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  EDITORIAL

O DESVELAMENTO DA CORÉIA DO NORTE E A EPISTEME DA IMAGEM

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama

 

Nas últimas semanas, os olhos do mundo se voltaram para a obscura (pois que ocultada severamente) cidade norte-coreana de Pyongyang, capital de um dos últimos Estados “socialistas realmente existentes” no globo terrestre. Certamente o único Estado a possuir um “Eterno Presidente da República”[1] - a República Democrática Popular da Coréia. Para os não-iniciados, Coréia do Norte.

 

Eis que, de súbito, um estado no qual 22% da população sofrem de desnutrição crônica[2] anuncia ao mundo um teste nuclear subterrâneo bem-sucedido, provocando como um tremor de terra de 3.58 graus na escala Richter em Seul, capital da vizinha República da Coréia, a Coréia do Sul. As Coréias estão tecnicamente em guerra desde 1947, quando, após a derrocada do invasor japonês, o território ocupado da Coréia foi dividido em “zonas de influência” sino-russas e norte-americanas. Em seguida o Norte comunista invadiu o Sul capitalista buscando lograr a reunificação. O “empate” que se sucedeu é mantido às custas de algumas centenas de soldados norte-americanos e sul-coreanos, de um lado da fronteira, confrontados com o 5o maior exército do planeta, o exército de um Estado com a maior proporção soldados/habitantes da Terra, que reserva 13% de seu modesto Produto Interno Bruto para a defesa nacional. A zona mais militarizada de toda a História registrada.

 

Neste instante, os olhos do mundo lêem “guerra” na sisuda e enigmática face do ditador norte-coreano Kim-Jong il. Sentimento potencializado pelas imagens de arquivos das paradas militares norte-coreanas e pelas recém-saídas do forno imagens de mais uma nababesca celebração oficial em Pyongyang (desta feita, relativa aos 80 anos da “união antiimperalista” criada pelo supracitado “Eterno Presidente da República”, o pai de Kim-Jong il, Kim II Sung). As retinas então espelham o que se consolidou de súbito nas memórias, as palavras do presidente norte-americano George Walker Bush apontando a Coréia do Norte como um Estado integrante de um “eixo do mal”. Outro integrante do “eixo”, o Irã, mostrou-se solidário com o teste nuclear coreano, ao passo que desafia publicamente o regime de não-proliferação nuclear, o conjunto de mecanismos de controle que os Estados desenvolveram após a Segunda Guerra Mundial para evitar que uma Terceira fosse nuclearizada.

 

É difícil afirmar que a ameaça advinda da Coréia do Norte tenha subitamente “aparecido”. Em 1994, o regime de Pyongyang interrompeu abruptamente negociações com os Estados Unidos com vistas a desmantelar seu programa nuclear em troca de auxílio econômico. A Coréia do Norte, em 1999, lançou um míssil intercontinental que sobrevoou o Japão (sob protestos de inúmeros estados), o que voltaria a fazer em 2006. Em 2003, o regime norte-coreano se retirou do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em 2005, Kim Jong-il anunciou o domínio da tecnologia do enriquecimento do urânio necessário para a construção de um artefato nuclear.

 

É também difícil sustentar a tese de que a decisão do governo da Coréia do Norte constitua um ato sem precedentes, impensável, intolerável e, portanto, catalisador de um sentimento único de indignação e insegurança. Nos anos em que Pyongyang interrompeu negociações com vistas a desmantelar seu programa nuclear, Índia e Paquistão testavam com sucesso artefatos nucleares e, para efeitos práticos, deitavam por terra o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. A Agência Internacional de Energia Atômica seria desprezada pelo governo norte-americano na avaliação do programa nuclear remanescente do Iraque de Saddam Hussein, fornecendo subsídios para os governos “perigosos” como o do Irã manterem e aprofundarem seus programas nucleares.

 

Podemos entender a reação hodierna aos acontecimentos de Pyongyang a partir de um conjunto selecionado de imagens. Estas provêem a legitimação pós-facto do discurso do “eixo do mal”. Da mesma forma, podem ser alguns dos sustentáculos de políticas futuras, como uma eventual invasão dos Estados Unidos na Coréia do Norte ou mesmo no Irã. As imagens fornecem a ponte entre os cidadãos e as burocracias do Poder Executivo e do Exército. É a imagem que coloca em ação as correias da tomada de decisão compartimentalizadas nas burocracias modernas. A verossimilhança (percepção de coerência lógica na relação entre determinadas imagens e determinados fenômenos) se torna mais e mais preponderante frente à veracidade. A percepção salta aos olhos como elemento central da Política Internacional, já ressalvada por autores como Robert Jervis.

 

O tratamento dispensado pelos Estados Unidos ao regime norte-coreano (e que foi espelhada na Resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU) é similar ao dispensado pela superpotência à ilha “comunista” de Cuba – qual seja, tentar asfixiar o regime, limitando seu acesso a determinados recursos. Salta aos olhos a continuidade e similaridade dessas práticas adotadas pelo Estado norte-americano, para além de considerações geopolíticas (não há como comparar a situação da Península Coreana com o Caribe, por mais que os pundits anti-Castro se mobilizem). Também é patente o fracasso dessa espécie de política. O regime “comunista” cubano perdura por décadas. O regime “comunista” da Coréia do Norte logrou o domínio da tecnologia nuclear. Por que insistiriam os norte-americanos nesse tipo de iniciativa destinada ao dissabor – sabedores, há décadas, que o regime de Pyongyang é sustentado diretamente por Pequim, a qual destina, por exemplo, 92% de suas doações mundiais de comida para Kim-Jung il?

 

Ernst Haas e Anthony Giddens[3] salientaram a relevância das experiências pregressas, consolidadas nas mentes dos agentes sociais, para explicar rumos de ação aparentemente irracionais. A reflexão sobre práticas recorrentes do passado se converte em subsídios para a ação política futura. Gostaria de incluir uma variável interveniente nesse esquema de análise – as imagens – como catalisadores da mudança. Reflexão “incremental” conduz a comportamentos “dependentes do caminho”[4]. As imagens, porém, reorganizam cadeias de conceitos, apressam “conclusões” e agregam impressões. São responsáveis por revoluções (no sentido cosmológico) cognitivas. São elas, em boa parte, as responsáveis pelo processo de “aprendizado” dos agentes sociais. Arjan Appadurai, a este respeito, afirmou ser insuficiente a capacidade de raciocínio abstrato e reflexivo para prover o entrelaçamento de cadeias de práticas e valores que denominamos “globalização” – é preciso fazer menção ao trabalho da imaginação, do encadeamento de imagens, como móvel da ação política, como instrumento epistêmico, que propiciam fundações e condições de possibilidade para o deslocamento dos agentes através do espaço, num tempo cada vez mais exíguo [5]. Guy Debord, Jean Baudrillard, Ernst Kantorowicz, Michael Foucault e Cynthia Weber foram alguns dos autores que tangenciaram a questão da imagem na construção da identidade moderna, das instituições modernas. Mas cabe atentar para a necessidade de trabalhar as imagens especificamente como uma episteme política moderna, como uma variável central ao trabalho da Política Internacional.

 

É um dos lugares-comuns da análise da Política Internacional (e da Política em geral) adotar como metodologia de ação política o cálculo, abstrato, de recursos materiais e simbólicos, por parte dos agentes políticos. Mas a mera aferição de recursos não conduz à ação política. Ao lado dos tradicionais padrões de “amizade e inimizade”, já tão ressaltados, repousam as imagens como catalisadores da ação política e mais, como instrumento de construção de políticas. Assim como um vídeo-clipe lança mão de imagens sobrepostas, a princípio desconexas entre si, que acabam convergindo para um produto final desprovido das incongruências e fraturas de seus contextos de origem, a Política Internacional é feita em boa medida graças à ação deliberada de demiurgos de imagens, alimentando a imaginação de grupamentos de indivíduos em escala crescentemente global.

 

Em termos empíricos, podemos introduzir essa discussão atinando para o controle das imagens – de forma alguma atributo do regime “comunista” de Pyongyang, que projeta imagens de coesão nacional, de uma capacidade de ameaçar superior à de sua vizinha, mais próspera e capacitada, Coréia do Sul. Os lares norte-americanos foram recentemente bombardeados com discursos de Osama Bin Laden e seus imediatos no Iraque e Afeganistão, empregados com liberalidade na propaganda política do Partido Republicano. A imagem é a cabeça-de-ponte da Política internacional, moderna. A iconografia de Kim-Jung il encontra amparo nos “shots” dos aviões se chocando com o World Trade Center. As imagens são os projéteis que vão do Afeganistão ao Iraque, eivando de coesão e coerência, nos corações e mentes, um conjunto de políticas formuladas ad hoc. Provendo, enfim, legitimação.

 

A explosão nuclear subterrânea mais noticiada de toda a História nos traz à baila a relevância das imagens como epistemes, sustentáculos e condições de possibilidade da ação política moderna. Nos reconcilia com o trabalho da imaginação, catalisadora e legitimadora da tomada de decisão, colocando literalmente as imagens em ação. A bomba norte-coreana foi construída à imagem e semelhança da Política Internacional moderna. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos, pois.



[1] Constituição Socialista da República Democrática Popular da Coréia –  http://www.geocities.com/dprknews/dprkconst.htm

[2] Dados do Programa de Alimentação da Organização das Nações Unidas, 2005

[3] http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/cgi bin/PRG_0599.EXE/7681_2.PDF?NrOcoSis=22356&CdLinPrg=pt

[4] Tradução livre da expressão anglo-saxã “path-dependency”

[5] APPADURAI, Arjan. “Disjuncture and Difference In the Global Cultural Economy”. Disponível em http://www.well.com/~willard/Appadurai-%20DisjunctureDifference.pdf

 

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