“Barba
non facit philosophum”
(Plutarco)
Recentemente,
assim nos falaram as agências internacionais de notícias:
nos Estados Unidos, um homem decidiu deixar que sua
barba crescesse até o dia em que o terrorista Osama
Bin Laden fosse capturado. Ao que consta, a referida
barba já superara a casa dos 30 centímetros. Fiz os
cálculos: tornou-se, inclusive, comparável à do próprio
Osama.
Desta
constatação, nos é trazida à baila uma eloqüente
demonstração de como opera a Modernidade. A
Modernidade – recursiva, refratária à fixação. A
Modernidade que opera como um movimento de geometria
fractal .
A
fixação de significados é um jogo especular, no
dialeto da Modernidade. Opor-se absolutamente,
resolutamente a Bin Laden, é tornar a si próprio Bin
Laden. Esse dilema posto pela Modernidade tem sido
visto através do espaço afegão e iraquiano. As
papoulas do Taleban já viscejam novamente nos
arredores de Cabul. A “exportação da democracia”
parece um objetivo cada vez mais tênue, para lá de
Bagdá. Enquanto isso, a tortura é legalizada na
capital que homenageia George Washington, a mesma da
nação que absorve boa parte da heroína afegã.
Para
escapar a esse corolário da fixidez, a Modernidade
nos ensina a fingir, analogamente, casuísticamente.
O “como se” é fundamental à dinâmica da
Modernidade – ele provem fungibilidade. Saddam
Hussein era “our son of a bitch”; se tornou
“uma ameaça para o mundo”. Osama Bin Laden era
“nosso homem em Cabul”; se tornou “o inimigo da
civilização”. Amanhã, não se sabe. A Modernidade
é não-saber por antecipação, é conjurar sentidos
na véspera dos acontecimentos.
O
jogo especular moderno conduz ao isomorfismo.
Isomorfismo das práticas e valores políticos (vide
as eleições no cada vez mais moderno Brasil).
Isomorfismo das formas políticas, os Estados-Nação
cada vez mais idênticos entre si (perguntaria Martha
Finnemore, por que haveria de constituir Palau um
ministério de ciência e tecnologia?). Comunistas,
capitalistas, seculares, fundamentalistas. Os
Estados-Nação se encontram no cada vez mais finito
horizonte da tensão mutuamente estruturada. A competição
conduz não à emancipação ou à liberdade das
entidades individualizadas, mas a uma matriz
individualizante, um standart perenemente renovado
à luz das confrontações ad hoc.
Saddam
e Osama também sabem disso, como bons modernos. Sabem
alternar o papel de vítimas e algozes. Osama, vivo ou
morto, morto-vivo, está dentro de nós, assim como
estamos dentro dele. As renovadas combinações dos
complexos “amigo-inimigo”,
“universal-particular”, “verdadeiro-falso”
encontram em Osama um lugar privilegiado,
privilegiadamente moderno. Um lugar de mútua
constituição – uma fronteira móvel. Ou estamos
com ele, ou estamos com Bush. Mas a fronteira entre
Bush(es) e Osama é ela própria volúvel. Esse jogo
especular, recursivo, induz a uma espiral uníssona
– as mortes no Afeganistão e no Iraque decuplicando
as vítimas do World Trade Center. Abu Ghraib (e Guantánamo)
se instauram em Washington, ao abrigo da legislação.
É a normatização da exceção, diria Giorgio
Agamben. Moderno, demasiado moderno.
Penso
na barba crescente, moldada à imagem e semelhança de
Osama, do cidadão norte-americano que anseia por sua
captura. A captura em questão se refere a Osama ou à
barba? A captura é a fixação do sentido. Osama, a
égide do mal, para um “everyman”
norte-americano. Há 20 anos, não seria assim. “Today
it's no trick to play American rock & roll in an
authentic American style”, ao contrário de
1950, afirma um crítico musical .
Qual
autenticidade podemos esperar de um conjunto de práticas
sociais que se projetam espaço e tempo adentro,
recursivamente, replicando?
Assim
como o Capitalismo induz preferências, a Modernidade
induz identidades. Querer permanecer resolutamente idêntico
a si mesmo, diria Anthony Giddens, é o telos-anátema
moderno, desejo inatingível. A
segurança ontológica é impossível ao
ser-em-movimento. O equilíbrio de poder, pois, é a
eterna profanação da expectativa pré-moderna, da religação
com o transcendente, da adequação na Grande Cadeia
da Existência. A liberdade é fugidia nessa nova
cadeia de acontecimentos, a busca por segurança
individuada culminando no movimento incessante de
reconstituição de si próprio à luz da competição.
Para que a dança das cadeiras funcione, todos querem
ser livres; ninguém, que os demais sejam. Na
Modernidade, o que suscita terror não é o imprevisível,
é o absolutamente previsível. Bin Laden é um
anteparo contra esse “temor cartesiano” da
antidiluviana fixidez (gêmeo do temor da anarquia
absoluta, supostamente pós-moderna).
A
Modernidade é fractal, pois acumula e projeta
miniaturas de si mesma. É a reprodução logocêntrica
de identidades previamente constituídas – a interação
social, mera alternância de identidades previamente
constituídas, alternância de “lugares” num
discurso pregresso. O discurso da impossibilidade de
fixação do sentido. Impossibilidade de um eu
transcendental. Seja de estados, indivíduos, civilizações,
ideologias, escatologias. A autenticidade é uma produção,
arte-fato.Ser Moderno é fingir e ser fingido.
É a Física de Isaac Newton, sem Deus.
Novamente,
falam as agências internacionais de notícias. Na
Argentina, um homem foi preso num restaurante. Era
fisicamente muito parecido com Osama Bin Laden. O
Funcionalismo já não morreu, apenas ficou com um
cheiro estranho. A forma continua a seguir a função.
A Modernidade é epistemologicamente imagética,
recursiva, dinâmica. Nas barbas de Osama.
Pelo
sim pelo não, vou logo afeitar a minha.