O estado da arte. Com arte. Desde 2002.

Publicidade

                           

 
 
 
::: Principal  
::: Expediente  
::: O Debatedouro?  
::: Blog dos Editores  
::: Parceiros  
::: Assine Grátis!  
 

 

 

::: Edições anteriores

 
      79  
78 77 76 75  
74 73 72 71  
70 69 68 67  

66

65 64 63  
 62 61 60 59  
 58 57 56 55  
54 53 52 51  
(Mais edições)  
 
 

 CONVERSA

EUGENIO DINIZ

Secretário executivo da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI); co-autor (com Salvador Ghelfi Raza e Domício Proença Jr.) do Guia de Estudos de Estratégia (Jorge Zahar Editores, 1999) e autor do Guia de Estudos das Abordagens Realistas e da Balança de Poder (Editora PUC-Minas, 2007).

 

OD: Qual foi a trajetória que o trouxe até as Relações Internacionais?

ED: Durante a minha graduação em Filosofia, já tinha vivo interesse pela Filosofia Política. Ficava insatisfeito com alguns problemas éticos, com as conseqüências de certas alternativas políticas. Contudo, faltava-me familiaridade com a discussão. Donde a opção pelo mestrado em Ciência Política, na seqüência. Ao me aprofundar na discussão sobre democracia – o tema mais repercutido nos primeiros anos após o fim do governo militar –, eu me deparei com a constatação de Alfred Stepan [o famoso “brasilianista”] de que não havia conhecimento civil sobre assuntos estratégicos naquele Brasil redemocratizado. A discussão carecia de conhecimentos mais específicos. Como eu queria estudar seriamente as questões da política internacional, nada mais adequado do que me aprofundar no debate sobre as relações entre os meios de força e a política.

 

OD: Como o sr. concebe a relação entre os campos acadêmicos dos Estudos Estratégicos e da Segurança Internacional?

ED: À época de meu mestrado, ainda se discutia no país a doutrina de segurança nacional. E uma discussão que instrumentalizava o conceito de segurança nacional. Será mesmo que desenvolvimento econômico é uma questão de segurança nacional? Nas relações internacionais, parece haver a mesma confusão. Por exemplo: assumiu-se, por hipótese, que, com o fim da Guerra Fria, as questões de segurança tornar-se-iam menos importantes. Em contrapartida, outros pontos da agenda passaram a ser considerados “questões de segurança”. Veja: eu participo de mesas em congressos acadêmicos nos quais se discute, por exemplo, HIV/AIDS como um tópico de segurança internacional. Reconheço a importância desse debate. Mas não é com isso que eu trabalho. Eu trabalho com assuntos de defesa e com os estudos estratégicos; ou seja, com a antecipação de dificuldades, dos cursos de ação plausíveis ou prováveis tomados por um Estado, no relativo a sua defesa. Ocupo-me do estudo das opções efetivamente feitas de política de defesa.

 

OD: E por falar em defesa... Como o sr. avalia a atual ênfase do Ministério da Defesa brasileiro nos temas civis (aviação civil, políticas sociais etc.)?

ED: Há que se pesar a trajetória da política nacional para explicar essa ênfase corrente nos temas civis. Originalmente, havia um entendimento de que aviões civis seriam conversíveis em aviões militares. O avião militar nada mais é do que uma aeronave de carga. Fazia sentido, portanto, que os elementos de controle da aviação civil estivessem sob a coordenação da mesma organização que geria o equipamento militar – no caso, o SINDACTA. Com a integração, haveria a otimização dos recursos ao mesmo tempo em que a redundância da ação seria evitada. Deve-se desmontar esse esquema? Depende de uma avaliação mais ampla dos problemas organizacionais da aviação brasileira hoje, em termos de custo e de benefício. Uma segunda questão é a auto-imagem “virtuosa” das Forças Armadas, sobretudo a do Exército brasileiro. Esse aspecto fica patente quando os recursos organizacionais do Exército passam a assistir as comunidades carentes. No interior do Brasil, onde os serviços públicos não chegam, quem atende a comunidade, de forma mais imediata, é o Exército. A carreira no Exército também é a única opção que um contingente expressivo da nossa população jovem consegue vislumbrar. Esse papel social das Forças Armadas sempre existiu.

 

OD: E o submarino de propulsão nuclear que vem sendo defendido pelo ministro Nelson Jobim? Trata-se de opção plausível ou de apenas mais um factóide?

ED: Não é um factóide. Se fosse apenas um factóide, seria muito dispendioso. A questão é: que papel o submarino desempenha na defesa do território brasileiro? Há a chamada “Amazônia Azul”, isto é, a extensa costa brasileira, que deve ser defendida. Da perspectiva orçamentária, por outro lado, trata-se de uma opção cara. Não falo apenas da construção do submarino, mas das despesas com pesquisa e desenvolvimento; dos gastos com as instalações necessárias; da manutenção. Pessoalmente, acho complicado o investimento no submarino, dado que o recurso orçamentário, que é escasso, acaba sendo desviado de outras finalidades para que seja revertido na função de defesa nacional.

 

OD: Qual a sua leitura do recente desentendimento diplomático entre Equador, Colômbia e Venezuela?

ED: Há cerca de 10, 15 anos, era comum encontrarmos menções às “taxas colombianas de violência” na imprensa. A Colômbia vivia um problema muito sério de segurança pública. E ninguém, na América do Sul, apoiou a Colômbia no esforço pela reconquista do controle sobre o seu território. A ajuda veio justamente dos Estados Unidos, com o “Plano Colômbia”. E a situação melhorou. Por outro lado, percebe-se, no continente sul-americano, uma certa boa vontade de alguns governantes em relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O venezuelano Hugo Chávez vem tratando as FARC com um interlocutor legítimo. Parece bom para as duas partes – Chávez e FARC. Mas é muito ruim para a Colômbia. Da mesma forma, quando o Equador oferece santuário aos combatentes das FARC em seu território, ele se opõe, veladamente, à Colômbia. O governo colombiano pode aceitar esse tipo de santuário? Admiti-lo significaria dar prazo e oportunidade para as FARC voltarem a incomodar a sociedade. Há que se condenar a Colômbia pela invasão do território equatoriano? Sim. Mas desde que se atente para o perigo que é dar cobertura às FARC. Esse é o ponto que mais me chama a atenção em toda essa controvérsia.   

 

® O Debatedouro - ISSN 1678 6637

 

O Debatedouro®, 2002-2008. Todos os direitos reservados.