Embaixador
Luís Fonseca
Secretário-executivo
da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)
Quais
são as questões que preocupam o secretariado da CPLP no
momento?
Nós,
evidentemente, temos alguns aspectos a considerar, estando
entre eles a necessidade de uma maior capacitação do
secretariado executivo. Neste momento, estamos precisamente a
debater propostas no sentido de reforçar essa capacidade, de
garantir que o secretariado possa melhor responder às
expectativas dos cidadãos e também dos Estados, e, por outro
lado, algumas pequenas alterações que vão ser propostas na
própria organização, na forma como nos organizamos para
trabalhar.
Entre
as propostas feitas pela CPLP, consta uma assembléia
interparlamentar. Por que tal estrutura – sabendo que, no nível
comunitário europeu, essa estrutura não funcionou?
Eu
acho que a assembléia parlamentar que está a referir-se é
uma instância que foi proposta pelos parlamentos, e não por
um secretariado. O objetivo é fazer com que a CPLP tenha uma
dimensão parlamentar, o que, até agora, não tem acontecido.
O que tem acontecido é que os presidentes dos parlamentos reúnem-se
anualmente para analisar a evolução e o estado, o andamento
da CPLP. E devo dizer que, nas duas últimas reuniões que
fizeram, convidaram o secretário-executivo, e também o
diretor-executivo do Instituto Internacional de Língua
Portuguesa para estarem presentes nas reuniões e responder a
perguntas. Portanto, de certa maneira, acabamos por prestar
conta de nossas atividades aos nossos parlamentos. A proposta,
então, é de criar um parlamento que passe a fazer parte dos
órgãos da CPLP. Mas, repare, não se trata de uma emulação
da experiência européia. Trata-se de ajuntar as reuniões
dos chefes de Estado, o conselho de ministros e as reuniões
ministeriais, e teremos mais um órgão consultivo, um órgão
de seguimento.
Quais
serão as propostas da CPLP para tornar a Comunidade mais próxima
das pessoas, no sentido político?
Eu
não sei se algum dia teremos uma Comunidade que não tenha o
elemento político. O elemento político é fundamental, já
que a própria constituição da CPLP foi uma decisão política,
e é impossível que ela funcione sem que o faça pela dimensão
política. O que podemos dizer é que existe, de fato, de
nosso lado, uma grande preocupação no sentido de aproximar
mais a CPLP dos cidadãos. Como se faz isso? De um lado, já
adotamos uma disposição, na reunião de ministros no ano
passado, em Luanda, que possibilita uma maior intervenção
das organizações da sociedade civil na vida da organização,
através do estatuto de “observador”. Esse estatuto
permite às organizações que tenham interesse participar e
dar a sua opinião – e influenciar o andamento das questões
na CPLP. Por outro lado, nós temos procurado estimular ao máximo
a própria criação de redes que reúnam interesses homólogos
em todos os países, e tem havido uma grande aproximação
nesse sentido. Hoje, já há organizações que se identificam
como defensoras do ideal comunitário da CPLP.
Há
uma questão em que nos temos empenhado: o aumento de
facilidades para a circulação de pessoas entre os nossos países.
Existe um grupo que se dedica à reflexão sobre as formas de
facilitar a circulação das pessoas no âmbito da CPLP, de
modo que a Comunidade ganhe cada vez mais em significado.
Significado para cada um dos cidadãos. Outro aspecto que
constitui uma preocupação nossa é a garantia de que nós
consigamos, no médio prazo, melhorar a informação que
circula a respeito dos nossos países, porque consideramos que
aí existe ainda uma fraqueza bastante grande, no fato de
nossas realidades não serem suficientemente conhecidas.
Poucos conhecem de São Tomé em Angola, poucos conhecem do
Brasil em São Tomé, poucos conhecem do Timor Leste em Moçambique
ou no Guiné-Bissau. Há uma necessidade de ocorrer uma maior
circulação de informações, um maior intercâmbio cultural,
maior intercâmbio de pessoas, maior intercâmbio econômico
– são objetivos que, imaginamos, acabarão recebendo uma
maior atenção, mais cedo ou mais tarde, da parte dos
governos, da parte dos decisores, da parte de todos nós.