A
Nova Ordem Mundial é caracterizada por uma composição
múltipla de atores que se unem aos governos
nacionais. Sua formação se deve ao aprofundamento da
globalização que intensificou a internacionalização
política, econômica e cultural dos Estados.
A
construção de novas fronteiras nacionais, a emergência
de novos atores internacionais e a formação de uma
agenda comum a todos os países são algumas das
características da formação desse novo sistema
internacional, sendo agora melhor definido pela formação
de uma Sociedade Internacional representada por atores
que possuem interesses e normas institucionais em
comum.
Ainda
referindo à diluição dos espaços nacionais e
internacionais, James Rosenau analisa a formação do
que seria chamado por ele de novo espaço político. O
espaço denominado Fronteira
está envolvido em múltiplas contradições como
as modificações quanto ao que se delimita assuntos
externos e internos e no que se refere à soberania
Estatal. A
formação de uma nova Fronteira se relaciona com a
capacidade dos Estados de absorverem e se adaptarem às
mudanças considerando a formação de um novo fenômeno.
A compreensão da realidade internacional está
diretamente relacionada com esta nova Fronteira que
vem a representar um novo e amplo espaço político,
um espaço onde o mundo internacional se revela.
(…)
a worldview should recast the relevance of
territoriality, highlight the porosity of boundaries,
treat the temporal dimensions of governance as no less
significant than the spatial dimensions, recognize
that networking organizations have become as important
as hierarchical ones, and posit shifts of authority to
subnational, transnational, and nongovernmental levels
as normal.[1]
O
processo de globalização que influencia de forma
substancial as modificações na ordem mundial pode
ser entendido como “a intensificação de relações
sociais mundiais que unem localidades distantes de tal
modo que os acontecimentos locais são condicionados
por eventos que acontecem a muitas milhas de distância
e vice versa”.
Os
Estados tiveram seus papéis e suas funções
reavaliadas de acordo com a dinâmica que se
desenvolveu com a intensificação do processo de
globalização, sendo que a ordem mundial passa a ser
definida como uma ordem internacional globalizada, nas
palavras de Ian Clark.
Globalization
is presented as a claim about the degree of
interconnectedness between states, such that the
significance of borders, and the reality of separate
national actors, is called seriously into question.
(...). These lead us to think in terms, not of the
demise or retreat of the state, but about its changing
functionality: states still exist but do different
things, do some things less well than they used to,
but also have taken on new responsibilities in
exchange[4].
A
análise da chamada interdependência
complexa entre os Estados nacionais, desenvolvido
por Robert Keohane, contribui para a compreensão do
que se entende atualmente de sociedade internacional
bem como da ênfase dada à cooperação entre os
Estados. Segundo Keohane, para que fosse possível a
sobrevivência dos Estados fez-se necessária a formação
de uma agenda internacional comum a todos e de
mecanismos conjuntos de atuação internacional cujo
objetivo é manter o diálogo e a cooperação entre
as mais diversas unidades políticas.
À
medida que os Estados tornaram-se parte do sistema
global, os padrões de interdependência se
intensificaram e os problemas passaram a ser
discutidos em âmbito global. A reconfiguração das
relações internacionais com a emergência de atores
regionais - dentre eles os governos locais, se fez
necessária, pois as dificuldades geraram novas
demandas e o enfrentamento destes problemas bem como a
resposta às novas necessidades não mais poderia
partir de um único centro de poder.
The
synthesized word ‘fragmentation’ serves to suggest
the simultaneity and interaction of the fragmenting
and integrating dynamics that are giving rise to new
spheres of authority and transforming the old spheres.
It is also a label that suggests the absence of
clear-cut distinctions between domestic and foreign
affairs, that local problems can become transnational
in scope even as global challenges can have
repercussions for neighborhoods. In effect, the label
tends to highlight the large extend to which the
global system is so disaggregated that it lacks
overall patterns and, instead, is marked bay various
structures of systemic cooperation and subsystemic
conflict in different regions, countries, and issues
areas.[5]
Os
fenômenos decorrentes do período posterior à guerra
fria possibilitaram novos mecanismos de cooperação
internacional como também a emergência de novos
atores que passaram a atuar de forma significativa nas
relações internacionais. As fragilidades verificadas
no Estado Nacional tiveram como uma das principais
conseqüências o processo de descentralização do
poder, no qual o estado passou a dar um novo “empoderamento”
a atores e comunidades que antes dependiam
exclusivamente do poder central para a realização de
seus objetivos e resolução de seus problemas.
O
presente estudo tem por objetivo, principalmente,
analisar a emergência de novos atores internacionais,
em especial os governos locais, nas relações
internacionais, bem como das contribuições destes
atores para a formação de uma sociedade
internacional que priorize o fortalecimento da cooperação
entre os mais diversos setores da sociedade, como
alternativa viável para os problemas advindos da
globalização. É importante num primeiro momento
delinear as contribuições dos recentes debates
interparadigmáticos realizados pela disciplina das
relações internacionais para a compreensão das
modificações ocorridas especialmente a partir dos
anos 80.
Faz-se
importante destacar as contribuições da teoria crítica
para este estudo. A Teoria Crítica considera questões
que eram consideradas secundárias pelas teorias
tradicionais, “incluindo questões como o problema
da mudança nas relações internacionais; os temas da
hegemonia, da emancipação e da desigualdade; a
centralidade do Estado como ator; o meio ambiente; as
questões culturais; a integração das estruturas
econômicas na reflexão sobre a política mundial; a
ausência de uma dimensão ética na reflexão da área;
o conceito de sociedade civil global, entre outras”.
Os
representantes da Teoria Crítica tais como, Robert
Cox, apresentam uma nova maneira de analisar as relações
internacionais na medida em que aceitam a emergência
de novos atores e processos que vêm a dividir uma
atuação internacional com os Estados Nacionais.
Nesta perspectiva, os Estados continuam tendo relevância,
mas o que passa a definir seu comportamento é a sua
relação com a sociedade civil.
Uma
contribuição importante a ser destacada por esta
teoria está na formulação de um modelo que busca
uma reflexão sobre o Estado e a formação de ideal
cosmopolita de sociedade pensando na formação de uma
comunidade mais ampla que ultrapasse os limites do
Estado-Nação.
A
construção de novas articulações entre a sociedade
internacional e o Estado não viria a prejudicá-lo ou
a diluí-lo. Deve-se repensar o Estado Nação sob a
ótica de um processo descentralizador de competências
que possibilite a atuação de novos atores
internacionais para uma maior legitimidade do processo
democrático, com uma participação ampliada de
agentes.
Neste
contexto torna-se possível compreender a atuação
complementar das unidades subnacionais, dentre elas os
governos locais, nas relações internacionais. O
termo paradiplomacia
foi cunhado para caracterizar a atuação das unidades
subnacionais nas relações internacionais
Embora utilizada desde os anos 1980, de forma casual, a
expressão foi trazida ao centro do debate acadêmico
pelo basco Panayotis Soldatos para designar a
atividade diplomática desenvolvida entre entidades
políticas não-centrais situadas em diferentes
Estados.[...] Uma definição extensiva do termo
paradiplomacia, que adotamos no presente texto, é
dada por Noé Cornago, a saber, ‘o engajamento de
governos não-centrais nas relações internacionais
mediante o estabelecimento de contatos permanentes ou ad doc com entidades estrangeiras públicas ou privadas, com o fim
de promover questões socioeconômicas e culturais,
assim como qualquer outra dimensão externa de suas
competências constitucionais’. (Lessa, Op. Cit. P.
08).[8]
A
atuação paradiplomática dos governos locais é
entendida neste estudo como um papel complementar ao
governo central. As articulações destes atores no
cenário internacional têm por objetivo a realização
de projetos que busquem solucionar problemas regionais
específicos, através da cooperação
horizontalizada, fortalecendo a autonomia política
das regiões sem que se prejudique o Estado Nacional
em sua soberania e também em seus princípios de política
exterior.
(...)
é preciso admitir que a paradiplomacia resulta de uma
conjugação de fatores estruturais: a chamada
‘crise do Estado’, o processo mundial de globalização
e o atual momento brasileiro de consolidação democrática
e busca de fortalecimento do federalismo. Em outras
palavras, afigura-se como o efeito visível de um
movimento para ocupar um espaço negociador não
preenchido pelos governos centrais, seja em razão dos
limites físicos de seus aparelhos burocráticos, seja
em função das especificidades dos interesses
regionais e locais. Este seria um ganho real de espaço
e de poder obtido pelos governos não-centrais no
palco das relações internacionais e que encontra um
princípio legitimador na busca por formas mais democráticas
de encarar a autonomia de ação desses governos.(
Lessa, Vicente. op. cit, pp. 104)
Ainda
que existam limitações jurídicas aos governos
locais quanto à realização de acordos
internacionais e quanto à falta de institucionalização
de mecanismos de cooperação, “a globalização,
como fenômeno de transformação de nossa realidade,
contribui para dar uma maior autonomia às unidades
subnacionais”,
possibilitando a formação de espaço para a condução
de ações exteriores por parte das localidades.
Vista
a relevância que as unidades subnacionais estão
adquirindo no tocante à presença internacional, no
caso brasileiro podemos preliminarmente afirmar que
elas podem ser vistas como novos atores. Ainda que não
tenham autonomia para negociar, assinar acordos ou se
fazer representar; tais funções se mantêm como
atributos específicos do Estado nacional. Assim,
Estados e municípios permanecem não sendo sujeitos
do direito internacional público. Apesar disso, de
facto, não de
jure, participam de modalidades de cooperação
internacional, estabelecem ou buscam acordos de cunho
econômico e cultural, de modo formal ou informal.[10]
É
de fundamental importância, portanto, compreender que
o fenômeno da globalização teve impactos consideráveis
em todos os níveis das nações, dentre eles as regiões,
afetando a hierarquia das cidades que passaram a
assumir novas funções projetando-se também no cenário
internacional.
A
inserção dos governos locais nas relações
internacionais é decorrente da maior articulação
entre os diversos atores da comunidade internacional
que através da flexibilização das fronteiras e da
crescente interdependência dos Estados se viram
diante de dificuldades, problemas e oportunidades que
somente poderiam ser enfrentadas através de uma
intervenção em âmbito global dos governos
subnacionais, a partir da descentralização de competências.
(...)
mientras que buena parte de las relaciones
internacionales se reestataliza –porque son los
Estados los que negocian acuerdos y regímenes
internacionales– el impacto de los gobiernos
centrales en las ciudades es cada vez mayor. Aunque se
generalizan los procesos de descentralización, y el
discurso estatal reconoce cada vez más el papel de
las ciudades en la gobernación pública, los recursos
—políticos, económicos, de autoridad— de que
disponen las ciudades no están a la altura de sus
nuevas misiones.[11]
O
envolvimento de novos atores nas relações
internacionais, em especial os governos locais vêm
também a contribuir para o fortalecimento do processo
de integração através de uma “integração pela
base”, como cita Haroldo Carvalho, ao fortalecer a
legitimidade do processo democrático dos países.
A
cidade, portanto, tem contribuições decisivas para a
democratização do espaço político internacional.
Melhor que ninguém, ela pode agregar à integração
o interesse público, porque é nela que o espaço
privado se organiza e estabelece suas relações de
força. É na cidade, também, que pode agregar à
integração a face humana da cidadania, porque é
nela que as pessoas se articulam para defender seus
interesses. A cidade e a região são, também, uma
das poucas identidades intactas neste mundo
fragmentado[12].
A
crescente inserção dos governos locais no cenário
internacional representou a construção de novos
mecanismos de articulação na busca de solução para
os problemas decorrentes das assimetrias regionais.
Neste contexto, as cidades adquiriram o papel de
protagonistas, ao desenvolver formas de articulação
internacional, através das redes participativas,
reivindicando o seu papel na legitimação do processo
democrático, aprofundando sua autonomia com políticas
de descentralização e subsidiaridade. A dinâmica da
cooperação é o principal instrumento das cidades
para a construção e práticas comuns entre os seus
membros.
La
dimensión internacional está vinculada a este
programa de gobernabilidad, y en ella la cooperación
entre ciudades prevalece frente al conflicto. Aunque
existen puntos de competencia objetiva –las ciudades
se pueden disputar inversiones, ser sede de empresas u
otros organismos…– los espacios de encuentro, de
interés común, prevalecen. Al servicio de esa agenda
de “paradiplomacia urbana” están diferentes
instrumentos: cooperación ciudad-ciudad, asistencia técnica,
ayuda de emergencia hermanamientos, misiones
comerciales, contactos políticos entre alcaldes…
pero son sobre todo las redes de ciudades
–formalizadas normalmente en asociaciones de
autoridades locales– el medio privilegiado por los
gobiernos municipales para, desde lo internacional,
fortalecer sus objetivos de gobernabilidad local.[13]
Um
dos mecanismos utilizados para a internacionalização
das localidades é a consolidação de redes
internacionais de cooperação que permitem o acesso e
a disseminação do intercâmbio de tecnologias e
experiências. O intercâmbio via rede se fortaleceu e
complementou o processo de construção de blocos
regionais, como por exemplo, a rede Mercocidades que
reúne as cidades dos países que compõem o Mercosul.
Desta maneira os municípios podem participar das
decisões do bloco como também inserirem
internacionalmente de forma independente das políticas
domésticas dos Estados, em busca da realização de
seus interesses específicos.
Grandes
cidades por todo o mundo são o terreno no qual a
multiplicidade dos processos de globalização assume
formas concretas e localizadas. Estas formas
localizadas são, em grande parte, aquilo em que
consiste a globalização. Se considerarmos, além
disso, que as cidades grandes concentram uma parcela
crescente de populações desfavorecidas (...)
poderemos verificar que estas cidades se tornaram
terreno estratégico para uma série grande de
conflitos e contradições.[14]
O
processo de mundialização permitiu novas formas de
atuação dos municípios, funções que lhe são
apresentadas através de um processo de crescente
flexibilidade de seus limites:
A
cidade hoje pertence a uma geografia ‘elástica’
em que os seus limites são ‘flutuantes’. Com a
perda de importância do Estado-nação, as cidades têm
vindo a afirmar um protagonismo crescente no âmbito
dos mecanismos de regulação política, econômica e
cultural, num quadro, todavia, efêmero e de
incerteza. Deste modo, a crescente globalização da
economia, o reforço dos serviços, da investigação
e da informação no processo produtivo, as alterações
correlativas na composição das sociedades e nos
valores culturais e a transferência das condições
de regulação do Estado para os níveis de poder
local e regional, colocam actualmente novos desafios
às cidades.[15]
Esta
rede de cidades é uma forma de organização social,
econômica e cultural que ultrapassa as fronteiras e
limitações do Estado- Nação.
A construção de
tais redes representa o espaço pelo qual municípios
têm a possibilidade de trocar experiências
conjuntas, desenvolver projetos que visam o
desenvolvimento local, como também discutir temas da
agenda internacional.
Detenhamo-nos,
por um pouco, na análise de um dos aspectos
essenciais da constituição atual do espaço.
Refirimo-me às redes. Sabemos que elas são, ao mesmo
tempo, globais e locais. Globais elas o são, porque
cobrem todo o ecúmeno e, na verdade, constituem o
principal instrumento de unificação do planeta. Mas
elas também são locais, já que cada lugar, através
de sua estrutura técnica e de sua estrutura
informacional, acolhe uma fração, muito maior ou
menor, das redes globais. No lugar, elas presidem ao
trabalho e ao capital (vivo) e determinam a sua
natureza. Como nacionais ou mundiais, as redes
presidem à divisão internacional do trabalho e
determinam a natureza da cooperação. Como globais,
elas sobretudo se referem às outras instâncias da
produção, circulação, distribuição,consumo.[16]
A
inserção das cidades nas relações internacionais
pode ser exemplificada com a criação da organização
“Cidades e Governos Locais Unidos”, no ano de
2004, unificando as duas organizações de cidades
anteriores: a Federação Mundial de Cidades Unidas
(FMCU) e a União Internacional de Autoridades Locais
(IULA).
A
crescente importância das cidades nas relações
internacionais, cuja interconectividade foi facilitada
pelas tecnologias da informação, é demonstrada pela
profusão de protocolos de cooperação entre governos
locais e regiões, de acordos de cooperação técnica,
do intercâmbio de experiências de gestão local e de
políticas públicas inovadoras e pela constituição
de redes internacionais de cidades. (...) A constituição
de associações de cidades em rede permite o acesso,
a troca e a disseminação de informações, recurso
que se tornou estratégico com a emergência e o
amadurecimento da sociedade do conhecimento, da revolução
tecnológica e do acirramento da competitividade econômica
global. Em sua maioria, estas redes de cidades
formam-se em torno de temas relacionados com a inclusão
social e com modelos alternativos de desenvolvimento
local.[17]
A
rede internacional Mercocidades, constituída no âmbito
da integração regional no Cone Sul do continente
americano, tem um papel importante no contexto do
fortalecimento do processo de integração regional
por permitir a institucionalização da participação
das cidades e autoridades locais nos órgãos centrais
do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). O objetivo central
da Rede Mercocidades é permitir um espaço de diálogo,
interação entre os governos locais dos países
membros do Mercosul, construindo uma agenda de políticas
que possam contemplar os objetivos e necessidades de
cada localidade inserida no processo de integração
regional.
Conclusões
A
intensificação do processo de globalização trouxe
modificações fundamentais para a compreensão das
relações internacionais e das diferentes articulações
e dinâmicas que se formaram entre os territórios e
comunidades. Não
é mais ilusório pensar a formação de um mundo que
atua em rede, onde os lugares, os territórios têm a
possibilidade de criar “novas solidariedades: a
possibilidade de um acontecer solidário, malgrado
todas as formas de diferença, entre pessoas, entre
lugares”.
“O que era fantasia, metáfora ou utopia, quando o
pensamento se propunha pensar o mundo, equacionar a
razão universal, imaginar o cosmopolitismo,
diagnosticar as contradições universais, mergulhar
nas opacidades do real, quando se forma a sociedade
global, tudo isso pode adquirir outro significado,
novas possibilidades”.
O
desafio atual é pensar o mundo como uma “sociedade global”. A compreensão das relações internacionais
contemporâneas passa necessariamente pelo
entendimento de uma sociedade mundial que se articula
em escala mundial suas estruturas políticas, econômicas,
históricas, culturais e sociais.
O
espaço local, as regiões têm um papel fundamental
na construção de uma sociedade com menores
desigualdades. É através da articulação de seus
atores no âmbito internacional e nacional que se faz
possível a legitimidade do processo democrático,
quando seus diversos atores participam das decisões
relacionadas aos temas que interferem diretamente em
sua realidade.
Nesse
sentido, o lugar não pode ser visto como passivo, mas
como globalmente ativo, e nele a globalização não
pode ser enxergada apenas como fábula. O mundo, nas
condições atuais, visto como um todo, é nosso
estranho. O lugar, nosso próximo, restitui-nos o
mundo: se este pode se esconder pela sua essência, não
pode fazê-lo pela sua existência. No lugar, estamos
condenados a conhecer o mundo pelo que ele já é,
mas, também, pelo que ainda não é. O futuro, e não
o passado, torna-se a nossa âncora. [...] Mas, hoje,
com o progresso científico e técnico e a empirização
da totalidade, o mundo nos garante que há varias
formas possíveis – e viáveis- de construir
futuros.
O
lugar é a oportunidade do evento. E este, ao se
tornar espaço, ainda que não perca suas marcas de
origem, ganha características locais. O evento é, ao
mesmo tempo, deformante e deformado. Por isso fala-se
na imprevisibilidade do evento, a que Ricoeur chama de
autonomia, a possibilidade, no lugar, de construir uma
história das ações que seja diferente do projeto
dos atores hegemônicos.[21]
O
problema que nos é colocado atualmente se relaciona
com a necessidade de inserir as necessidades específicas
de cada região e localidade na agenda da sociedade
mundial. Quando pensamos na ordem global, uma de suas
características essenciais é a desterritorialização,
a porosidade das fronteiras, seu espaço é marcado
pela inconstância. Entretanto, a ordem local se
reterritorializa, reunindo dentro de seu cotidiano
imediato, possibilitando uma garantia de comunicação
entre as pessoas. Resgatando o pensamento de Milton
Santos, “cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de
uma razão global e de uma razão local, convivendo
dialeticamente.”
Uma
dinâmica, que num primeiro momento parece ser
contraditória vem a unir as coletividades, os
diversos espaços locais para participarem da vida
mundial. Dentro desta dinâmica de aparente contradição,
a atuação dos governos locais através das redes
internacionais de cidades, abre um espaço de articulação
fundamental. “De fato, todavia, parece certo: o
processo de unificação se faz por intermédio do que
se chama de redes. [...] O movimento é criador de
diversificação, e a aceleração atual agrava essa
tendência. A diversificação pode, pois, contribuir
para a unidade ou somente para a unificação”.
O
presente trabalho analisa a atuação em rede dos
governos locais sob o entendimento de que a sociedade
civil sendo representada pelos governos locais
participa ativamente da construção de uma sociedade
global que não apenas busca minimizar
superficialmente os efeitos negativos da globalização,
mas sim construir uma cooperação entre os diversos
atores internacionais para a construção de uma ordem
igualitária e justa.
Considerar
o mundo através de uma ampla composição de atores
inseridos em seu espaço e região, buscando
internacionalmente responder positivamente aos
desafios apresentados pela nova ordem é um processo
que não se dá sem uma contraditoriedade, “o local
e global determinam-se reciprocamente, umas vezes de
modo congruente e conseqüente, outras de modo
desigual e desencontrado”.
Daí decorrem as preocupações dos governos centrais
com relação a atuação de entes federativos nas
relações internacionais, a chamada atuação paradiplomática.
Entretanto,
a descentralização trazida pela atuação
internacional das regiões é um aspecto positivo que
vem a complementar as políticas externas de cada
Estado, desde que seja feita a institucionalização
necessária como também
desde que a atuação das localidades esteja em
consonância com os pressupostos dos Estados
nacionais.
O
processo de articulação entre o local e global não
deve ser encarado com receios, pois faz-se fundamental
pensar as relações internacionais contemporâneas
através de uma construção dialética entre o
singular e o universal, o micro e o macro. O espaço
local “pode
não só afirmar-se como recriar-se no contraponto com
o global.” (Ianni, pp202).
Neste
contexto, cabe destacar o papel fundamental e
promissor das cidades na construção de uma agenda
comum, de uma sociedade mundial que busque através da
troca de experiências, da construção de projetos
comuns, utilizando-se de todas as possibilidades da
cooperação internacional, pôr fim às desigualdades
e aos problemas decorrentes da globalização
construindo o que Milton Santos denomina de
solidariedade mundial.
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