EUGENIO
DINIZ
Secretário executivo da
Associação Brasileira de Relações Internacionais
(ABRI); co-autor (com Salvador Ghelfi Raza e Domício
Proença Jr.) do Guia de Estudos de Estratégia
(Jorge Zahar Editores, 1999) e autor do Guia
de Estudos das Abordagens Realistas e da Balança
de Poder (Editora PUC-Minas, 2007).
OD:
Qual foi a trajetória que o trouxe até as Relações
Internacionais?
ED:
Durante a minha graduação em Filosofia, já
tinha vivo interesse pela Filosofia Política.
Ficava insatisfeito com alguns problemas éticos,
com as conseqüências de certas alternativas
políticas. Contudo, faltava-me familiaridade
com a discussão. Donde a opção pelo mestrado
em Ciência Política, na seqüência. Ao me aprofundar
na discussão sobre democracia – o tema mais
repercutido nos primeiros anos após o fim do
governo militar –, eu me deparei com a constatação
de Alfred Stepan [o famoso “brasilianista”]
de que não havia conhecimento civil sobre assuntos
estratégicos naquele Brasil redemocratizado.
A discussão carecia de conhecimentos mais específicos.
Como eu queria estudar seriamente as questões
da política internacional, nada mais adequado
do que me aprofundar no debate sobre as relações
entre os meios de força e a política.
OD:
Como o sr. concebe a relação entre os campos
acadêmicos dos Estudos Estratégicos e da Segurança
Internacional?
ED:
À época de meu mestrado, ainda se discutia no
país a doutrina de segurança nacional. E uma
discussão que instrumentalizava o conceito de
segurança nacional. Será mesmo que desenvolvimento
econômico é uma questão de segurança nacional?
Nas relações internacionais, parece haver a
mesma confusão. Por exemplo: assumiu-se, por
hipótese, que, com o fim da Guerra Fria, as questões
de segurança tornar-se-iam menos importantes.
Em contrapartida, outros pontos da agenda passaram
a ser considerados “questões de segurança”.
Veja: eu participo de mesas em congressos acadêmicos
nos quais se discute, por exemplo, HIV/AIDS como
um tópico de segurança internacional. Reconheço
a importância desse debate. Mas não é com isso
que eu trabalho. Eu trabalho com assuntos de defesa
e com os estudos estratégicos; ou seja, com a
antecipação de dificuldades, dos cursos de ação
plausíveis ou prováveis tomados por um Estado,
no relativo a sua defesa. Ocupo-me do estudo das
opções efetivamente feitas de política de defesa.
OD:
E por falar em defesa... Como o sr. avalia a atual
ênfase do Ministério da Defesa brasileiro nos
temas civis (aviação civil, políticas sociais
etc.)?
ED:
Há que se pesar a trajetória da política nacional
para explicar essa ênfase corrente nos temas
civis. Originalmente, havia um entendimento de
que aviões civis seriam conversíveis em aviões
militares. O avião militar nada mais é do
que uma aeronave de carga. Fazia sentido,
portanto, que os elementos de controle da aviação
civil estivessem sob a coordenação da mesma
organização que geria o equipamento militar
– no caso, o SINDACTA. Com a integração,
haveria a otimização dos recursos ao mesmo
tempo em que a redundância da ação seria
evitada. Deve-se desmontar esse esquema?
Depende de uma avaliação mais ampla dos
problemas organizacionais da aviação
brasileira hoje, em termos de custo e de benefício.
Uma segunda questão é a auto-imagem
“virtuosa” das Forças Armadas, sobretudo
a do Exército brasileiro. Esse aspecto fica
patente quando os recursos organizacionais do
Exército passam a assistir as comunidades
carentes. No interior do Brasil, onde os serviços
públicos não chegam, quem atende a
comunidade, de forma mais imediata, é o Exército.
A carreira no Exército também é a única opção
que um contingente expressivo da nossa população
jovem consegue vislumbrar. Esse papel social
das Forças Armadas sempre existiu.
OD:
E o submarino de propulsão nuclear que vem
sendo defendido pelo ministro Nelson Jobim?
Trata-se de opção plausível ou de apenas
mais um factóide?
ED:
Não é um factóide. Se fosse apenas um factóide,
seria muito dispendioso. A questão é: que
papel o submarino desempenha na defesa do
território brasileiro? Há a chamada “Amazônia
Azul”, isto é, a extensa costa brasileira,
que deve ser defendida. Da perspectiva orçamentária,
por outro lado, trata-se de uma opção cara.
Não falo apenas da construção do submarino,
mas das despesas com pesquisa e
desenvolvimento; dos gastos com as instalações
necessárias; da manutenção. Pessoalmente,
acho complicado o investimento no submarino,
dado que o recurso orçamentário, que é
escasso, acaba sendo desviado de outras
finalidades para que seja revertido na função
de defesa nacional.
OD:
Qual a sua leitura do recente desentendimento
diplomático entre Equador, Colômbia e
Venezuela?
ED:
Há cerca de 10, 15 anos, era comum
encontrarmos menções às “taxas
colombianas de violência” na imprensa. A
Colômbia vivia um problema muito sério de
segurança pública. E ninguém, na América
do Sul, apoiou a Colômbia no esforço pela
reconquista do controle sobre o seu território.
A ajuda veio justamente dos Estados Unidos,
com o “Plano Colômbia”. E a situação
melhorou. Por outro lado, percebe-se, no
continente sul-americano, uma certa boa
vontade de alguns governantes em relação às
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
(FARC). O venezuelano Hugo Chávez vem
tratando as FARC com um interlocutor legítimo.
Parece bom para as duas partes – Chávez e
FARC. Mas é muito ruim para a Colômbia. Da
mesma forma, quando o Equador oferece santuário
aos combatentes das FARC em seu território,
ele se opõe, veladamente, à Colômbia. O
governo colombiano pode aceitar esse tipo de
santuário? Admiti-lo significaria dar prazo e
oportunidade para as FARC voltarem a incomodar
a sociedade. Há que se condenar a Colômbia
pela invasão do território equatoriano? Sim.
Mas desde que se atente para o perigo que é
dar cobertura às FARC. Esse é o ponto que
mais me chama a atenção em toda essa controvérsia.