Novas
reservas de petróleo, programa de biodiesel e a
renegociação de Itaipu: o Brasil é uma potência
energética?
:::
SIM
Yes,
nós temos bonança!
Por
Fernanda
Laís de Mattos*
O
Brasil não se tornou líder em energia por acaso.
No decorrer da historia, as matrizes energéticas
brasileira e mundial se modificaram
estruturalmente, sobretudo, em decorrência dos
choques de petróleo e da busca por conciliação
entre crescimento econômico e preservação do
meio ambiente. O Brasil, em especial, pautou sua
inserção internacional pela diversificação do grid
energético, reduzindo a dependência externa
e despontando como potência no setor de energia.
Ver-se-á como as últimas descobertas de petróleo
e gás natural anunciadas, a experiência
brasileira com biocombustíveis e as eventuais
renegociações do Tratado de Itaipu corroboram a
liderança energética brasileira.
Com
as pesquisas realizadas, nos campos de Tupi e
Carioca, pela Petrobras, estima-se que o Brasil
detenha reservas de petróleo na casa de bilhões
de barris.
Enquanto não se anunciam os dados de Carioca
oficialmente, investidores internacionais aguardam
a exploração de Tupi e da Bacia de Santos com
euforia. As expectativas são de que a camada
brasileira do pré-sal tenha "efeito dramático
na demanda mundial por serviços relacionados ao
petróleo".
Esses indicadores apontam, de fato, para o
redesenho da balança de poder internacional em favor do Brasil, que,
cada vez mais, é interlocutor comercial de peso,
tendo-se em conta a publicação do Mapa do
Caminho de Bali e o aumento vertiginoso dos preços
do barril de petróleo.
Se,
no plano global, as correlações de força são
dinâmicas, a presença das cifras brasileiras no
rol das maiores reservas do mundo abriu espaço
para que os interesses estratégicos nacionais
sejam sopesados. A promoção da desconcentração
do poder mundial – na expressão do embaixador
Roberto Abdenur – é impulsionada pelos novos
recursos de poder acima relacionados, mas não
seria possível sem o emprego dos recursos diplomáticos
do Brasil. Uma nova leitura do interesse energético
nacional, que significou investimentos em
tecnologia para exploração em águas profundas e
inserção madura da Petrobrás no exterior, com
apoio do Estado Logístico, maximizou a autonomia
do país, pela participação
no comércio ambiental internacional. Isso pode
ser reconhecido tanto nos convites reiterados para
o Brasil participar das reuniões do G-8, quanto
nas novas iniciativas de concertação política
(verdadeiras coalizões de geometria econômica
variável), IBAS, FOCALAL, CASPA, CAFRAS, entre
outras.
O
Plano Nacional de Produção e Uso de Biodiesel
superou expectativas. Por um lado, a cana-de-açúcar
chegou ao pódio da matriz brasileira, a partir de
2005, atingindo, em 2007, o segundo lugar, com 16%
de participação, 1,3% à frente da energia hidráulica.
Por outro lado, o que seria, apenas, uma
iniciativa para diminuir a dependência de petróleo
importado, aumentar a inclusão social e diminuir
a emissão de poluentes, tornou-se, também, uma
bandeira internacional de concretização dos
ideais de desenvolvimento sustentável. Não é
demais lembrar a recente visita do presidente
norte-americano para estabelecer parceria na produção
de etanol. Mais recentemente, a British Petroleum
adquiriu 50% da joint venture entre SantelisaVale e Grupo Maeda, para desenvolver
projetos de biodiesel no Cerrado, com
investimentos previstos de, aproximadamente, 1,66
bilhão em açúcar e álcool.
Graças
à importância da energia limpa para a matriz
brasileira, o país deve ser visto como
interlocutor indispensável na configuração da
ordem ambiental internacional. Em 2007, a energia
renovável representou 45,8% da matriz, bem acima
da média mundial, que foi 12,7%.
Por conseguinte, lastreado no sucesso doméstico,
o legitimo protagonismo diplomático brasileiro em
Bali, cujas tradições remontam à Eco92, é
evidencia do universalismo da política externa
brasileira (PEB) e da capacidade de o Brasil
articular consensos.
Isso se tornou possível por meio de dois vetores:
relações bilaterais com países de peso
(projetos de cooperação ambiental e/ou energética
com Estados Unidos e Alemanha) e relações com
regiões importantes (experiência brasileira com
o biodiesel como modelo para programas de inclusão
social na África).
A
respeito da questão de Itaipu, a chancelaria
brasileira fundamenta as negociações com o
Paraguai no diálogo e no entendimento. A defesa
da prevalência dos princípios de direito
internacional e dos compromissos contratuais não
apenas enfatiza o desejo de preservar as relações
com o país vizinho, mas também de respeitar as
justas obrigações decorrentes do acordo. A PEB
ganha, portanto, autoridade pelo respeito a seus
interlocutores.
Para
o presidente Lula, o desenvolvimento energético
do Brasil faz parte de projeto de paz e
desenvolvimento da América do Sul.
A prioridade do contexto regional, como modus
operandi da PEB, dá coerência à inserção
internacional do país, pois os princípios
defendidos no âmbito regional são também
preconizados na cooperação Sul-Sul e nas relações
internacionais do Brasil. O Brasil é, assim, uma
nova potência energética, um global
player, porquanto seus recursos energéticos são
inerentemente geopolíticos. Mais além, exerce
liderança, sem ter de reclamá-la. Nesse sentido,
é lícito afirmar que a inserção do Brasil, na
matriz energética internacional, é fundada na
autonomia pela diversificação da sua matriz
energética e pela coerência dos fundamentos da
sua política externa.
*
Bacharela em Direito (Universidade Federal do Rio
Grande do Norte)
:::
NÃO
O
dedo podre do Estado
Por
Frederico Bartels Ferreira**
O
Brasil de Lula tem buscado entrar no jogo
internacional da diplomacia energética, porém
sem sucessos recentes. O caminho entre o Brasil e
o status de
potência energética ainda é muito longo e,
pelas ações do governo, estamos cada vez mais
distante da meta. A política energética
brasileira encontra-se perdida entre a ingerência
e a incompetência estatal. E como cereja no bolo
da política energética, ainda temos
ambientalistas que insistem na falácia criada por
Al Gore e pelo Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas da ONU como motivo para tolher
qualquer possível independência energética.
Dentro
deste cenário emergem os três pontos centrais
deste contraponto: i) as novas reservas de petróleo
em solo brasileiro; ii) o programa de biodiesel e
o aumento da demanda por alimentos; e iii) a
renegociação dos acordos de Itaipu com o
Paraguai. Todos estes elementos estão presentes
no questionamento central sobre a capacidade
brasileira no campo energético e a projeção
nacional como potência energética.
A
descoberta dos campos de petróleo Tupi e Carioca
aponta para um possível futuro promissor para o
Brasil no campo de energia. Não obstante, para
traduzir campo de petróleo em alto mar em
capacidade energética, ainda são necessários
100 bilhões de dólares em investimento até
2012. Anúncios apontam que a Petrobrás já
estaria buscando recursos no exterior para
investir na exploração dos campos recém-descobertos.
Não obstante, a Petrobrás sofreu uma queda na
produção de petróleo de 1,4% dentro do país, o
que aumenta a pressão sobre o preço dos combustíveis
para o consumidor final.
Não só a empresa estatal tem tido problemas para
explorar os campos atuais de petróleo, como o
governo tem tido que abaixar impostos, como a
Cide, para maquiar a ineficiência da estatal para
o consumidor final. Se Petrobrás tem se mostrado
incapaz de fornecer seus produtos a um preço
desejável pelo governo, como poderemos esperar
que seja capaz de explorar novos campos de petróleo?
O problema torna-se ainda mais agudo quando vemos
que as decisões da Petrobrás estão influindo no
processo decisório governamental. A potência
energética chamada Brasil não consegue ofertar
combustíveis a preços competitivos sem
maquiagem. Não haveria chegado a hora de abrir
esse mercado?
O
Programa de Biodiesel emerge como uma solução
para os problemas criados pelos ambientalistas sob
a bandeira do aquecimento global. Contudo com o
aumento dos preços dos alimentos graças ao
aumento da demanda por milho, soja e cana entre
outros - o remédio cada vez mais se assemelha à
doença. Como coloca Lieberman,
alguns bio-combustíveis têm se mostrado não só
mais poluentes, em termos de gases do efeito
estufa, do que a gasolina, como têm gerado os
efeitos nocivos que o aquecimento global geraria
no longo prazo. Esse é o ponto principal que
Lieberman explora e que explica porque considera a
solução pior do que o problema. A possibilidade
de fome gerada pelo aumento dos preços dos
alimentos representa a concretização dos alarmes
ambientalistas de que a maior temperatura da Terra
iria prejudicar as plantações. Portanto, a solução
criada para mitigar os problemas alegados pelos
ambientalistas está causando os problemas que
eles alegaram que seriam causados. A grande ironia
desta problemática é que as populações de
baixa renda, que são assumidamente defendidas
pelo Presidente Lula, serão as mais afetadas por
aumentos no custo de alimentos. Jean Ziegler,
especialista no direito alimentício contratado
pelo ONU, classificou o uso de áreas plantáveis
para a produção de bio-combustível como um
crime contra a humanidade.
O ponto ilustra novamente a tragédia causada às
populações mais pobres pelo uso de fontes
alternativas. O dilema entre energia, alimentos e
mudança climática fez com que a ONU, através da
FAO, iniciasse o que faz de mais efetivo, promover
conferências. Está marcada para os dias 3 a 5 de
junho de 2008, em Roma, a Conferência de Alto Nível
em Segurança Alimentar Mundial: o Desafios da
Mudança Climática e Bioenergia.
Resta saber quem vai ganhar a conferência: os
ambientalistas dos alimentos ou ambientalistas do
bio-combustível. Por hora, quem já perdeu foi o status
brasileiro de potência energética.
Na
pendência com o Paraguai, o governo brasileiro
vem fornecendo sinais ambíguos. O presidente
eleito do Paraguai, Fernando Lugo, apresenta
demandas ao Brasil sobre a re-negociação do
tratado que rege a usina bi-nacional de Itaipu. O
governo brasileiro tem se mostrado incapaz de
adotar uma posição uníssona na demanda
paraguaia: enquanto Marco Aurélio Garcia aponta
que a demanda é legítima, Dilma Rousseff por sua
vez explana que o Brasil não estaria disposto à
re-negociar o tratado. No momento presente, o
Brasil não consegue determinar sua posição
oficial, enquanto os paraguaios aumentam suas
expressões de ódio queimando bandeiras
verde-amarelas em praça pública.
Ainda existem muitas questões em aberto, como as
demandas precisas do Paraguai, e o diretor-geral
brasileiro de Itaipu apontou que ainda não houve
reivindicação oficial. O melhor para a sociedade
civil brasileira é que a diplomacia da fome e dos
pobres não faça com que haja perda em qualidade
de vida para a população ao ser forçada a pagar
mais caro pelos mesmos produtos em nome da justiça
social - internacional.
**
Bacharelando em Relações Internacionais
(Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais)