O espancamento da empregada doméstica Sirley
Carvalho Pinto na Barra da Tijuca por um grupo de
jovens universitários ocasionou diversas avaliações
sobre assuntos como violência na sociedade, crise da
família e afins. De especial interesse foi o comentário
feito pelo pai de um deles, para quem “Eles não são
bandidos. Tem que criar outras instâncias para
puni-los”.
Um detalhe que parece ter passado batido, no entanto,
foi a ironia do nome do local onde se deu o delito:
Avenida Lucio Costa. Como mais de um comentarista
percebeu, a questão que a passagem citada coloca é
sobre quais os valores públicos contidos na declaração.
A trajetória do arquiteto brasileiro que dá nome à
avenida convida a uma reflexão a respeito.
Os
feitos de Lucio Costa são vários e o que se propõe
aqui é um breve resgate de alguns aspectos do Plano
Piloto de Brasília a partir dos quais se pode dizer,
com Jacques Rancière,
que Lucio Costa participou da fundação de uma nova
partilha do sensível no Brasil. Brasília culmina uma
tradição arquitetônica ligada à concepção
modernista da modernidade, em que a transitoriedade do
presente aponta para a liberdade do futuro. No espaço
que é antes de ações que de representações, “a
arquitetura se completa conosco e nossa completude se
faz na medida em que os edifícios e as cidades
permitam atuarem-se as potencialidades históricas de
nosso vir-a-ser”.
As
práticas artísticas embutidas no projeto urbano da
nova capital brasileira intervieram na distribuição
geral das maneiras de fazer, em relações destas com
maneiras e ser e, finalmente, em formas de
visibilidade no país. O que se pode ver, e o que se
pode dizer sobre o que é visto, sofrem significativas
alterações a partir da construção do Plano Piloto.
Redistribuíram-se, nas palavras de Rancière, tempos
e espaços, lugares e identidades.
Para o arquiteto, em termos sumários, na
“intenção plástica” do artista há espaço para
sua criatividade, mas também há a informação pelas
tradições em que se insere (a arquitetura popular
portuguesa, por exemplo). Em seu caso, Lucio defendia
uma “saúde plástica perfeita” em que o elo entre
função e forma (ética e estética) se pautava pelas
necessidades de transformação na realidade
brasileira. Em suas palavras, o tempo da “produção
em massa” deveria ser moldado de forma a permitir a
“distribuição em massa” que atendesse as exigências
de dignidade humana. Diz-se sobre os escritos de
Lucio: “indústria moderna, justiça social, utopia
modernista e intervenção governamental: (...) o que
está em jogo não é apenas a expectativa de se
redesenhar o futuro, mas também o esforço em se
resgatar, em se fazer reviver o passado, um certo
passado”.
Brasília, em particular, “nasceu
do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele
toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou
seja, o próprio sinal da cruz”.
Para Mario Pedrosa, Lucio realizou
reconhecimento pleno de que a solução
possível ainda era na base da experiência colonial,
quer dizer, uma tomada de posse à moda cabralina,
chanfrando na terra o signo da cruz ou numa evocação
mais ‘moderna’ e otimista, fazendo pousar
docemente sobre a sua superfície, a forma de um avião.
Lucio
defende uma conexão do passado colonial com o devir
moderno (entendido como uma pista de aterrissagem?).
Esta conexão é especificada por Pedrosa: a base
colonial sugere a associação entre a ação
demarcadora – o assinalar um lugar – e a
simbologia cristã – o sinal da cruz.
Em Brasília, o savoir faire do construtor ideal-típico da América Hispânica
divisado por Sérgio Buarque de Holanda, o
ladrilhador, é claramente retomado, com o proverbial
zelo minucioso e previdente pautando o esforço de
ordenar o mundo. Os preceitos da política estética
de Lucio Costa estão afinados com a noção do zelo
urbanístico, que se insinuava no Brasil já no século
XVIII com a Demarcação Diamantina, ainda que
procedimentalmente. Diamantina, aliás, é citada por
Lucio como um dos “ingredientes” da concepção
urbanística de Brasília. Como pergunta Renato Janine
Ribeiro: “há ligação entre o ladrilho e a
utopia?”
Quando a construção do urbano é a ação política
por excelência, lembra Janine a partir de Thomas
More, o gesto primário de Lucio Costa ao “assinalar
um lugar”, como ladrilhador, não pode ser mais rico
em seu significado.
Por outro lado, a cruz chanfrada no chão do Planalto Central
continua, do período colonial, o fundo histórico –
religioso, em especial – europeu. Este fundo,
indicava Joaquim Nabuco em Minha Formação, é característica fundamental da cultura
brasileira. Mas há um indício colonial de relevo
nesta questão do sinal da cruz. Ele é fornecido pelo
comentário de Lucio Costa sobre o “Cristo
Crucificado”, escultura devocional do Aleijadinho
que orna o altar da Matriz de Nossa Senhora da Conceição
em Catas Altas, Minas Gerais. Diz o arquiteto:
“depois de tantos séculos de figuração como
crucificado ‘vencido’, o Aleijadinho foi o único
artista, e crente, que ousou figurá-lo de cabeça
erguida, encarando a Eternidade de
frente”.
Ecoa aqui uma advertência feita por
Ronaldo Brito: não estaria Lucio Costa preparado para
ver um determinado passado colonial, a partir do qual
poderia pensar uma ruptura transformadora moderna?
Vale considerar o deslocamento do sofrimento em favor
da altivez do Cristo crucificado, apreciado por Lucio
na obra do Aleijadinho, como um aporte semântico
positivo ao Plano Piloto da “Capital da Esperança”,
conforme a descreveu André Malraux.
A
Sinfonia da Alvorada, composição de Antonio
Carlos Jobim com letra de Vinicius de Moraes,
comissionada por Kubitschek para a inauguração da
cidade, principia com uma intrigante frase: “No
princípio era o ermo”. Quando se contrasta tal
afirmação com a noção do “fundo histórico” de
um Nabuco, evidencia-se a idéia de Brasília como um
“novo começo” na história brasileira, bem em
linha com as expectativas modernistas sobre a atuação
das potencialidades históricas do vir-a-ser nacional.
Neste sentido, escrevia Carlos
Drummond de Andrade no poema Destino:
Brasília, de 1956:
Vou
no rumo de Brasília,
o
Catete vai ficar.
Se
ele for, eu rogo auxílio
a
Exu, monarca do ar
Pulando para o presente, o filme Brasília,
18%, de Nelson Pereira dos Santos, pode ser visto
como uma crítica interessante a esse projeto
modernista. A trama, passada na Brasília contemporânea
com o tema da corrupção, tem todas suas personagens
com nomes de ilustres personalidades da cena
intelectual e política brasileira. Assim, o poderoso
senador se chama Silvio Romero, o médico legista
chamado a resolver um assassinato se chama Olavo Bilac
e o advogado de defesa do suspeito do crime, Rui
Barbosa. A instigante operação realizada pelo filme
é mostrar o terreno histórico da capital do Planalto
Central colonizado pelas velhas peias da política
brasileira, incapaz destarte de se autonomizar das práticas
que seus urbanistas quiseram suprimir. Em outra dimensão,
a (tentativa de) supressão da noção tradicional de rua em Brasília dá a pensar o mesmo problema.
Em meio às recalcitrâncias da história
brasileira, a partilha do sensível criada pelo
modernismo arquitetônico brasileiro, como o de Lucio
Costa, mantém sua força na medida em que o Brasil
“condenado ao moderno só se torna igual a si mesmo
à medida que é capaz de estranhar-se, olhando de um
ponto de vista avançado para o horizonte desimpedido
e desencantado do cerrado-sertão. Aí reside o poder
de desvelamento persuasivo de Brasília”.
Brasília, propondo um modelo de racionalidade
governamental de aplicabilidade nacional, confirma o
papel das cidades como matrizes de inteligibilidade na
lida com o que Michel Foucault chama de Estados de
população.
O
ocorrido na Avenida Lucio Costa reveste-se de
interesse justamente na medida em que guarda uma
ironia em relação a um dos feitos do sujeito que
nomeia o local. Elementos do projeto ético e estético
de Lucio Costa parecem se perder em meio a tais
eventos. E é neste contexto que se pode dizer, com
Lorenzo Mammí, que Brasília deu ao Brasil uma “ruína
moderna”. Diz o autor: “Talvez toda história
comece por um grande fracasso, um fracasso que valha a
pena”.
Brasília não pode ser relevada, aí, pela potência
imaginativa com que fecunda não só o pensamento estético
brasileiro, mas também, acrescentar-se-ia a Mammí
com base nos planos de Lucio Costa, o ético.
“Polícia do Rio prende 4º rapaz acusado de
agredir doméstica”. Folha de São Paulo,
23 de junho de 2007, p.C4.
Rancière, Jacques. A partilha do sensível : estética e política. São Paulo: EXO
experimental org.; Ed. 34, 2005.
Brandão, Carlos Antônio Leite. A política na
arquitetura de Niemeyer. In: Miranda, Wander Melo
(Org). Anos JK : margens da modernidade. São Paulo: Imprensa Oficial; Rio
de Janeiro: Casa de Lucio Costa, 2002, p.241.
Araújo, Ricardo Benzaquen de.
Nas asas da razão: ética e estética na
obra de Lucio Costa. In: Nobre, Ana Luiza et
al. (Orgs). Um
modo de ser moderno : Lucio Costa e a crítica
contemporânea. São Paulo: Cosac & Naify,
2004, p.68
Pedrosa, Mario. Dos
murais de Portinari aos espaços de Brasília.
São Paulo: Editora Perspectiva, 1981, p.307.
Ribeiro, Renato Janine. Sonho planejado. Bravo,
n.98, nov. 2005, p.120.
Wisnik, Guilherme. Lucio Costa. São Paulo: Cosac & Naify, 2001, p.27
Mammí, Lorenzo. Encalhes e Desmanches: Ruínas do
modernismo na arte contemporânea brasileira. In: VI Simpósio Internacional Dialogos Ibero-Americanos : reenfocando
visiones, problemas y posibilidades en el arte
contemporáneo. Del 15 al 18 marzo de 2005.
Valencia: Ed. Ivan Valencia; Instituto de Arte
Modern; Fundación Astroc, 2005, p.220.