalização” da narrativa moderna
para vislumbrar essa disjuntura, visto que
o ocultamento de arestas e incongruências
é tornado possível tratando
indiferenciadamente modernização e “globalização”.
A
temática da “globalização” nos traz à baila, ao invés de uma celebração
do “fim da história” ou de uma
ressaca do “fim da utopia socialista”
– ambas regadas a pantagruélicas doses
de Hegel
- ambiguidade. O que se seguiu, nas
planícies culturais [vi]
contemporâneas, poderia mais parecer uma
alternativa a ambas essas narrativas
monológicas, escatologias modernas. Isso
podemos depreender da obra de autores
colocados em diferentes confins do
pensamento social contemporâneo – como
Jan Aart Scholte, Robert Keohane &
Joseph Nye Jr., bem como Arjan Appadurai.
Scholte
[vii]
aborda a globalização partindo da
constatação da profundidade da
transnacionalização das relações
sociais na Modernidade tardia. Com a
ampliação do escopo das relações
sociais no espaço e tempo modernos, uma
pletora de possibilidades se coloca à
disposição da construção do
pertencimento moderno: processos de
diferenciação nacionais (a relevância
da questão nacional traz à tona, a
reboque, o estado soberano); o
fortalecimento de cosmopolitismos;
hibridismos (combinações e permutações
de identidades previamente existentes).
Scholte ainda se pronuncia sobre
identidades com base em gênero, classe,
confissão religiosa e “raça” como
manifestações de subjetividade
coletivas. Nesse sentido, a
Globalização, longe de equivaler a um
processo linearmente homogeneizante, é um
processo que complexifica a moldura da
identidade na Modernidade tardia; abarca
diversas fragmentações.
Desse
modo, Scholte considera que foram
afrouxados os elos entre o “espaço
social” privilegiado na Modernidade, o
território, e a estrutura de “being,
belonging and becoming” privilegiada
na Modernidade, a nação (o estado seria
o árbitro das identidades coletivas).
Como conseguinte temos nações sem
estados, micro-nacionalismos,
regionalismos, cosmopolitismos, bem como
identidades de gênero, de religião etc
se sobrepondo, se cruzando e desprezando
as fronteiras dos remanescentes (e nada
indica, segundo Scholte, que deixarão de
existir) estados-nações. Uma confusão
global é o resultado desse processo de
transnacionalização das relações
sociais.
Scholte
trabalha com agentes políticos cujas
subjetividades são tomadas como
anteriormente estáveis (pressupõe a
estabilidade relativa de uma subjetividade
moderna, autárquica, capaz de agir no
mundo ao passo que se auto-desvela), o
impacto da transplanetarização e
desterritorialização das relações
sociais nas identidades dos agentes
sociais é notável e abre portas para a
desestabilização e questionamento da
subjetividade moderna, mas como um
catalisador de novas identidades; como uma
renovada matriz identitária. A
incorporação de outras subjetividades à
ordem moderna via transnacionalização
das relações sociais é ambígua –
reafirma, por um lado, a esperança
moderna de realização de todas as formas
de subjetividade numa universalidade
abrangente, racional; por outro, abre
janelas de oportunidade para
fragmentação intensa.
Baseados
nos seus estudos pregressos sobre
interdependência complexa, anarquia
internacional e instituições
internacionais, Keohane e Nye Jr. [viii]
por seu turno associam a globalização a
dois fenômenos numa matriz
liberal-institucionalista. Por um lado, o
redimensionamento das redes de
interdependência no nível
multicontinental (entrada de novos agentes
nas interações). Por outro lado, um
aumento na interação entre redes de
interdependência distintas (maior número
de pontos de interseção). Ela coloca em
contato redes de interdependências as
mais diversas, que interagem e se
sobrepõe. Os efeitos dos relacionamentos
reverberariam por toda uma gama de redes
de interdependência, com seus respectivos
e diversos agentes, tornando a
“arquitetura” do internacional
globalizado crescentemente mais complexa
– pequenos eventos em um local podem ter
efeitos catalisadores, assim suas
conseqüências posteriores e em todo o
sistema são vastas. A conseqüência mais
imediata da Globalização é, desta
forma, a imprevisibilidade contemporânea.
Ambigüidade, tensão e insegurança são
características esperadas das
interações dos agentes internacionais.
Keohane e Nye Jr. apontam a globalização
como um mecanismo que fragmenta
identidades previamente consolidadas e
não assegura a consolidação dos “híbridos”
resultantes, ainda que um processo de
normatização esteja (em suas visão) em
curso no sistema internacional.
Appadurai
[ix],
por seu turno, debruça-se sobre o
relacionamento entre a “Teoria da Modernização” e a Modernização como fenômeno. A
primeira, caracterizada como quebra
radical das relações intersociais, como
ruptura profunda entre passado e presente,
se chocaria inevitavelmente com o problema
das “genealogias múltiplas” –
buscando sincronizar, partindo do
“Ocidente”, diferentes configurações
espaço-temporais mundo afora (e sofrendo
diferentes formas de oposição). Desta
empreitada (que abarca, grosso modo, os
últimos 500 anos da História humana)
resulta o cenário atual, o fenômeno da
Modernização hodierna - que poderíamos
dizer “globalização”:
uma Modernidade transbordante, com
irregular consciência de si, vivida de
forma fragmentada, em pulsante dinamismo.
No dizer do autor, “desbordada” – trespassando, superando, violando fronteiras
físicas e simbólicas. No caso, aquelas
referentes ao Estado-Nação, invólucro
moderno do “político”.
Appadurai
problematiza a dinâmica da Modernização
contemporânea partindo de dois vetores
que julga fundamentais. Por um lado, temos
os meios de comunicação de massa. Por
outro lado, os movimentos migratórios.
Justapostos, estes vetores ensejariam
instabilidade na produção das
subjetividades modernas, no tocante ao que
o autor julga ser o elemento central
destas – o chamado “trabalho da
imaginação” (a imaginação tornou-se
fundante no trabalho mental cotidiano de
todos, ponta-de-lança de projetos de
construção da existência – num
sentido coletivo, criando potencial para a
ação política). A justaposição
provocaria um cenário de “imagens em
movimento se encontrando com espectadores
desterritorializados” [x],
instigando o “trabalho
da imaginação” (imaginação de
uma nova vida, em outro lugar, outro
tempo), criando novos, insuspeitados elos
entre o “local”
e o “global”,
ampliando os conceitos de “lealdade”
e “partida” – enfim, dando
origens a “esferas
públicas de diáspora”, verdadeiras
“comunidades
imaginadas” [xi],
no interior e para além dos
Estados-Nação.
De
maneira análoga ao fenômeno da diáspora
(dispersão) judaica na Antiguidade,
Appadurai descreve os dias que correm
metaforizados como diversas “paisagens”
complexamente sobrepostas, nas quais
indivíduos e coletividades, por via da
força, voluntariamente ou impelidos por
catástrofes, “perdem sua pátria” e têm que reconstruir sua subjetividade (via
imaginação) alhures, no entrecruzamento
de fluxos diversos. O autor diferencia a
imaginação (prelúdio de expressão,
projeção, de caráter coletivo, que pode
ensejar a ação) da fantasia
(distanciamento de atos e projetos, de
caráter privado) para destacar o caráter
marcadamente político desta “condição
da subjetividade moderna” que questiona
o monopólio da “produção de significados” conferido tradicionalmente ao
Estado-Nação moderno: “A
mega-retórica da Modernização
desenvolvimentista do Estado-Nação se
encontra reelaborada, questionada e
domesticada pelas micro-narrativas do
cinema, televisão, música...” [xii].
Para
Appadurai, a Cultura não é útil como
conceito substancial, mas como uma
dimensão dos fenômenos, uma dimensão
que confere especial relevo àdiferença.
No seio de sua proposta, diferenças
culturais são relevantes quanto expressam
asbases para a formação e mobilização
das identidades de grupo – Cultura
como“subconjunto de diferenças que
foram selecionadas e mobilizadas com o
objetivo de articular as fronteiras da
diferença” [xiii]. Culturas são, pois,
artefatos simbólicos, articulações do
sentido no espaço e no tempo. Uma vez que
o espaço e o tempo tornam-se eles
próprios manipuláveis – a tradição
pode ser reapropriada, o passado de uns
pode ser o futuro de outros, o global pode
ser visto como um “novo
tempo”, a Modernidade como “um
novo espaço” – o “trabalho
da imaginação”, via mobilização
e manipulação da diferença (Cultura)
acaba por construir novos mundos sociais.
Daí o autor considera-lo pedra angular
para explicar a complexa Modernização de
nossos dias (globalização).
Aprofundando
sua proposta, Appadurai [xiv] aborda a transformação
da imaginação em commodity,
abordando a economia política da
identidade contemporânea. A
Globalização traria à baila a
construção coletiva, em regimes
espaço-temporais cada vez mais diversos,
de identidades transnacionais. Conjuntos
de fluxos – que Appadurai chama de
“paisagens” – simbólicos e
materiais se interpenetram, ensejando uma
cartografia da identidade irregular e
dinâmica (à semelhança da
sobreposição de identidades nem sempre
territoriais nem sempre nacionais de
Scholte). Um global plural, híbrido e
proteano é o corolário do processo de
transformação da imaginação em commodity.
Um exotismo global, no qual a memória de
alguns é tornada, anacronicamente, em
commodity identitária de muitos, é um
dos cenários oriundos do entrecruzamento
e sobreposição de “paisagens”.
Appadurai enseja uma associação
relevante entre a diferenciação e a
reprodução do capital: o capital rola
via preferências no que tange a produtos
bem como no que diz respeito a
subjetividades.
Para
Appadurai, é insuficiente a capacidade de
raciocínio abstrato e reflexivo para
prover o entrelaçamento de cadeias de
práticas e valores que denominamos “globalização” – é preciso fazer menção ao trabalho da
imaginação, do encadeamento de imagens,
como móvel da ação política, como
instrumento epistêmico, que provêm
fundações e condições de possibilidade
para o deslocamento dos agentes através
do espaço, num tempo cada vez mais
exíguo. O autor, portanto, postula que a
formação de um sistema mundial moderno
(colonial) implica a transformação da
imaginação em commodity, possibilitando
a produção intensiva de identidades na
periferia que não apenas se conformam a
serem esboço da identidade
euro-anglocêntrica; as questionam e
invertem os termos da relação
colonizadorcolonizado. Realizando
“alhures” e assincronicamente
processos identitários que os europeus e
anglo-saxões fizeram previamente, a
periferia mobiliza e manipula a memória
da Modernidade de formas antevistas,
colocando-se como um “novo-outro
Ocidente” que clama mais fidelidade
ao projeto moderno que seus próprios
predecessores – desestabilizando o
padrão identitário pregresso.
Autores
tão díspares, pois, parecem concordar
que a Modernidade apresenta uma estrutura
de identidades consolidada no espaço
(territorial) e no tempo (da história)
sobre a qual a Globalização atua como
desestabilizador. O que previamente era
previsível e relativamente “racional”
é tornado imprevisível e complexo, como
conseguinte. A Globalização é a
variável independente que leva à
modificação da estrutura das identidades
modernas.
Fragmentação
de identidades. Hibridismos. Menos que
duas novas narrativas, mais do que duas
novas versões de uma estória canônica.
Fragmentação se ergue de um todo
previamente constituído. Hibridismo traz
à baila pedaços distintos de totalidades
previamente distintas. Dois pertencimentos
nostálgicos, por carregarem a memória de
um passado suportamente unívoco. Uma
pluralidade de monólogos ou um grande
monólogo.
Ao
invés do fim da nostalgia –
celebração ou ressaca – nostalgia sem
fim. 1914 foi o fim da civilização. No
limbo que se seguiu, tivemos 1968,
emblematicamente o ano que nunca acabou.
Mas em 1989 todos ficamos subitamente
velhos e talvez, caquéticos. O tempo deu
um tempo. O espaço sumiu. E? Tudo de
novo.
Pois
que a fragmentação traz a casa abaixo
dançando seu tango com a reunificação,
no dizer de Derrida [xv].
O hibridismo assume fumaças de uma nova
univocacidade travestida, um arquétipo de
Vênus como bibelô [xvi],
coberta por pelagens de transformação,
renovação e quiçá transcendência “globalizadas”
[xvii]
- apenas o obscuro objeto de um desejo
monológico. O tempo, modernamente
configurado, é o mascaramento do corpo no
hibridismo; a nova unidade se revelaria
paulatinamente por detrás da androginia
processual. O espaço dá o tom na dança
da fragmentação, cedendo aos imperativos
de unificação, centralização,
sistematização, transformação do muito
em mônada. Essas paralelas modernas (se)
cruzam (no) durante 1989-1991. A
imaginação e a prática da vida se
tornaram sinônimos.
Desses
três retratos da sublimação [xviii]
da ontologia política de 1945
(supostamente, herdeira de 1914 e, quem
sabe, 1648), é Appadurai quem nos deixa
vislumbrar uma saída do falso dualismo
fragmentação-unificação,
problematizando a (teoria da)
modernização à medida que os esteios do
pós-Segunda Guerra se (con)fundiam com as
críticas internas ao projeto ilustrado
moderno associado a 1968. Hibridismo e
fragmentação como experiências
limitadas de transcriação – levando em
consideração o entrelaçamento entre
imaginação e prática políticas e
identidades políticas na Modernidade.
Constatação
oportuna pois que temos a concentração
simbólica da subjetividade política no
estado moderno – territorial e portador
de uma historicidade linear – como um
dos elementos centrais na trivialização
e tombamento de 1989-1991. O coroário em
termos de estatocentrismo militante – a
Guerra Fria – trouxe tintas trágicas ao
quadro do pós-Guerra Fria, embebidas em
tonéis de sangue e suor e lágrimas
humanos. Pois que círculos concêntricos
de segurança internacional foram
traduzidos como segurança ontológica
trans-temporal.
O
“equilíbrio da existência” da Guerra Fria foi tornado o ideal
regulador do discurso político.
“Equilíbrio” que é tão
profundamente produzido como ápice da
ordenação possível que seu fim não é
tomado como consequência de um conflito
aberto, mas, ouvimos, da implosão do lado
mais fraco. A ordem para pôr fim a toda
desordem, no dizer de John Gaddis,
implicou a resiliência de seu marco
institucional. Gaddis pode ter razão. Mas
para além da razão, a razão precisa ser
racional. E a razão da Guerra Fria só
seria razoável no pós-Guerra Fria se a
ontologia da imaginação e prática
políticas permanecesse inalterada.
E
foi a blindagem narrativa da
“implosão”, a consideração da
União Soviética como o proverbial “estado
falido” [xix],
o que ensejou a reafirmação da
estabilidade e da pujança simbólicas da
superpotência restante, os Estados
Unidos. A disseminação desse argumento
triunfalista (o triunfo da vontade
westfaliana) implicava logicamente a
incorporação do campo de batalha das
guerras quentes de procuração da Guerra
Fria – os “bárbaros”
imaturos políticos de América Latina,
África e Ásia, bem como do berço da “civilização”,
a União Européia.
Esta
última, ela própria posta na
encruzilhada da ambiguidade política,
surgida da competição predatória de
estados soberanos que, por que não, os
levou conjuntamente à “falência”,
criando o horizonte global de conflito (e
de tutelados) capaz de alçar a União
Soviética e os Estados Unidos ao Valhala
westfaliano. A União Européia oscila
simbolicamente entre o pré-Westfália (o
“neo-medievalismo”
de John Ruggie [xx]) e o discurso
apaixonadamente moderno de um Jurgen
Habermas e dos que buscam associá-la a um
empreendimento cosmopolita
pós-Westfália. Nesse sentido, o artefato
da imaginação e prática políticas
chamado “estado falido” ocupa um papel pivotal na “solução” da ambiguidade ontológica européia, fixando e nos
informando a fronteira entre “civilização”
capaz de transcender seus próprios
artefatos políticos e os “bárbaros”
que sequer lograram preencher a promessa
westfaliana [xxi].
Os
nomes que não aparecem nesse artigo são
as vítimas – latino-americanas,
asiáticas, africanas, leste-européias,
anônimas – dessa tradução da
ontologia da Guerra Fria como o horizonte
desejável do “político”. Vítimas da
reificação de fumaças de identidades
monológicas, sujeitos e objetos da
violência simbólica que se inscreve nos
corpos humanos num crescendo
à moda de Schmitt. São essas vítimas
sem nome que preenchem as entrelinhas da,
essa sim muitas vezes bárbara em suas
consequências, modernização profunda.
Mesmo em paroxismos monumentais como a
Organização das Nações Unidas (ONU)
incorporando o Khmer Vermelho no processo
de “reconstrução” do Camboja [xxii]
no olho do furacão de 1989-1991, o
silêncio das vítimas diz sem pressa: “presente”.
A exceção é a regra refundada.
Ao
passo que os estrategos
contemporâneos buscam “dar
uma chance à guerra”, reproduzindo
à moda de Gulliver [xxiii] o argumento da Guerra
Fria (e das guerras mundiais que a
construíram como possibilidade
política), o desafio de reformulação da
ontologia da subjetividade moderna – e
por conseguinte, do político moderno, sem
fugas para o espaço e/ou o tempo
modernos-tradicionais – só se reafirma
no “durante” de 1989-1991 que deita
raízes em nós, adiante. O desafio da
transcriação processual posto, retirado,
reposto e transposto por Mikhail Bakhtin,
ironicamente um egresso do elo
mais fraco da Guerra Fria, é algo
diverso da nostalgia [xxiv]:
“Eu
atinjo auto-consciência, eu me torno
eu-mesmo somente pelo meu auto-desvelar
para outro, através de outro, com o
auxílio de outro. Os atos mais
importantes, constitutivos da
auto-consciência, são determinados por
sua relação com outra consciência (um o
seu ). Isolando a si mesmo, apartando a si
mesmo dos outros, se fechando em si
mesmo...essas são razões básicas para a
perda do eu. Ocorre que toda experiência
interna ocorre na fronteira, se contrapõe
a outra, e sua essência reside nesse
intenso encontro. A própria existência
do homem (interna e externa) é uma
profunda comunicação. Ser significa Se
Comunicar. Ser significa ser para o outro,
e através do outro, ser para si mesmo. O
homem não tem território interno
soberano: ele é todo e sempre na
fronteira; olhando no interior de si
mesmo, ele olha nos olhos do outro ou
através dos olhos do outro...Não posso
fazer sem o outro; não posso me tornar o
que sou sem o outro. Preciso me encontrar
no outro, encontrando o outro em mim (em
mútuas reflexão e percepção)” [xxv].
Se
não quiser chamar isso de Modernidade,
chame a polícia. Do karma [xxvi]!
[i]
Editor de O DEBATEDOURO, doutorando
em/professor de Relações
Internacionais no IRI/PUC-Rio
[ii]
GAMA, Carlos Frederico PS. Depois
do Muro, antes das Torres 10 anos de
conjuntura internacional pós-Guerra
Fria (1991-2001).. O DEBATEDOURO, p.
06 - 08, 01 set. 2004
[iii]
Referência ao trabalho do historiador
conforme a acepção de Eric Hobsbawn.
Vide HOBSBAWN,
[iv]
WALKER, Robert B. J. ”The Double
Outsides of the Modern
International” 5th
International Conference on Diversity
in Organizations, Communities and
Nations. Beijing: C.a.N. 5th
International Conference on Diversity
in Organizations, Communities and
Nations, 2005.
[v]
Da canção de Cazuza, “O Tempo Não
Pára”
[vi]
APPADURAI,
Arjan. La Modernidad Desbordada:
Dimensiones Culturales de la
Globalización.
Buenos Aires, Fondo de Cultura
Economica, 2001.
[vii]
SCHOLTE, Jan Aart. Globalization: A
Critical Introduction. Basingstoke/New
York: Palgrave Macmillan, 2005 (Second
Edition)
[viii]
NYE
JR., Joseph S. & KEOHANE, Robert
O. “Introduction” in NYE JR.,
Joseph S. & DONAHUE, John D.
(editores). Governance in a
Globalizing World. Washington:
Brookings
Institution Press, 2000
[ix]
APPADURAI,
Arjan. Obra
citada.
[xiv]
APPADURAI,
Arjan. Disjuncture and Difference in
the Global Cultural Economy" in
DURHAM,
Meenakshi Gigi & KELLNER, Douglas
M. Media and Cultural Studies:
Keywords.
London: Blackwell, 2006
[xv]
Referência feita ao conceito de
“desconstrução. Vide DERRIDA,
Jacques. Of gramatology.
Baltimore: Johns Hopkins University
Press, 1976.
[xvi]
“Venus In Furs”, romance de Leopold
von Sacher-Masoch. Vide também
a canção do Velvet Underground de
mesmo nome.
[xvii]
BARTELSON,
Jens. 2000. Three Concepts of
Globalization. In: International
Sociology [Journal of the
International Sociological
Association], volume 15, número 2,
junho.
[xviii]
Paráfrase do adágio de Karl Marx
segundo o qual “tudo que é sólido
se desmancha no ar”. Em MARX, Karl
& ENGELS, Friederich. O Manifesto
do Partido Comunista. Lisboa, Ed.
Avante, 1997.
[xix]
Robert
H. Jackson, Quasi
States: Sovereignty, International
Relations, and the Third World .
Cambridge:
Press Syndicate of the University of
Cambridge, 1990
[xx]
RUGGIE, John. ”Territoriality and
beyond: problematizing modernity in
International Relations”,
International Organization 46(1):
139-174
[xxi]
Agradecimentos a Marta Moreno por
participar dessa reflexão sobre a UE;
em artigo a ser publicado sobre o tema
dos “estados falidos” ela
desenvolve em pormenores esse
argumento
[xxii]
SHADOWCROSS,
William. Deliver Us From Evil – Warlords and Peacekeepers in. a world of
endless conflict. Londres: Bloombury
Publishing Co, 2000
[xxiii]
WALKER, Robert B.J. The Territorial
State and the Theme of Gulliver,"
International Journal, 39:3, 1984,
529-552.
[xxiv]
MEARSHEIMER, John. "Why We Will
Soon Miss the Cold War," The
Atlantic, August 1990, pp.
35-50
[xxv]
BAKHTIN, Mikhail. "‘Toward a
Reworking of the Dostoevsky Book’
(1961)." Problems
of Dostoevsky’s Poetics,
"Appendix II." Ed. and
trans. Caryl Emerson. Theory and
History of Literature 8. 1976
(Russian). Minneapolis: University of
Minnesota Press, 1984. P.302
[xxvi]
Vide a canção do Radiohead, “Karma
Police”, feita sobre a base de
“Sexy Sadie” dos Beatles