O DESVELAMENTO DA CORÉIA DO NORTE E A
EPISTEME DA IMAGEM
Carlos
Frederico Pereira da Silva Gama
Nas
últimas semanas, os olhos do mundo se voltaram para a obscura
(pois que ocultada severamente) cidade norte-coreana de
Pyongyang, capital de um dos últimos Estados “socialistas
realmente existentes” no globo terrestre. Certamente o único
Estado a possuir um “Eterno Presidente da República”
- a República Democrática Popular da Coréia. Para os não-iniciados,
Coréia do Norte.
Eis
que, de súbito, um estado no qual 22% da população sofrem
de desnutrição crônica
anuncia ao mundo um teste nuclear subterrâneo bem-sucedido,
provocando como um tremor de terra de 3.58 graus na escala
Richter em Seul, capital da vizinha República da Coréia, a
Coréia do Sul. As Coréias estão tecnicamente em guerra
desde 1947, quando, após a derrocada do invasor japonês, o
território ocupado da Coréia foi dividido em “zonas de
influência” sino-russas e norte-americanas. Em seguida o
Norte comunista invadiu o Sul capitalista buscando lograr a
reunificação. O “empate” que se sucedeu é mantido às
custas de algumas centenas de soldados norte-americanos e
sul-coreanos, de um lado da fronteira, confrontados com o 5o
maior exército do planeta, o exército de um Estado com a
maior proporção soldados/habitantes da Terra, que reserva
13% de seu modesto Produto Interno Bruto para a defesa
nacional. A zona mais militarizada de toda a História
registrada.
Neste
instante, os olhos do mundo lêem “guerra” na sisuda e
enigmática face do ditador norte-coreano Kim-Jong il.
Sentimento potencializado pelas imagens de arquivos das
paradas militares norte-coreanas e pelas recém-saídas do
forno imagens de mais uma nababesca celebração oficial em
Pyongyang (desta feita, relativa aos 80 anos da “união
antiimperalista” criada pelo supracitado “Eterno
Presidente da República”, o pai de Kim-Jong il, Kim II
Sung). As retinas então espelham o que se consolidou de súbito
nas memórias, as palavras do presidente norte-americano
George Walker Bush apontando a Coréia do Norte como um Estado
integrante de um “eixo do mal”. Outro integrante do
“eixo”, o Irã, mostrou-se solidário com o teste nuclear
coreano, ao passo que desafia publicamente o regime de não-proliferação
nuclear, o conjunto de mecanismos de controle que os Estados
desenvolveram após a Segunda Guerra Mundial para evitar que
uma Terceira fosse nuclearizada.
É
difícil afirmar que a ameaça advinda da Coréia do Norte
tenha subitamente “aparecido”. Em 1994, o regime de
Pyongyang interrompeu abruptamente negociações com os
Estados Unidos com vistas a desmantelar seu programa nuclear
em troca de auxílio econômico. A Coréia do Norte, em 1999,
lançou um míssil intercontinental que sobrevoou o Japão
(sob protestos de inúmeros estados), o que voltaria a fazer
em 2006. Em 2003, o regime norte-coreano se retirou do Tratado
de Não-Proliferação Nuclear. Em 2005, Kim Jong-il anunciou
o domínio da tecnologia do enriquecimento do urânio necessário
para a construção de um artefato nuclear.
É
também difícil sustentar a tese de que a decisão do governo
da Coréia do Norte constitua um ato sem precedentes, impensável,
intolerável e, portanto, catalisador de um sentimento único
de indignação e insegurança. Nos anos em que Pyongyang
interrompeu negociações com vistas a desmantelar seu
programa nuclear, Índia e Paquistão testavam com sucesso
artefatos nucleares e, para efeitos práticos, deitavam por
terra o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. A
Agência Internacional de Energia Atômica seria desprezada
pelo governo norte-americano na avaliação do programa
nuclear remanescente do Iraque de Saddam Hussein, fornecendo
subsídios para os governos “perigosos” como o do Irã
manterem e aprofundarem seus programas nucleares.
Podemos
entender a reação hodierna aos acontecimentos de Pyongyang a
partir de um conjunto selecionado de imagens. Estas provêem a
legitimação pós-facto do discurso do “eixo do mal”. Da
mesma forma, podem ser alguns dos sustentáculos de políticas
futuras, como uma eventual invasão dos Estados Unidos na Coréia
do Norte ou mesmo no Irã. As imagens fornecem a ponte entre
os cidadãos e as burocracias do Poder Executivo e do Exército.
É a imagem que coloca em ação as correias da tomada de
decisão compartimentalizadas nas burocracias modernas. A
verossimilhança (percepção de coerência lógica na relação
entre determinadas imagens e determinados fenômenos) se torna
mais e mais preponderante frente à veracidade. A percepção
salta aos olhos como elemento central da Política
Internacional, já ressalvada por autores como Robert Jervis.
O
tratamento dispensado pelos Estados Unidos ao regime
norte-coreano (e que foi espelhada na Resolução aprovada
pelo Conselho de Segurança da ONU) é similar ao dispensado
pela superpotência à ilha “comunista” de Cuba – qual
seja, tentar asfixiar o regime, limitando seu acesso a
determinados recursos. Salta aos olhos a continuidade e
similaridade dessas práticas adotadas pelo Estado
norte-americano, para além de considerações geopolíticas
(não há como comparar a situação da Península Coreana com
o Caribe, por mais que os pundits anti-Castro se
mobilizem). Também é patente o fracasso dessa espécie de
política. O regime “comunista” cubano perdura por décadas.
O regime “comunista” da Coréia do Norte logrou o domínio
da tecnologia nuclear. Por que insistiriam os norte-americanos
nesse tipo de iniciativa destinada ao dissabor – sabedores,
há décadas, que o regime de Pyongyang é sustentado
diretamente por Pequim, a qual destina, por exemplo, 92% de
suas doações mundiais de comida para Kim-Jung il?
Ernst
Haas e Anthony Giddens
salientaram a relevância das experiências pregressas,
consolidadas nas mentes dos agentes sociais, para explicar
rumos de ação aparentemente irracionais. A reflexão sobre
práticas recorrentes do passado se converte em subsídios
para a ação política futura. Gostaria de incluir uma variável
interveniente nesse esquema de análise – as imagens –
como catalisadores da mudança. Reflexão “incremental”
conduz a comportamentos “dependentes do caminho”.
As imagens, porém, reorganizam cadeias de conceitos, apressam
“conclusões” e agregam impressões. São responsáveis
por revoluções (no sentido cosmológico) cognitivas. São
elas, em boa parte, as responsáveis pelo processo de
“aprendizado” dos agentes sociais. Arjan Appadurai, a este
respeito, afirmou ser insuficiente a capacidade de raciocínio
abstrato e reflexivo para prover o entrelaçamento de cadeias
de práticas e valores que denominamos “globalização”
– é preciso fazer menção ao trabalho da imaginação,
do encadeamento de imagens, como móvel da ação política,
como instrumento epistêmico, que propiciam fundações e
condições de possibilidade para o deslocamento dos agentes
através do espaço, num tempo cada vez mais exíguo .
Guy Debord, Jean Baudrillard, Ernst Kantorowicz, Michael
Foucault e Cynthia Weber foram alguns dos autores que
tangenciaram a questão da imagem na construção da
identidade moderna, das instituições modernas. Mas cabe
atentar para a necessidade de trabalhar as imagens
especificamente como uma episteme política moderna, como uma
variável central ao trabalho da Política Internacional.
É um dos lugares-comuns da análise da Política
Internacional (e da Política em geral) adotar como
metodologia de ação política o cálculo, abstrato, de
recursos materiais e simbólicos, por parte dos agentes políticos.
Mas a mera aferição de recursos não conduz à ação política.
Ao lado dos tradicionais padrões de “amizade e
inimizade”, já tão ressaltados, repousam as imagens como
catalisadores da ação política e mais, como instrumento de
construção de políticas. Assim como um vídeo-clipe lança
mão de imagens sobrepostas, a princípio desconexas entre si,
que acabam convergindo para um produto final desprovido das
incongruências e fraturas de seus contextos de origem, a Política
Internacional é feita em boa medida graças à ação
deliberada de demiurgos de imagens, alimentando a imaginação
de grupamentos de indivíduos em escala crescentemente global.
Em
termos empíricos, podemos introduzir essa discussão atinando
para o controle das imagens – de forma alguma atributo do
regime “comunista” de Pyongyang, que projeta imagens de
coesão nacional, de uma capacidade de ameaçar superior à de
sua vizinha, mais próspera e capacitada, Coréia do Sul. Os
lares norte-americanos foram recentemente bombardeados com
discursos de Osama Bin Laden e seus imediatos no Iraque e
Afeganistão, empregados com liberalidade na propaganda política
do Partido Republicano. A imagem é a cabeça-de-ponte da Política
internacional, moderna. A iconografia de Kim-Jung il encontra
amparo nos “shots” dos aviões se chocando com o
World Trade Center. As imagens são os projéteis que vão do
Afeganistão ao Iraque, eivando de coesão e coerência, nos
corações e mentes, um conjunto de políticas formuladas ad
hoc. Provendo, enfim, legitimação.
A explosão nuclear
subterrânea mais noticiada de toda a História nos traz à
baila a relevância das imagens como epistemes, sustentáculos
e condições de possibilidade da ação política moderna.
Nos reconcilia com o trabalho da imaginação, catalisadora e
legitimadora da tomada de decisão, colocando literalmente as
imagens em ação. A bomba norte-coreana foi construída
à imagem e semelhança da Política Internacional moderna.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos, pois.