Por
Guilherme
Stolle Paixão e Casarões
Em
meados de 1989, o acadêmico neo-conservador
Francis Fukuyama escreveu “The End of
History?”, artigo cuja repercussão foi
imediata, mais vigorosa e mais controversa do
que talvez pudesse crer o próprio autor. O
cerne de seu argumento, desenvolvido mais
tarde em uma obra mais extensa, uma série de
artigos e debates em resposta aos críticos e
comentadores,
é o de que a História (entendida, aqui, numa
concepção hegeliana-marxiana de evolução
da humanidade) havia chegado ao fim: o triunfo
das democracias liberais sobre as formas
comuns de autoritarismo – o do tipo soviético
em particular – representava o estágio mais
elevado da evolução humana em termos de
organização política. Ao contrário dos
antigos, que costumavam considerar a
democracia “o melhor dentre os piores”
regimes de governo, Fukuyama asseverou que a
modalidade liberal de democracia preenchia os
três elementos que, para Hegel, moviam a ação
humana (e, portanto, davam sentido à
continuidade da História): o desejo, a razão,
e a busca pelo reconhecimento. Ao encerrar
tais elementos, as democracias liberais tornam
pleno o Homem como zoon
politikon, e a História poderia,
portanto, descansar em paz.
Com
o perdão da futilidade de se resumir tão
sumariamente o longo argumento de Fukuyama,
vale dizer, de saída, que ele vem sendo mal
interpretado há quase duas décadas. Muitos
– alguns leitores, muitos não-leitores de
sua obra – argumentaram, sistemática e
veementemente, que qualquer evento de relevo
na história mundial seria o bastante para
refutar a esdrúxula tese do fim da História.
O que seriam a Guerra do Golfo, a nova crise
dos Bálcãs, as guerras civis na África senão
a expressão patente de que a história seguia
seu curso? Outros tantos apropriaram-se de
outros conceitos emergentes naquele período,
como o pessimista “choque de civilizações”
de Huntington, para demonstrar a falácia de
que a democracia liberal se firmaria hegemônica
sobre o desejo humano, encontrando obstáculos
culturais-civilizacionais intransponíveis,
corporificados, por exemplo, nas diferenças
entre o mundo ocidental e sociedades islâmicas
ou confucianas.
A
despeito dos críticos do “fim da História”,
é possível ponderar que, em algum ponto da década
de 1990, entre a queda do muro e, digamos, o
11 de setembro, Fukuyama esteve próximo de
acertar a sorte grande. A busca pela
democracia marcou muitas transições de
regime em países de descolonização recente,
especialmente na África, parecia
consolidar-se no Leste Europeu e difundiu-se
para o Oriente Médio. No virar do milênio,
em torno de 60% dos Estados do mundo abraçavam
a democracia. A busca por ela é ainda mais
impressionante: entre 1974 e hoje, nada menos
que noventa países converteram-se ao regime
democrático de governo.
A crescente expansão democrática pós-Guerra
Fria tornou o regime de tal forma paradigmático
que a própria ONU vem comprometendo-se em
difundir a democracia pelo globo, por meio de
suas práticas e idéias. O discurso
tornara-se uníssono em favor do regime que
seria, sem muito esforço persuasivo,
considerado a melhor forma de organização
política a que qualquer comunidade humana
pudesse chegar.
*
* *
A
História, não obstante, parece estar
ressurgindo vigorosamente das cinzas. O já
mencionado Larry Diamond não foi o primeiro a
apontar o retrocesso da democracia liberal
como forma de apaziguar o espírito humano.
Norberto Bobbio, em um ensaio freqüentemente
citado sobre o futuro da democracia, aponta
certas “promessas não-cumpridas” que
legou o regime desde suas formulações teóricas
modernas (como em Rousseau). Para o autor, a
diferença entre a democracia prática, real,
e a democracia ideal tem suas bases em seis
aspectos: (1), as sociedades hodiernas são
policêntricas e centrífugas e não centrípetas
e baseadas na “vontade geral” da população;
(2) a representação, hoje, é vinculada a
interesses individuais e não nacionais,
totais, marcando a gênese de um sistema
social neo-corporativo; (3) o poder oligárquico,
força de oposição à democracia, não foi
derrotada com o advento dos regimes democráticos;
(4) a democracia não foi capaz de “ocupar
todos os espaços nos quais se exerce um poder
que toma decisões vinculatórias para um
inteiro grupo social”,
ou seja, tornar democráticos espaços não-políticos;
(5) o poder invisível, qual seja, a máfia, o
crime organizado, as redes de corrupção, não
foi eliminado pela estrutura democrática e
gera um desequilíbrio de poder entre
controladores e controlados; (6) o regime
democrático não conseguiu prover educação
para a cidadania, conferindo aos cidadãos os
recursos da consciência – e, portanto, da
participação – política.
Ainda
assim, Bobbio nos oferece uma perspectiva
otimista. A despeito das promessas
inconclusas, a democracia não teria, no âmbito
dos regimes políticos, substitutos à altura.
Mas, se sob uma perspectiva endógena a
democracia se sustenta apesar das limitações,
o que dizer dos desafios exógenos à
consolidação global dos regimes democráticos?
O que gostaria de ponderar aqui, portanto, são
outros desafios à democracia, à parte
daqueles ofertados por Bobbio, que hoje
funcionam como “agentes da História”, ou
seja, que buscam resgatá-la, como fênix, do
limbo prometido por Fukuyama.
Dois
desafios aparentam ser, neste despertar do milênio,
particularmente convidativos à análise. O
primeiro deles é a relação entre a
globalização, movimento que tem se
intensificado exponencialmente nas últimas décadas,
e a sustentação dos regimes democráticos.
Em segundo lugar, vale uma ponderação sobre
qual a relação entre as grandes potências
globais e a democracia. Dedicaremos o texto desta edição
à dissecação desses pontos.
(1)
Globalização e democracia
Originalmente
cunhado com a função de descrever um
processo de convergência de mercados no âmbito
global, ampliando o escopo das atividades econômicas
capitalistas, o termo “globalização” foi
progressivamente ganhando conotações
sociais, culturais, e particularmente políticas.
Se, ao fim da década de 1970, a globalização
dizia respeito ao progressivo movimento de
interdependência econômica entre Estados,
empresas, sociedades e organizações
internacionais, como apontaram Keohane e Nye
(1971; 2001 [1977]), o ocaso da disputa ideológica
entre capitalismo e comunismo tornou a
globalização um vetor potencial das
democracias liberais – regime cuja prevalência,
como já dito, pensava-se inconteste.
Pode-se
afirmar, com alguma precisão, que a
mentalidade democrática-liberal que povoou o
imaginário de estadistas e indivíduos com o
declínio da Guerra Fria decorreu da
intensificação das relações entre Estados
e demais agentes transnacionais. Tendo os EUA
como principal modelo da “nova ordem
mundial” globalizada, diversos países
encontraram na democracia norte-americana a
fonte de sua pujança econômica, militar,
tecnológica e cultural, criando-se uma
costumeira confusão entre “globalização”
e “americanização”.
De fato, não parece haver dúvidas de que a
globalização é um processo, no presente
momento, americanocêntrico – no sentido de
que “grande parte da revolução da informação
e boa parte do conteúdo das redes de informação
global são provenientes dos Estados Unidos”,
e isso explica em parte por que se acredita na
correlação entre democracias liberais
(regime propagado como “ideal”) e
globalização centrada nos EUA. Não
esclarece, contudo, se de fato os Estados
Unidos utilizam-se deste processo para
difundir o modelo democrático-liberal de
governo ou se trata-se tão-somente de fenômenos
coincidentes.
De
qualquer forma, a ordem “unipolar” e
globalizada que emergiu após a Guerra Fria
encontrou como reflexo aestrutural a adesão
cada vez maior dos Estados a regimes democráticos.
Pensou-se, assim, que a globalização pudesse
ser uma espécie de força pró-democracia.
Contudo, não se provou, com o passar da última
década, essa relação causal que se
esperava. Muito pelo contrário: a relação
entre democracia e globalização tem emitido
sinais controversos, em particular desde a
virada do século. Em diversos países em
desenvolvimento, como em parte do mundo muçulmano,
a globalização é entendida como um tipo de
neocolonialismo, cujos frutos, que sinalizam o
domínio do ocidente sobre o resto do mundo,
devem ser rejeitados. Sousa pondera, assim,
que
“[o]s
efeitos da globalização têm sido, pois, díspares,
ora promovendo valores democrático-liberais,
estabilidade e crescente interdependência,
ora sugerindo fragmentação, traduzida na
recusa de alinhamento com o modelo ocidental
de democracia liberal e na preservação de práticas
políticas, econômicas ou sociais
genericamente descritas como não-democráticas”
Se
o efeito estrutural que a globalização
oferece à expansão dos regimes democráticos
é contraditória, o que dizer dos impactos da
política das grandes potências sobre a
consolidação da democracia? Devemos pensar
que uma suposta hegemonia norte-americana
sobre o globo é capaz de induzir resultados
democráticos ou há movimentos mais profundos
a se considerar?
(2)
Grandes potências e democracia
O
mundo da Guerra Fria era um mundo dividido
entre duas ideologias contrapostas, e o número
de potências na política internacional
acompanhava, em certa medida, a clivagem entre
democracias liberais e Estados socialistas. De
um lado, representando o mundo democrático,
“livre”, tínhamos os EUA como um dos síndicos
do “condomínio internacional”,
acompanhado, em menor escala, por nações
como Inglaterra, França e, mais tardiamente,
Japão e Alemanha. Cruzando o globo, atuando
em nome dos valores do socialismo, tínhamos o
outro síndico, a União Soviética, e a República
Popular da China (para um exemplo vívido,
basta pensarmos na configuração do Conselho
de Segurança das Nações Unidas a partir dos
anos 1970).
Havia,
também, um outro grupo de Estados, aqueles
que durante parte do período bipolar
assumiram regimes capitalistas e
autocráticos. Vários países afro-asiáticos,
pós-descolonização, acabaram incorrendo
neste tipo de configuração política.
Ademais, há pouco menos de meio século, a América
Latina foi palco de uma série de golpes
militares responsáveis pelas ditaduras que
duraram até o fim da Guerra Fria. Na disputa
bipolar, no entanto, o regime político dos países-satélite
dos EUA ou da URSS importava pouco; digamos
que, na lógica da “política das grandes
potências”, o mundo dividia-se entre
democracia e capitalismo versus autocracia e socialismo.
Assim,
com o colapso do bloco soviético,
acreditou-se que as autocracias perderiam sua raison
d’étre. A crescente abertura econômica
à qual estavam sujeitos os países do globo
– inclusive como efeito da globalização
– levaria, acreditava-se, a uma crescente
abertura política naqueles países dentro dos
quais a lógica da História de Fukuyama ainda
persistia. Foi justamente o que aconteceu com
a União Soviética-Rússia após a perestroika,
particularmente nos primeiros anos da década
de 1990. Foi, também, o que se acreditou
estar ocorrendo com a China, após o desgaste
sofrido com os eventos da Praça Tiananmen, em
1989. Com efeito,
“[n]o
início dos anos 1990, o otimismo era
compreensível. O colapso do império
comunista e a aparente adesão à democracia
por parte da Rússia pareciam enunciar uma
nova era de convergência global. Os grandes
adversários da Guerra Fria repentinamente
compartilhavam diversos objetivos comuns,
incluindo um desejo pela integração econômica
e política (...). Numa economia globalizada,
acreditava-se amplamente, as nações não
tinham escolha senão liberalizar-se –
primeiro economicamente, depois politicamente
– se quisessem competir e sobreviver”.
A
democracia liberal seria, portanto, mais que
um valor moral a ser defendido, mas um
imperativo de sobrevivência no sistema
internacional anárquico. À luz de qualquer
vertente analítica das Relações
Internacionais, desde as correntes idealistas
aos advogados dos “realismos” que
privilegiam as grandes potências, o regime
democrático parecia inevitável.
Retomemos
o exemplo das duas grandes potências autocráticas
da segunda metade do século XX: Rússia e
China. A primeira se auto-denomina uma república
democrática desde a adoção da atual
constituição, em fins de 1993, e empreendeu,
desde a dissolução da União Soviética, uma
série de reformas neoliberais. A segunda
rendeu-se progressivamente ao neoliberalismo
econômico, criando zonas econômicas
especiais, “ilhas” de capitalismo avançado
no seio de um regime socialista, e sinalizava
para flexibilizações do regime.
Acreditou-se
que o tempo consolidaria a democracia na Rússia
e levaria a China ao abandono da rigidez política.
O que se observa hoje, não obstante, é o
retorno do vigor autocrático em ambos os países.
Os dissabores vinculados à questão tibetana
e as fraudulentas eleições de Medvedev,
seguidas de simbólicas demonstrações de força,
denotam a ainda longa distância entre estas
potências e o regime democrát.ico. A corrupção
predatória e a tendência autoritária na Rússia
impediu que, mesmo sob uma constituição
democrática, as instituições liberais
prosperassem no país. A China, por sua vez,
mesmo tendo mantido sua estrutura política
autocrática, rendeu-se progressivamente ao
neoliberalismo econômico, numa apropriação
particular e cuidadosa, de forma a não
comprometer sua própria lógica de governo. Após mais de uma década
de ventos democráticos sobre os gigantes asiáticos,
a força como instrumento do diálogo – seja
interno ou externo – se recoloca de forma
vigorosa.
A
percepção de que Rússia e China representam
um grande desafio à democracia é
particularmente aguçada nas opiniões de
Robert Kagan. Para o autor, é sobre ambas as
potências que devem recair as preocupações
internacionais do século XXI: “Esqueça a
ameaça islâmica, a próxima batalha será
entre nações autocráticas, como Rússia e
China, e o resto”.
Numa alusão ás malfadadas previsões de
clivagem internacional do pós-Guerra Fria,
particularmente aquelas oferecidas por
Huntington e Fukuyama, Kagan diz inaugurar-se
uma “era de divergência” cujo embate
principal, como no século XIX, é entre
liberalismo e autocracia.
O
“mau” exemplo dado por grandes potências
como China e Rússia reabrem as portas para
que a autocracia torne-se uma opção atraente
para países cujo regime democrático não
conseguiu lograr êxito. “È um equívoco
acreditar que autocracias não têm apelo
internacional”, diz Kagan, considerando
que o exemplo chinês de desenvolvimento econômico
neoliberal com um sistema político fechado,
ou o modelo russo de “democracia soberana”
baseado na força e no prestígio, já vem
sendo adotados, ainda que de forma incipiente,
por alguns países do globo.
*
* *
A
Ciência Política e as Relações
Internacionais há muito têm tratado com apreço
o tema da democracia. Ainda que autores como
Norberto Bobbio tenham sido rápidos em
apontar as limitações endógenas da
“democracia real”, parecia-se haver um
consenso, levado com particular seriedade ao
longo da década de 1990, de que não havia
constrangimentos exógenos sérios aos regimes
democráticos. O mundo, dizia parte dos
analistas da época, conspirava em favor da
democracia. Enquanto a promessa do “fim da
História” quase chegou ao seu pleno
cumprimento nos anos imediatamente após a
queda do comunismo, já não se pode olhar
para o globo e desconsiderar o arrefecimento
da adesão democrática neste início de século.
Com
os holofotes sobre as grandes potências da Ásia,
Rússia e China, é compreensível que o
debate sobre os rumos da democracia no mundo
passe por momentos tão vívidos como nos últimos
meses. Faz-se importante, assim, oferecer
alguns insights
sobre fatores exógenos que impõe limites à
expansão democrática. Atuando como
verdadeiros “agentes da História”, eles
prometem, neste início de século, a
continuidade do debate sobre a democracia
pelos próximos anos... ou décadas. Talvez a
História se encontre mais longe de seu fim do
que pensávamos.