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  ENSAIO

MODERNIDADE, BARBARIDADE

Por Carlos Frederico Gama

 

“Barba non facit philosophum”

(Plutarco)

 

Recentemente, assim nos falaram as agências internacionais de notícias: nos Estados Unidos, um homem decidiu deixar que sua barba crescesse até o dia em que o terrorista Osama Bin Laden fosse capturado. Ao que consta, a referida barba já superara a casa dos 30 centímetros. Fiz os cálculos: tornou-se, inclusive, comparável à do próprio Osama.

Desta constatação, nos é trazida à baila uma eloqüente demonstração de como opera a Modernidade. A Modernidade – recursiva, refratária à fixação. A Modernidade que opera como um movimento de geometria fractal [1].

A fixação de significados é um jogo especular, no dialeto da Modernidade. Opor-se absolutamente, resolutamente a Bin Laden, é tornar a si próprio Bin Laden. Esse dilema posto pela Modernidade tem sido visto através do espaço afegão e iraquiano. As papoulas do Taleban já viscejam novamente nos arredores de Cabul. A “exportação da democracia” parece um objetivo cada vez mais tênue, para lá de Bagdá. Enquanto isso, a tortura é legalizada na capital que homenageia George Washington, a mesma da nação que absorve boa parte da heroína afegã.

  Para escapar a esse corolário da fixidez, a Modernidade nos ensina a fingir, analogamente, casuísticamente.  O “como se” é fundamental à dinâmica da Modernidade – ele provem fungibilidade. Saddam Hussein era “our son of a bitch”; se tornou “uma ameaça para o mundo”. Osama Bin Laden era “nosso homem em Cabul”; se tornou “o inimigo da civilização”. Amanhã, não se sabe. A Modernidade é não-saber por antecipação, é conjurar sentidos na véspera dos acontecimentos.

  O jogo especular moderno conduz ao isomorfismo. Isomorfismo das práticas e valores políticos (vide as eleições no cada vez mais moderno Brasil). Isomorfismo das formas políticas, os Estados-Nação cada vez mais idênticos entre si (perguntaria Martha Finnemore, por que haveria de constituir Palau um ministério de ciência e tecnologia?). Comunistas, capitalistas, seculares, fundamentalistas. Os Estados-Nação se encontram no cada vez mais finito horizonte da tensão mutuamente estruturada. A competição conduz não à emancipação ou à liberdade das entidades individualizadas, mas a uma matriz individualizante, um standart perenemente renovado à luz das confrontações ad hoc.

Saddam e Osama também sabem disso, como bons modernos. Sabem alternar o papel de vítimas e algozes. Osama, vivo ou morto, morto-vivo, está dentro de nós, assim como estamos dentro dele. As renovadas combinações dos complexos “amigo-inimigo”, “universal-particular”, “verdadeiro-falso” encontram em Osama um lugar privilegiado, privilegiadamente moderno. Um lugar de mútua constituição – uma fronteira móvel. Ou estamos com ele, ou estamos com Bush. Mas a fronteira entre Bush(es) e Osama é ela própria volúvel. Esse jogo especular, recursivo, induz a uma espiral uníssona – as mortes no Afeganistão e no Iraque decuplicando as vítimas do World Trade Center. Abu Ghraib (e Guantánamo) se instauram em Washington, ao abrigo da legislação. É a normatização da exceção, diria Giorgio Agamben. Moderno, demasiado moderno.

Penso na barba crescente, moldada à imagem e semelhança de Osama, do cidadão norte-americano que anseia por sua captura. A captura em questão se refere a Osama ou à barba? A captura é a fixação do sentido. Osama, a égide do mal, para um “everyman” norte-americano. Há 20 anos, não seria assim. Today it's no trick to play American rock & roll in an authentic American style”, ao contrário de 1950, afirma um crítico musical [2]. Qual autenticidade podemos esperar de um conjunto de práticas sociais que se projetam espaço e tempo adentro, recursivamente, replicando?

Assim como o Capitalismo induz preferências, a Modernidade induz identidades. Querer permanecer resolutamente idêntico a si mesmo, diria Anthony Giddens, é o telos-anátema moderno, desejo inatingível. A segurança ontológica é impossível ao ser-em-movimento. O equilíbrio de poder, pois, é a eterna profanação da expectativa pré-moderna, da religação com o transcendente, da adequação na Grande Cadeia da Existência. A liberdade é fugidia nessa nova cadeia de acontecimentos, a busca por segurança individuada culminando no movimento incessante de reconstituição de si próprio à luz da competição. Para que a dança das cadeiras funcione, todos querem ser livres; ninguém, que os demais sejam. Na Modernidade, o que suscita terror não é o imprevisível, é o absolutamente previsível. Bin Laden é um anteparo contra esse “temor cartesiano” da antidiluviana fixidez (gêmeo do temor da anarquia absoluta, supostamente pós-moderna).

A Modernidade é fractal, pois acumula e projeta miniaturas de si mesma. É a reprodução logocêntrica de identidades previamente constituídas – a interação social, mera alternância de identidades previamente constituídas, alternância de “lugares” num discurso pregresso. O discurso da impossibilidade de fixação do sentido. Impossibilidade de um eu transcendental. Seja de estados, indivíduos, civilizações, ideologias, escatologias. A autenticidade é uma produção, arte-fato.Ser Moderno é fingir e ser fingido. É a Física de Isaac Newton, sem Deus.

Novamente, falam as agências internacionais de notícias. Na Argentina, um homem foi preso num restaurante. Era fisicamente muito parecido com Osama Bin Laden. O Funcionalismo já não morreu, apenas ficou com um cheiro estranho. A forma continua a seguir a função. A Modernidade é epistemologicamente imagética, recursiva, dinâmica. Nas barbas de Osama.

  Pelo sim pelo não, vou logo afeitar a minha.



[1] http://en.wikipedia.org/wiki/Fractal

[2] http://www.allmusic.com/cg/amg.dll?p=amg&sql=10:an7tk60xekrw

 

® O Debatedouro - ISSN 1678 6637

 

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