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ARTIGO

Excepcionalismo e religião nos Estados Unidos da América

Por Lucas Grassi Freire 

 

O papel do cristianismo na constituição das relações internacionais contemporâneas tem sido sistematicamente negligenciado no debate atual. O artigo de Carlos da Fonseca (2007) propõe uma contribuição importante para essa discussão ao relacionar as diretrizes da política externa norte-americana com a idéia do excepcionalismo informada por pressupostos religiosos, mas a relação talvez não seja tão linear como Fonseca propõe. Segundo o autor, a constituição da política externa norte-americana pode ser compreendida em termos dos pressupostos religiosos por trás da idéia do “país com uma missão” (Fonseca, 2007:156). A crença de que um país cristão deveria se erguer sobre fundamentos bíblicos – uma “cidade na colina” baseada no “pacto com Deus” – teria, através da mistura de sua variante pós-milenista com a busca pelo progresso proposta pelo projeto iluminista, servido de “determinante da identidade nacional norte-americana tal como expressa em política externa” (Fonseca, 2007:156).

O tratamento de formulações teológicas específicas como mitos no texto de Fonseca talvez seja o responsável pela ênfase na constituição da identidade norte-americana em detrimento do desenvolvimento dessas formulações ao longo dos séculos. O autor observa bem que o pós-milenismo possui uma expectativa histórica otimista e que isso em tese estimula ativismo em busca do progresso. Contudo, há alguns pontos que devem ser notados no intuito de se evitarem certas imprecisões na interpretação do pensamento teológico que teria levado à identidade excepcionalista dos Estados Unidos.

Em primeiro lugar, é preciso notar que a maior influência da teologia pós-milenista no ativismo político norte-americano ocorreu décadas antes do “grande avivamento”, e não durante ou depois, como propõe Fonseca. É de extrema relevância o fato de que a teologia prática puritana nos Estados Unidos sofreu uma profunda modificação devido às tentativas mal-sucedidas de aplicações políticas durante o século XVII na Nova Inglaterra. Devido ao insucesso das políticas econômicas supostamente designadas com base nos princípios gerais da “cidade na colina”, os puritanos da Nova Inglaterra revisaram de maneira significativa a sua tese a respeito da expectativa otimista na história. O progresso haveria de ser observado em termos do crescimento do evangelho no mundo. As bênçãos da aplicação do “pacto com Deus” passaram a ser vistas como bênçãos primariamente espirituais, tanto no plano individual, como no plano do crescimento da igreja sobre a face da terra. O pós-milenismo puro se transformou, assim, em uma variante “pietista” que alterou completamente a relação entre os pressupostos religiosos e o ativismo político. A política passou a ser encarada no século XVIII como uma esfera muito mais separada da religião do que nos anos anteriores (Cf. North, 1988). Jonathan Edwards se encaixa nesse quadro como um dos maiores expoentes do pós-milenismo “pietista” (North, 1990:238-247; Sproul, 2000:237).

A segunda observação que deve ser feita é que o ativismo político orientado por uma visão otimista a respeito da história passou, em pouco tempo, a ser adotado pelos chamados “cristãos progressistas”. Desde o aumento da influência do liberalismo teológico (Cf. Bultmann, 1934) sobre as principais denominações protestantes nos Estados Unidos durante o século XIX até boa parte do século XX, o ativismo político cristão naquele país foi exercido por grupos que cada vez menos acreditavam na inerrância da bíblia e na relevância espiritual do cristianismo. É nesse contexto que emerge Woodrow Wilson com o emprego do mesmo vocabulário – “pacto” – na proposta de um novo ordenamento internacional após a Primeira Guerra Mundial. O termo, por sinal, foi adotado e a sua relação com os pressupostos religiosos de Wilson já foi notada por historiadores que se dedicaram ao estudo da Liga das Nações (Armstrong, Lloyd, Redmond, 2004:16-36). A característica marcante do ativismo político cristão progressista nessa época sua orientação por uma teologia liberal que evitava atribuir autoridade absoluta à bíblia mas que enfatizava, por outro lado, que o valor do cristianismo residia nas suas premissas éticas.

Em terceiro lugar, observa-se em paralelo que os cristãos teologicamente conservadores passaram a adotar uma visão pessimista em relação à história, influenciados principalmente pelo contexto subseqüente à Primeira Guerra Mundial. Durante esse período, houve grande propagação das idéias pré-milenistas pelas denominações mais conservadoras. Na Europa, o ativismo cristão conservador ou semi-conservador foi marcado por uma mentalidade de martírio e de resistência aos males da época (Cf. Wight, 1936). Além disso, um tipo particular de pré-milenismo foi amplamente difundido nos Estados Unidos: o dispensacionalismo que, além de adotar uma visão pessimista da história, também enfatiza o papel profético de Israel. No meio do século XX, com a Segunda Guerra Mundial, a criação do Estado de Israel e o ambiente político da guerra fria, interpretações pré-milenistas e dispensacionalistas encontraram terreno fértil para toda a sorte de divulgação, desde especulações diversas a respeito da parousia até o surgimento de novos grupos evangélicos nos Estados Unidos.

O quarto fator a ser notado é a enorme distância entre a teologia de Calvino e dos puritanos em geral – que não é analisada com detalhe no texto de Fonseca – e a teologia desses novos grupos fundamentalistas. Embora ambos reivindiquem um certo conservadorismo teológico, compartilhando, especialmente, a crença na inerrância da bíblia e na sua utilidade prática em diversos aspectos da vida do cristão, inclusive na política, o fundamentalismo contemporâneo se distingüe do puritanismo de maneira profunda, a começar pela doutrina de salvação. E, no que tange à relação entre formulação teológica e ativismo político, o fundamentalismo é marcadamente ambíguo. A interpretação dispensacionalista das profecias bíblicas adotada pelo fundamentalismo aponta para uma degeneração de toda a sociedade e da própria igreja antes que o mundo acabe. Embora uma parte considerável das igrejas fundamentalistas busque coerência prática através de um recolhimento a uma espécie de ascetismo (“a igreja em espera”), o que se chama de “direita cristã” é, na verdade, marcada por um ativismo extremamente ambíguo na pressão por reforma social através de políticas e de propostas legislativas específicas e, no caso da política externa, por uma atitude mais compatível com sua interpretação dispensacionalista através do apoio a Israel (North, 1990:71-95).

Essas ambigüidades dos principais grupos cristãos de pressão relacionados à política externa norte-americana hodierna merecem análise mais detalhada e a literatura disponível em português ainda não abordou o tema de forma mais detida. Fonseca, contudo, enfatizou a constituição da identidade dos Estados Unidos no longo prazo e sugeriu uma ponte entre a identidade cristã puritana e a constituição de um tipo específico de política externa. Uma análise mais detida do desenvolvimento histórico desses pressupostos e de seu relacionamento com a política sugere, contudo, que a ligação entre uma coisa e outra é menos direta do que a proposta. Os grupos dominantes da “direita cristã”, teologicamente, são arminianos (e não predominantemente calvinistas, como os puritanos), pré-milenistas / pessimistas (e não predominantemente pós-milenistas / otimistas, como os puritanos), dispensacionalistas (e não predominantemente favoráveis à idéia de uma unidade maior entra Antigo e Novo Testamentos, como os puritanos). A conexão entre o puritanismo e o ativismo puritano na política e o engajamento evangélico atual nos Estados Unidos, na verdade, é praticamente inexistente. Afirmar o contrário disso será sempre fazer vista grossa para um elemento muito importante na discussão – a identidade teológica de cada um desses grupos.

 

Referências:

ARMSTRONG, David; LLOYD, Lorna; REDMOND, John. International Organisation in World Politics. 3.ed. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2004. 280p.

BULTMANN, R. Jesus and the Word. New York: Charles Scribner's Sons, 1934.

FONSECA, Carlos da. “‘Deus Está do Nosso Lado’: Excepcionalismo e Religião nos EUA”, Contexto Internacional, v.29, n.1, jan/jun 2007, p.149-185.

NORTH, Gary. Millennialism and Social Theory. Tyler: Institute for Christian Economics, 1990. 393p.

NORTH, Gary. Puritan Economic Experiments. Tyler: Institute for Christian Economics, 1988. 65p.

SPROUL, R.C. The Last Days According to Jesus. Grand Rapids: Baker Books, 2000. 256p.

WIGHT, Martin. “Cristian Pacifism”, Theology, n.33, 1936, p.12-21.

 

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