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  CONVERSA

Professor Cândido Mendes

Membro da "Aliança das Civilizações", iniciativa da ONU

   

Na sua análise, que tipo de risco o “fundamentalismo étnico” – por exemplo, o dos grupos indígenas na América Latina – poderia representar no futuro?

O fracionamento nacional. Um país quéchua, ou um país aymara – na Bolívia um, no Equador outro.

 

Com relação à minoria hispânica vivendo nos Estados Unidos, o senhor vê isso como um conflito de civilizações? De que maneira?

Vejo isso como um grave conflito de civilizações. No sentido de que os Estados Unidos neoconservadores tendem a considerar os hispânicos como cidadãos de segunda classe. Chegando inclusive a considerar os mexicanos como “bandidos”, até que consigam um emprego. Isso é uma situação que desola muitíssimo a Latinidade: o preconceito contra o mundo mexicano, com a subconsideração dos seus direitos de cidadãos.

 

Essas vozes não estariam mais presentes em um partido político específico do que nos EUA como um todo?

Não, isso é algo que preocupa no neoconservadorismo americano. Isso nos preocupa porque vai para além do Partido Republicano.

 

Um dos argumentos muito usados é o da imigração ilegal. Na sua opinião, os países não têm o direito de argumentar que não conseguem mais absorver imigrantes?

Isso pode ser resolvido de uma maneira inovadora, mas não contra a tradição cultural desses países. Os EUA foram feitos o país da grande esperança e da grande migração. No momento em que isso se centra na Latinidade, essa situação está criando uma estupefacção universal.

 

Isso funcionaria no Brasil? Imagine se nós tivéssemos de absorver os chamados “migrantes econômicos”.

Acho que os absorveríamos gostosamente. O Brasil é um país que mantém a democracia na política migratória. Os problemas de fechamento de fronteiras são de países hegemônicos que começam, dentro de si, a identificar grupos mais importantes e grupos menos importantes. Isso me preocupa muito na evolução dos Estados Unidos atualmente.

 

 O sr. disse que acabar com a Al-Qaeda não significa o fim do terrorismo, que esse é um trabalho para várias gerações. Qual é a sua análise hoje?

Cada vez eu estou mais certo dessa previsão. No sentido de que o que estamos vendo é a transformação dos movimentos terroristas em movimentos anônimos, múltiplos e absolutamente descoordenados. É um problema de conflito cultural mais sério. Ou seja: em que termos o Ocidente, a partir da racionalidade reificada, da tecnologia, de fato expropriou o processo cultural dos países que o receberam? Esse é um problema muito grave neste momento. Quando uma menina-bomba, em Gaza, sai de casa, beija os pais, pega o ônibus e explode, ela está sendo comandada pela Al-Qaeda? Ou o que temos é um sentimento que foi ao inconsciente coletivo de toda uma faixa do mundo islâmico – no sentido de que o Ocidente expropria um mundo interior e cria uma civilização sob a ditadura mediática?

 

O radicalismo islâmico é um gigante adormecido?

Eu diria que sim. Mas eu diria que, efetivamente, ele não foi gerado sem que houvesse um contraponto muito violento. Esse contraponto foi gerado com a dominação ocidental no começo do século XX, e o grotesco foi a presença ocidental no Irã antes de Khomeini. Acho que a reação dos aiatolás foi a mais importante no sentido de, na última hora, se recuperar a noção da dignidade interior e reclamá-la na sua integridade, porque foi a partir da teocracia islâmica que se recompôs a idéia da integridade de uma alma que começa pela religião. As teocracias islâmicas são o contraponto ao excesso do Ocidente modernizador. 

 

Então o sr. diria que, sem o Irã, a questão não se resolve?

Eu diria que o Irã tem uma função mater nisso.

 

Mas no momento o Irã não dá sinais de que queira conversar com o Ocidente, não é isso?

Isso é um problema que tem de ser resolvido a prazo médio e longo. As nações que se sentiram oprimidas têm direito a exprimir as suas dificuldades ao longo do tempo. Isso não é um problema que vai ser resolvido imediatamente, nem com ingênuas buscas de uma cultura da paz ou do perdão. Não é apenas com uma ética que se resolve esse problema. É com uma profunda mudança das imagens interiores das culturas em confronto e, sobretudo, com autenticação de outros gestos que possam definir essa posição. Vou dar um exemplo: a retomada da vinda da mocidade árabe aos colégios e às universidades americanas. De outro lado, a recepção de uma nova geração dos EUA nesse mesmo mundo islâmico.

Uma civilização do medo é uma civilização do preconceito. Uma civilização do preconceito mostra o que se viu agora, no último relatório Gallup: 60% dos americanos médios não sabem o que é o Islão, e 80%, dentre os 60%, não querem saber.


Entrevista reproduzida sob autorização expressa da Rádio das Nações Unidas, à qual se reservam todos os direitos.

 

® O Debatedouro - ISSN 1678 6637

 

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